Divididos pelo transporte

Goiás e Distrito Federal têm queda de braço para solucionar problemas de mobilidade urbana. Jogo de empurra penaliza cidadãos que precisam utilizar ônibus

Ana Póvoa e Giovana Gomes

Passagem cara, ônibus lotado e sem manutenção. São reclamações constantes entre os usuários do sistema de transporte do Entorno, cidades que ficam nas imediações do DF, mas que pertencem oficialmente ao estado de Goiás, como Valparaíso, Luziânia, Águas Lindas, entre outras. A microrregião é composta por 20 municípios que mantêm grande relação com o DF, fortalecendo mútua dependência econômica.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mais de um milhão de pessoas precisam vir à capital federal diariamente para trabalhar e estudar, além do acesso a hospitais, bancos e órgãos de governo. Apesar disso, elas não contam com transporte público acessível, confortável e eficiente. Há muitos problemas, como superlotação, atrasos e falta de informações sobre o itinerário. Os dados revelam ainda que 45% da população economicamente ativa do Entorno estuda e trabalha no DF e cerca de 47% dos moradores usam o ônibus como principal meio de transporte.

Se a proximidade geográfica entre o DF e o GO é pequena, as distâncias entre direitos é grande. Os estudantes do DF contam com passe livre estudantil, direito adquirido pelo decreto 31.681 de 2010, mas que, atualmente, esbarra nos problemas de gestão de cadastramento. São vinte e cinco minutos que fazem toda diferença: Alunos do Entorno que estudam no DF não têm os mesmos direitos, já que não moram no DF e o sistema entre as duas localidades não é integrado. Este é o caso de Wendel Marques, estudante de biologia na Universidade Católica de Brasília e morador do Jardim Ingá, distrito do município de Luziânia.

Para chegar na faculdade às 8h, acorda todos os dias às 4h40, mas com a dificuldade de transportes já desbravou vários caminhos na tentativa de driblar o trânsito. Ele pega ônibus para chegar até a estação Park Shopping, descer e pega metrô. Atualmente ele usa a linha Jardim Ingá-Taguatinga, que sai às 6h, na BR 040, próximo à Luziânia. O horário é relativo, as linhas não são pontuais.

Se Wendel quiser almoçar em casa, tem que fazer um malabarismo. Pegar um ônibus para o Gama e, de lá, outro para o Jardim Ingá, alternativa que aumenta em R$ 4 o seu gasto diário com locomoção.

O preço da tarifa é outra dificuldade. Wendel afirma que gasta R$ 6,55 por dia, o que totaliza R$ 56,50 por semana e R$ 226 por mês. Ao final do semestre, ele gasta, em média, R$1.130,00, valor muito próximo ao da mensalidade paga pelo aluno para estudar na Universidade.

Controle

Segundo Edson Quadros, gerente executivo da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), ainda não há planos de integrar o serviço de transporte público do Entorno com o do DF. “Os estudantes do Entorno não têm base legal para reivindicar o benefício em âmbito interestadual”, justifica.

A justificativa da ANTT pode ser legal, mas não resolve o problema. Em fevereiro de 2016 houve aumento de 11,26% no valor da passagem para essas localidades. Os impactos foram imediatos: muitos perderam emprego. Empregadores reclamam dos valores do vale transporte dos funcionários do Entorno e demitem para contratar trabalhadores do DF. Tudo isso acontece porque o Entorno é considerado território interestadual e o transporte deveria ser controlado pela ANTT. A agência apenas regula o preço das passagens e não tem controle sobre o funcionamento e a qualidade do transporte coletivo de ligação com o DF. As prefeituras não têm voz sobre isso e o GDF não intervém por não ser de sua jurisdição ou responsabilidade legal. No meio disso, a população fica à mercê das indecisões e sofre com os problemas de mobilidade, emprego e qualidade de vida.

