Espectadores do medo

Segundo especialistas, crianças e adolescentes que cresceram em lares violentos podem reproduzir o comportamento agressivo na vida adulta 

Pedro Grigori

 

Era noite e chovia. Em uma casa no Entorno de Brasília morava Daniel Alvez*, dez anos na época. Ele se escondia atrás da geladeira para que o som do motor abafasse os gritos da briga dos pais. Após quase meia hora no lugar, a falta dele foi sentida. Ao achá-lo, o pai teve que insistir para que o menino saísse do esconderijo. E foi nesse momento que a mãe acertou, com um tapa, o rosto do pai, alcoolizado. E novamente mais um entre tantos confrontos se iniciava. Como espectador de um filme real de violência doméstica, estava ele, uma criança assustada e sozinha.

“Eu tinha muito medo. Não dormia à noite para ficar prestando atenção se eles iriam brigar. Uma vez vi no jornal que a ex-mulher tinha esfaqueado o ex-marido até a morte, então peguei todas as facas de casa e escondi embaixo do meu colchão com medo de que eles fizessem o mesmo”, confessa. Daniel hoje tem 19 anos. Na pele, nenhuma cicatriz aparente. Na alma, a memória viva das cenas de horror que presenciou.

Levantamento realizado pela Central de Atendimento à Mulher, o Disque 180, constatou que as crianças estão diretamente envolvidas em casos de violência doméstica. Dentre as vítimas ouvidas em 2014, 80% tinham filhos, que em 64,35% dos casos, presenciaram a violência, e em 18,74% eram vítimas diretas junto das mães.

Mesmo presenciando agressões verbais e físicas quase que diariamente, o pior momento para Daniel foi quando os pais se separaram, dias antes dele completar 11 anos. O menino se sentia completamente sozinho após a separação. “Eu não aguentava mais. Me sentia muito sobrecarregado e solitário. Esperei meu pai ir trabalhar e peguei todos os remédios que encontrei em casa, engoli e fui para a caixa d’agua, onde fiquei dentro até apagar. Depois disso, só lembro de várias pessoas em cima de mim, enfiando o dedo na minha garganta para que eu vomitasse”,  relata.

Após o episódio, os pais do garoto voltaram a morar juntos, e o menino fazia de tudo para impedir que novas brigas ocorressem, o que não adiantava. “No começo eu queria muito que eles ficassem juntos e morássemos como uma família. Mas depois percebi que juntos eles só brigavam, e eu não era feliz ali”, conta.

 

Reflexos da violência

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) reforça que crianças e adolescentes devem receber proteção e assistência para se desenvolverem plenamente, e enfatizou a importância de boa estrutura familiar como o meio determinante para isso. Mas ao contrário do que seria ideal, a realidade é mostrada nos noticiários: problemas em ambientes familiares, sendo a presença de violência uma das principais. O lugar que deveria ser seguro se torna exatamente o contrário.

Segundo a psicóloga Mirian Sagim, esse tipo de violência costuma deixar reflexos. Em sua tese de doutorado, entrevistou 17 famílias em que ocorreram casos de violência, e concluiu que muitas vezes, mesmo inconscientemente, os espectadores repetiam os atos que presenciavam. “As entrevistadas me contaram que foram criadas em lares onde a violência familiar sempre esteve presente; muitas afirmam que deixaram suas casas por terem presenciado brigas entres seus pais e, também, terem sofrido violência por parte deles. Mas que atualmente, mesmo sem pretender que seus filhos tenham a infância que elas tiveram, muitas não conseguem romper o ciclo de violência que faz parte da vida de cada uma. E assim, seguem reproduzindo o modelo vivenciado por elas na infância”, explica.

É o caso de Marta Santos*, 41 anos. Hoje, casada e com família formada, a mulher sente que mesmo sem querer, carrega algumas marcas causadas após presenciar os diversos tipos de agressões verbais e físicas do pai com a mãe. “Éramos uma família pobre, eu, meus pais e mais três irmãos. Minha mãe era quietinha e tentava fazer todos os deveres exigidos para uma mulher de casa, mas nada nunca estava bom para o meu pai. Os xingamentos eram diários. E passavam de agressões verbais para murros. Já teve dias de ele até colocar ela pra fora de casa. E sempre por motivos bobos, como a janta não estar pronta antes das 19h”, lembra.

