Quando a arte se reinventa

O Jornal Artefato também conta com a versão falada de cada uma de suas matérias. Caso você deseje ouvir a matéria a seguir, clique no player abaixo.

Prática essencialmente vocal, o canto a capella volta ao cenário artístico.Dessa vez com representantes do gênero Pop

Juliana Procópio

 Som. Ritmo. Harmonia. Imagine reconhecer o som de batuques e instrumentos de corda sem nenhum instrumento ou aparato tecnológico que o produza. De início, é comum supor que existe uma trilha musical de fundo que forneça suporte às vozes, pois como uma pessoa poderia reproduzir o som de um instrumento? É possível? Sim, com voz e muito talento.

Artistas técnicos e habilidosos reproduzem músicas famosas apenas com as cordas vocais e sons de batida musical produzidos pela boca. Passos marcados no chão e dedos estalando para acompanhar o compasso da música também fazem parte do show. E, assim, o trabalho da voz seguindo um ritmo, com movimento e talento faz do silêncio seu espetáculo.

♪ Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si ♫ A escala musical é composta de notas ordenadas da mais grave à mais aguda. Já os personagens aqui apresentados são ordenados de forma aleatória. São profissionais de ramos variados que se reúnem com um objetivo comum: o canto a  capela. São confeiteiros, servidores públicos e músicos que compõem o grupo Setblack formado por Ana Barreto, Ana Félix, Claudia Lima, Priscila Martins, David Reis, Wellington Fagundes, Dairo Junior e Paulo Santos.Idealizado por Paulo Santos e Ana Barreto, o grupo  começou as atividades em setembro de 2014. Neste ano, conquistaram a segunda colocação no Concurso Nacional Brasil Vocal de Novos Grupo Vocais 2014, promovido pelo CCBB do Rio de Janeiro. Eles foram os terceiros colocados no reality show brasileiro – A Capella – promovido pela Rede Globo e apresentado no Domingão do Faustão.

Com sorriso de nostalgia, Paulo conta como o grupo surgiu: “Nós tinhamos outros projetos e a ideia de nos mudarmos para São Paulo, mas por vários motivos isso não deu certo. Então montamos um novo grupo aqui em Brasília, chamamos o pessoal que a gente conhecia e gostava desse trabalho e criamos o SetBlack”.

O grupo brasiliense faz dinâmicas, coreografadas, e o público participa do show, ora cantando, ora fazendo o papel de backing vocal – vocal de apoio que canta em segundo plano acompanhando o solista. Eles pautam seu repertório na música negra de várias partes do mundo, e em seus shows o público pode ouvir arranjos músicais de artistas famosos como Pharrell Williams e Sandra de Sá.

Grupo Setblack no Domingão do Faustão:


Encontre o grupo nas redes sociais: square-facebook-128  instagram_2016_icon

 

História

Considera-se que o canto a capella é originário do Canto Gregoriano, porém, o primeiro doutor em Educação Musical no Brasil pela University of Missouri com ênfase em canto coral, David Junker, explica que a prática é ainda mais antiga: “O termo a capella é originário do canto realizado em capelas, desenvolvido na igreja, mas existe em todo o desenvolvimento da raça humana. Na realidade, música coral existe mesmo na própria Bíblia, antes do canto gregoriano que era próprio dos monges”.,

O maestro explica que a igreja funcionava como uma espécie de patrocinador do saber e das artes, por isso o canto era exclusivo deste ambiente. Aos poucos o estímulo musical foi saindo das igrejas, passando para os nobres e, depois, chegou à comunidade como um todo. “Paralelo a isso existiam cantores no norte e sul da França que faziam serenatas. Tudo isso era música a capella”, .

Renovação

Apesar da origem sacra, recentemente o público viu surgir uma nova forma de cantar a capella. A arte que por muito tempo foi vista como puramente religiosa adquiriu um novo formato totalmente pop.

Em 2010, o seriado musical Glee apresentou uma versão a capella da música Teenage Dream da cantora americana Katy Perry. Lançada virtualmente, a música vendeu 214 mil cópias digitais nos Estados Unidos em apenas uma semana, mostrando a popularidade que o estilo começava a alcançar

O reality show Sing Off, exibido entre 2009 e 2014, e a franquia Pitch Perfect – A Escolha Perfeita, com filmes lançados em 2012 e 2015 e um terceiro programado para 2017, também podem ser indicados como responsáveis por mostrarem ao público que é possível fazer grandes apresentações sem instrumentos, de modo artístico, profissional e divertido.

Fora do país, o grupo Pentatonix é reconhecido e realiza apresentações superproduzidas no formato a capella. No Brasil, o carioca Gó gó Boys é um dos que se destaca na música. Composto por cinco músicos de profissão, eles cantam aliando o interesse pela música sem instrumentos com a vontade de fazer humor, fugindo do que era feito tradicionalmente nesse tipo de arte.

Se a intenção era cantar fazendo humor, é certo que o nome do grupo contribuiu para isso, como conta Fabiano Lacombe: “Certa vez tivemos uma confusão, por conta do nosso nome – que faz um trocadilho, trocando “Go-go” por “gogó” -: um sujeito chegou no show achando que teria striptease… Acho que ele deve ter ficado um pouco decepcionado com o nosso porte nada atlético”.

Apesar das situações descontraídas, os músicos são bastante sérios no que se propõem a fazer. “Muita gente duvida nos shows de que estamos fazendo tudo apenas com as vozes. As pessoas acham que tem uma base por trás, um playback. Mas isso, pra gente, é o maior elogio que podemos ter”, orgulha-se Fabiano.

Novos talentos

A ex-participante de coral e hoje regente do grupo São Vicente a Capella, Patrícia Costa relata que cantava em um coro de 36 vozes que tinha o projeto de unir interpretação teatral ao canto coral. A estratégia tem sido vista nos principais grupos contemporâneos de canto A Capella, como o Pentatonix e o SetBlack, por exemplo.

Patrícia relata que desenvolve esta técnica com coro juvenil e que ao longo de 23 anos tem visto o interesse dos jovens crescer. “Acho que esse jeito de fazer música coral com outros recursos tem ajudado a atrair os mais novos, que quase sempre torceram o nariz ou não se sentiam adequados ao coro”, conta.

Tanto a regente quanto o maestro David são unânimes em dizer que a popularização d’a capella é benéfica para a música. Na opinião de Junker, a arte sacra não perdeu espaço, mas sim houve um ganho no gênero musical. Para Patrícia sempre existirá espaço para todas as formas de arte. “Não vejo a ampliação de repertório como uma ameaça aos puristas. É maravilhoso que outros estilos estejam chegando para o canto em grupo”, acrescenta.

Ela encerra declarando que a música não é uma arte para poucos e que havendo interesse qualquer pessoa pode fazer parte de um coro. “A arte é inerente ao ser humano, raramente há um caso de alguém que não afina de jeito nenhum. Uns têm facilidade pra exatas, outros para esportes, mas todo mundo dá seu jeito de se desenvolver”, incentiva.

Veja abaixo mais exemplos de grupos de canto a capella:

Grupo Gó Gó Boys, do estado do Rio de Janeiro

Série americana “Glee”, que conta a história de estudantes que se envolvem com o grupo de canto escola

Pentatonix é um grupo estadunidense a cappella composto por cinco vocalistas: Scott Hoying, Kirstin “Kirstie” Maldonado, Mitchell “Mitch” Grassi, Avriel “Avi” Kaplan e Kevin “KO” Olusola, formado na cidade de Arlington, Texas

 

Foto: Beatriz Ferreira