Não é questão de peso

Especialistas afirmam que estar acima do peso não significa estar doente, mas alertam para os cuidados a serem tomados

Amanda Lima e Andressa Guimarães

Tem que ser magra, não pode ser muito alta, o cabelo tem que ser liso e a maquiagem deve estar intacta. Ser bonita, ter boa aparência, fazer dietas malucas para ter o corpo perfeito. Não é de hoje que padrões são impostos às mulheres diariamente. No século passado, por exemplo, mulheres com seios, coxas e barriga avantajadas eram apontadas como as mais belas, e serviam como musas para pintores e escultores. As que fugiam desse padrão, entretanto, eram consideradas desnutridas ou doentes. Atualmente, ser magro, diferentemente de décadas atrás, é um dos elementos do conjunto chamado beleza. Mas o desespero com o ponteiro da balança muitas vezes desconsidera a preocupação com a saúde.

A busca pela perfeição do corpo pode levar a obsessão, o que faz com que o indivíduo tome atitudes extremas. Luíza*, mede 1,64 e chegou a pesar 42 kg aos 21 anos. Ela afirma que sua paixão pela moda a fez entrar em um mundo de dietas e exercícios em busca do corpo magro e ideal, mas o peso baixo resultou em anorexia. “Eu não conseguia perceber o mal que estava me fazendo, até que comecei a sentir muita dor no peito e fraqueza nos ossos”, relata.

Segundo a psicóloga especialista em realizar avaliações em candidatos a cirurgias bariátricas, Andreza Sorrentino, os padrões estéticos divulgados pela mídia e muitos outros fatores culturais podem exercer uma influência negativa e criar na pessoa uma expectativa irracional de se obter um corpo perfeito. Com isso, para alcançar este ideal de perfeição, há quem faça de tudo para emagrecer e, na maioria dos métodos e técnicas almejadas, não se obtêm sucesso. “Por não atender esses padrões, a pessoa passa a ser seu próprio torturador. Logo, o processo de aceitação precisa ser arduamente trabalhado, desconstruindo esses padrões estabelecidos pela sociedade e ampliando sua percepção para que ela reconheça que o belo ultrapassa o que é utilizado como um modelo de referência”, destaca.

Estar magra ou dentro dos padrões não está associado a qualidade de vida. A endocrinologista especialista em diabetes e emagrecimento, Ana Rachel, afirma que o estereótipo do gordo como sinônimo de desleixo deve ser deixado de lado. “Hoje existem vários estudos, principalmente sobre hormônios, que influenciam no entendimento do metabolismo de cada um, então não dá para generalizar”, pontua. Ela conta que já teve pacientes com excesso de peso que não tinham nenhuma outra doença associada à obesidade e com composição corporal de muita massa magra.

Gorda e saudável

Ao contrário do que muitos pensam, estar acima do peso não significa ter uma saúde ruim. Os padrões de beleza exigidos pela sociedade são, inclusive, tema de pesquisas em comunicação, filosofia, sociologia e antropologia. A doutora em comunicação, Lúcia Santaella, enfatiza, em um de seus livros, que a cultura tende a ser padronizada. Isso envolve a repetição de comportamentos similares aprovados pelo grupo, de modo que contenha uma forma e estrutura reconhecível.

Mas quem foge da beleza padrão, às vezes é excluído de grupos sociais, recebem ofensas ou são constantemente criticados. Nathália Fraga, 20 anos, atualmente pesa 115 kg e se diz satisfeita com o corpo. Em apenas dois anos, engordou 28kg, e foi uma “transição dolorosa”, pois segundo ela o aumento de peso fez com que as pessoas começassem a excluí-la e tratá-la de maneira diferente. Olhares incomodados começaram a ser frequentes e muitas opiniões sobre seu corpo disfarçadas de receio com a saúde eram recorrentes. “O argumento de preocupação com a saúde é o mais usado para começar o discurso de ódio contra o corpo gordo”, relata.

Gordos saudáveis 3

A questão é que, apesar de estar acima do peso, Nathália faz exames anualmente e eles nunca apontaram nenhum problema de saúde. Isso ocorre, pois ao contrário do que muitos imaginam, ela mantém uma alimentação equilibrada que inclui frutas e verduras e não apenas fast food ou comidas industrializadas. “As pessoas não acreditam que podemos ter nossos exames em ordem, nosso corpo funcionando corretamente mesmo estando acima do peso”, desabafa.

Mesmo que a obesidade seja uma doença que acarrete outras, como hipertensão, distúrbio no nível de colesterol, dores articulares e apneia obstrutiva do sono – parada respiratória -, nem todo excesso de peso é maligno. A nutricionista Jaciara Machado Casemiro, relata que a obesidade é uma doença bastante complexa e não há dúvidas quanto à importância de atividade física regular e ingestão alimentar adequada, mas fatores ambientais e genéticos são tão importantes quando estão envolvidos no desenvolvimento da obesidade.

De modo geral, tanto pessoas magras quanto gordas precisam ter hábitos saudáveis de alimentação, praticar exercícios físicos, evitar álcool, cigarro e estresse, além de manter a mente saudável. A nutricionista afirma ainda que é tudo parte de como o indivíduo leva a vida, e recomenda: “É essencial saber se adaptar às situações e ter prazer de viver”, conclui.

*nome fictício

Conteúdo do jornal na íntegra em: Jornal Artefato Junho 2016