Aprender brincando

Jéssica Luz

A geração de nerds deu cara nova ao mundo da tecnologia. Unindo conhecimento, técnica e diversão, esses profissionais se tornam verdadeiros magos da computação

 

Aprendemos a trabalhar em equipe e a resolver problemas diferentes de forma rápida”, conta Álisson Bertochi, 25 anos, sobre o o projeto CTF-BR, ou Capture the Flag. A modalidade de competição une equipes do mundo todo com propósitos bem específicos: resolver problemas relacionados à segurança da informação. Para os profissionais da tecnologia, essas competições proporcionam o desenvolvimento de características fundamentais para que eles se destaquem na área, além da diversão que vem agregada a todo trabalho desenvolvido durante o evento.

Capture the Flag, Capturar a bandeira, em tradução livre, é um tipo de competição que, diferente de maratonas de programação, tem um trabalho voltado para a multidisciplinaridade da programação, focando no trabalho em equipe e na resolução de problemas de forma rápida e objetiva. Outra diferença entre os dois tipos de competição é que as maratonas de programação são presenciais, enquanto os CTFs, por questões de falta de recursos, normalmente são feitos online.

São 70 participantes do CTF-BR que ministram palestras e gerenciam competições, com objetivo de tornar a atividade tão popular quanto outras maratonas de programação. De acordo com Álisson, organizador do projeto, a competição traz benefícios para a vida de estudantes e dos profissionais de tecnologia. “Uma das áreas que trabalha diretamente com estudantes é o CTF-BR University, que busca levar ao ambiente acadêmico o novo estilo de competições, atuando em universidades, instituições de ensino e eventos voltados para a tecnologia da informação e segurança da tecnologia”, explica Álisson.

Clique sobre a imagem e saiba mais sobre o projeto:

Untitled 1

Frutos do trabalho

Bruno Ventura, 24 anos, é um dos membros do projeto. Ele atua como palestrante e trabalha profissionalmente como desenvolvedor de software. Bruno valoriza os feedbacks das competições e diz que alunos de várias universidades procuram o grupo para que sejam ministradas palestras ou organizadas competições dentro de suas respectivas instituições de ensino.  

No final de outubro de 2015, o grupo foi surpreendido ao ser convidado para organizar uma competição para o Instituto Alpha Lumen, voltado para crianças e adolescentes superdotados, de São José do Rio Preto, em São Paulo. “O grande diferencial foram os participantes: todos eram menores de idade e alunos dos ensinos fundamental e médio”, conta.

Para os coordenadores do projeto, esse foi um grande passo para a área do CTF-BR University, que estava habituada a atuar somente com palestras em universidades. Dessa vez, a competição foi realizada por acesso remoto.  “Foi um evento organizado de Florianópolis para São Paulo sem que houvesse contato físico dos organizadores com os participantes”, explica Bruno.

Para ele, o desconhecimento sobre o assunto parte da falta de apoio das universidades e da falta de interesse pelo conhecimento de estudantes e profissionais — o que deixa fora do alcance dessas pessoas os pontos positivos que as competições trazem a quem adere à prática. “O aprendizado é mais profundo sobre a tecnologia da informação, lógica e trabalho em equipe, o que normalmente não vemos na universidade”, pondera.

Mercado

Aos 24 anos, Felip Barbosa já é dono de uma empresa que trabalha com desenvolvimento de softwares para pequenas e microempresas e criação de aplicativos para iOS e Android. “Tenho interesse por tecnologia desde os meus seis anos de idade, que foi quando ganhei meu primeiro computador. Hoje, tenho minha própria empresa que abri após terminar a faculdade”, conta.

Ele tinha curiosidade e necessidade de aprender para arrumar computadores. Por isso, desde garoto, Felip já participava de comunidades em mídias sociais com pessoas mais experientes e dispostas a ensinar o que fosse preciso para os jovens entusiastas.

Felip ainda não tinha concluído o ensino médio quando passou no vestibular para Engenharia da Computação. Sem pensar muito, largou a escola na metade do terceiro ano para ingressar na universidade, mas é grato à oportunidade que teve a partir da instituição em que estudava: “Foi graças a uma gincana promovida pela escola que eu consegui o meu primeiro trabalho não remunerado na área de programação”.

Recém-chegado à vida universitária, o jovem desenvolveu um sistema que votava em sua turma para que ela ganhasse a gincana. “O site contabilizava grande parte dos votos e eu também tinha controle dos pontos do segundo lugar, para que a posição da minha turma nunca caísse”, relembra com bom humor. Mesmo unindo conhecimento, diversão e esperteza, a turma de Felip não ganhou oficialmente – a votação foi cancelada porque a diferença entre os dois primeiros lugares e o terceiro foi incomum. Hoje, analista de sistemas, depois de ter passado por dois cursos na área de computação, Felip se sente realizado.

Holofote feminino

Quem pensa que o ramo da tecnologia é completamente dominado por homens, não conhece a história das mulheres que também estão chegando ao mercado. Michele Pontes, 23 anos, estuda Análise de Sistemas e é um exemplo de que mulheres também podem ser boas com um computador.

“Eu ainda estava no ensino médio e fiz um desses questionários vocacionais. O resultado deu exatas, e acabei seguindo a área da computação por gostar de ficar no computador”, lembra Michele.

FullSizeRender (1)
Foto: Rodrigo Souza

Apesar de ter decidido no ensino médio o que queria fazer, Michele pondera a dificuldade de as mulheres conseguirem ingressar na área. “Nós não somos criadas para nos interessar por tecnologia. Meninos ganham videogames, meninas ganham bonecas; ainda é difícil para nós”, relata. Para Michele, a maior dificuldade é lidar com o preconceito. Ela conta que cada mulher carrega em suas costas uma responsabilidade. Por serem poucas, qualquer erro é atribuído ao gênero e não a pessoa.

A jovem encontrou no fato de ser curiosa um diferencial. Nas buscas relacionadas à área, Michele conheceu e participou de um CTF. Para ela, a competição nesse estilo ajudou bastante. Por mais que agora ela não tenha tempo para competir, garante que aprendeu muito. “Apesar de ter ficado meio perdida na competição, eu me uni com mais quatro meninos da minha turma e competimos. Eu comecei a pensar diferente e dar valor ao trabalho em equipe”, finaliza.