Mais curvas, por favor!

Amanda Lima

Saio de casa com roupa simples: short de cintura alta, bota de cano curto e camiseta larga. Caminho em direção à estação de metrô até que escuto das adolescentes que vinham na direção contrária: “que gorda sem noção”. Congelo, olho ao meu redor, analiso as pessoas que ali estavam e percebo que se referiam a mim. Eu, sem noção? Volto meu olhar para elas, que me encaram com cara de repúdio, verificando meu corpo de cima a baixo. Reviro os olhos e sigo meu caminho.

Ao voltar para casa, encontro uma amiga. Exaustas e famintas, decidimos parar em um quiosque próximo para fazer um lanche. Ela, 1,85 de altura e aproximadamente 70 kg, pediu duas coxinhas. Eu, 1,52 de altura e 88 kg, pedi apenas uma. Sentamos nas mesinhas onde fazia sombra até que levanto para pegar maionese. Na volta escuto: “por isso que está gorda”. Assustada, olho diretamente para a senhora que a mim se referia. Ela, com cara de desprezo, logo desvia o olhar. Sento de frente para minha amiga e analiso o ambiente. Quase todos, que também estão ali apreciando comidas gordurosamente deliciosas, me olham comer. Não porque eu estou suja ou porque há algo de errado, tampouco olham para minha amiga. Eles estão assistindo à gorda comer e continuar engordando. Reviro os olhos e termino minha coxinha.

À noite, vou a uma reunião de família na casa de minha avó. Após o dia exaustivo eu só quero saber de comer, beber e dormir. Chego, a todos cumprimento e já vou abrindo uma lata de cerveja. Conversa vai, conversa vem, o jantar está servido. Como toda casa de avó, fartura é algo que nunca falta, especialmente quando há o prato favorito de cada neto. Coincidentemente, não há um tipo de comida servida que eu não goste. Ao me servir, faço questão de colocar um pouco de cada, até que meu prato esteja cheio. Ao me sentar, uma amiga da família se senta ao lado. Estou degustando cada garfada até que noto um olhar sobre mim. “Não acha que colocou muito?”, sou indagada. “Acho que é o tamanho da minha vontade, a quantidade que vai me satisfazer”, respondo. Um longo silêncio se segue, até que: “me preocupo com a sua saúde, você tá meio cheinha né?”. Apenas sorrio e continuo a comer. Talvez incomodada com a minha indiferença, a conhecida sai do meu lado. Reviro os olhos e termino meu jantar.

Cheguei em casa com um turbilhão de pensamentos me perturbando, todos sobre um único tema: meu peso. Será que realmente estou passando dos limites? Será que é tão repugnante estar acima do peso? Será que não há nenhuma beleza no meu corpo? Reflito por um instante. Oras, fiz um check up recentemente… Colesterol, ótimo. Glicose, ótimo. Ferro, ótimo. Cálcio, ótimo. Vitamina D, abaixo do normal. Ou seja, só me falta sol.  Rio sozinha, mas ainda cabisbaixa. A verdade é que toda mulher quer se sentir bela, mas para àquelas fora dos padrões, é um pouco mais difícil. Para alguns, ser gorda é sinônimo de desleixo, falta de vaidade ou sei lá. Só que… Eu me cuido! Tomo banho duas vezes por dia, no mínimo, enquanto algumas nem isso fazem. Então, é isso? Não há nada de belo em mim?

Já em meu quarto, me jogo na cama. Fecho meus olhos na esperança de apagar da memória o dia horroroso que tive, até que sinto uma mão afagando meu rosto. Abro os olhos e vejo o sorriso dele. “Você está tão linda hoje”, me fala enquanto se deita ao meu lado. Assustada, levanto quase que em um pulo e levo o olhar até o espelho. Eu estou horrorosa! Sobrancelha para fazer, cabelo desgrenhado, rímel um pouco borrado… O que há com ele? De repente, ele me puxa de volta para cama e me abraça. “Você é linda”, conclui. Um instante de silêncio se segue até que ele comece a acariciar as linhas redondas do meu corpo. Cada dobrinha, cada voltinha.

Melhor se fizéssemos por nós mesmos, mas às vezes precisamos de alguém para nos abrir os olhos, precisamos que nos digam que não há nada de errado em não seguir padrões. E estão certos! Eu e qualquer outra mulher, cada uma feita a sua maneira, cada uma do seu jeitinho. Todas belas. Com curva, sem curva, com sarda, sem sarda, com pinta, sem pinta, lisa, crespa ou cacheada.

Então, que o mundo se conforme e aprenda a respeitar. Vai ter gorda de roupa curta e biquíni, sim! Vai ter gorda comendo coxinha, chocolate e o que mais der vontade!  Há quem não goste, mas eu… Eu me amo!

Foto: Micaela Lisboa

Conteúdo do jornal na íntegra em: Jornal Artefato Junho 2016