Por ser a mais velha entre os irmãos, Marta ficava encarregada de cuidar da família quando a mãe era expulsa de casa, e conta que durante esse período tentou até fugir. “Eu tinha dez anos, e decidi fugir para a casa do meu avô materno com meus irmãos. Coloquei algumas roupas e mamadeiras com mingau dentro de um saco, mas a fuga não deu certo porque demorei muito tempo para conseguir colocar o meu gato dentro da mochila, aí meu tio chegou e convenceu a gente a ficar”, conta.

Os reflexos da violência começaram a aparecer ainda na escola. A garota passou a reprovar diversas vezes, pois não tinha ânimo para estudar. Aos 18 anos, foi expulsa de casa pelo pai por estar grávida, e começou a entrar em vários relacionamentos que não deram certo, sendo algumas vezes até vítima direta de violência doméstica. “Acontece, né? Até eu já cheguei a agredir meu atual marido, eu só me estresso e acaba acontecendo, sem eu perceber”, relata.

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Apoio

Glenia Rosa é psicóloga do abrigo Casa de Ismael, localizado na Asa Norte, e conta que a violência doméstica é um problema hereditário. “Fizemos um estudo com os casos que temos no abrigo, e descobrimos que em determinadas famílias eles não percebem que estão passando por uma situação de violação dos direitos. Eles narram que as avós sofriam, as mães, as tias e possivelmente eles sofrerão também. Eles acham que aquilo é normal. Mas na verdade é um ciclo de repetição dos padrões comportamentais”, explica.

A Casa de Ismael é um abrigo que existe desde 1964, e atua nas áreas de assistência social, educação e socialização. Oferece serviços totalmente gratuitos para 1.083 pessoas, sendo dessas 824 crianças e adolescente em situação de risco e vulnerabilidade. Atualmente, 70 menores estão em situação de acolhimento, passando tempo integral no abrigo e sendo cuidados por mães sociais.

Valdemar Martins, presidente do abrigo, conta que a casa atende qualquer menor que esteja passando por situação de violação de direitos. “A assistência social traz a criança para cá por diversos motivos, como abuso sexual, situação de vulnerabilidade, maus tratos e abandono. Chegando aqui, procuramos um tipo de serviço que se enquadre melhor no caso do individuo”, relata.

Em casos de violência doméstica, a Casa de Ismael faz um trabalho que visa reintegrar a criança de volta à família, mas isso só acontece quando é constatado que os pais têm condições de cuidar dos filhos. “Nós fazemos um atendimento psicológico não só com a criança, mas com toda família. Conversamos com os pais e explicamos a seriedade da situação. Quando a criança se sente confortável para voltar para casa, e sentimos que os pais têm condições de criá-la, fazemos a reintegração, mas continuamos acompanhando o desenvolvimento da família”, explica.

Em 2015, 31% das crianças e adolescentes que saíram da Casa de Ismael conseguiram ser reintegrados as suas famílias. E esse é o principal objetivo da instituição. “Nós sabemos que na grande maioria dos casos as crianças querem ficar em casa com as suas famílias. Elas não querem ser adotadas por outras pessoas. Mesmo estando em um lar violento, eles querem ficar com seus pais. O nosso trabalho é ajudar para que isso aconteça. Mas ela só pode ficar com a família se estiver tendo os direitos básicos respeitados”, conta.

Crescer em um lar violento não é fácil, mas também não é simples sair da situação. Mães e filhos têm medo das consequências de uma denúncia, mas elas são necessárias para mudar aquela realidade. As psicólogas afirmam que a violência doméstica é uma “doença hereditária” da sociedade, e precisa ser tratada. O Disque Direitos Humanos, ou Disque 100, é um serviço de proteção a grupos sociais vulneráveis, e recebe denúncias 24 horas por dia. A ligação é gratuita.

Quem sofre ou presencia violência doméstica não precisa lidar sozinho com a situação. O Governo Federal oferece diversos serviços, não só para denúncia, mas para atendimento total a situações de violações aos direitos da criança e do adolescente, como é o caso dos Centros de Referência Especializado da Assistência Social (Creas), com oito sedes espalhadas por Brasília. Viver em uma situação de violência não é uma escolha, mas também não precisa ser uma sentença. Denuncie.

*Os nomes dos personagens utilizados na reportagem foram alterados para proteger sua imagem e a de sua família.

O mapa abaixo traz endereços de locais que podem ser procurados em caso de violência doméstica. Encontre uma unidade próxima a você e compartilhe com amigos que sofram com o problema.

Conteúdo do jornal na íntegra em: Jornal Artefato Junho 2016