Os problemas de transporte do Entorno afetam tanto a capital que o Movimento Passe Livre (MPL) do DF, movimento social ligado às pautas de mobilidade, buscou mobilização no Entorno para fortalecer a luta por melhorias. Há grupos de sociedade civil se organizando para tomar parte nessa luta, como é o caso do Comitê Popular do Transporte de Águas Lindas (CPTAL), composto pelos cidadãos da região. São estudantes, trabalhadores, movimentadores culturais envolvidos numa rede de discussão sobre os problemas de transporte que afetam a população.

“Listamos a defasagem de horário, ônibus velhos e sucateados em sua maioria, a falta de integração entre as empresas em relação ao vale transporte – uma não recebe o vale de outra empresa-, altíssimo preço das passagens, ônibus lotados”, conta Luérison Alves, membro do comitê.

O comitê defende também a intervenção do governo do Distrito Federal para integrar o transporte entre as regiões: “Isso é uma questão que vai além do transporte em si. O Entorno é fruto de Brasília e tão parte dela quanto as cidades satélites. O GDF não pode simplesmente fechar os olhos e fingir que o Entorno não existe”.

O Governo do Distrito Federal, por sua vez, alega não ter condição de intervir na situação tão cedo. Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Mobilidade (DFTrans), os atuais responsáveis são mesmo o estado do Goiás e a ANTT, que regula o transporte interestadual. Mas a assessoria esclarece que a possibilidade de integração não está descartada. “Um estudo técnico e jurídico no sentido de avaliar se há ou não a possibilidade de integrar os serviços de transporte interestadual e semi-urbano está em curso”, ressalta o órgão.

Confira algumas histórias de quem enfrenta problemas com o transporte público no DF e entorno:

Gilvanete Costa
_MG_0257Ela mora cerca de 60 kms da Universidade Católica, no Jardim Ingá, localizado na BR 040 entre o Valparaíso e Luziânia. As dificuldades para chegar são muitas e como estuda de manhã o dia dela começa bem cedo, às 4h 30min para garantir que esteja na aula às 8h.

Depois da falência da empresa de ônibus que fazia o percurso até a universidade, Gilvanete nos conta que muitas empresas tomaram o posto mas sem organização, impossibilitando os moradores de saber ao certo o horário do ônibus que varia quase toda semana.

A saída que ela encontrou foi para o Gama, Região Administrativa já dentro do DF que é perto da divisa com o Goiás e de lá ela pega um ônibus para Taguatinga e chegar na universidade.

Uma das grandes dificuldades que ela sente é a ausência de passe livre estudantil para pessoas que moram nessa região. O tema já esteve entre proposta de políticos do estado de Goiás no ano eleitoral de 2014 assim como a unificação do transporte, anda foi feito. Gilvanete segue procurando saídas todos os dias para chegar ao seu destino final.

Wendel Marques
A história se repete com muitas pessoas. Acordar cedo, sair sem comer e correr para pegar _MG_0234a aula de 8h. Os trajetos que os alunos encontram são diversos para driblar o tempo e a longa estraga.

Wendel Marques estuda biologia na Universidade católica de Brasília e é morador do Jardim Ingá. Ele conta que acorda 4:40 todos os dias para ir para a faculdade, já desbravou vários caminhos e já chegou até a pegar ônibus para o Park Shopping, para fazer uso do metrô do DF para driblar o trânsito.

Atualmente ele faz uso da linha que sai do Jardim Ingá que normalmente passa às 6h mas não é garantido que vá passar. O preço da tarifa também não ajuda, o aluno para R$ 5,65 por trecho. A tarifa aumentou no mês passado 11%, o que não apresentou melhoria no serviço. Ônibus lotado, muitas paradas durante a BR 040, para conseguir se sentar só morando mais próximo ao terminal mesmo.

Mais um percalço que Wendel sofre todos os dias é o de ter ônibus para ir para a faculdade mas não tem ônibus no horário que ele sai da aula, por volta de meio dia. Os ônibus seguem a lógica do trabalhador e passa recolhendo os moradores apenas às 17:30 ou 18h. Portanto se Wendel quiser almoçar em casa, vai ter que dar o seu jeito para voltar.

Caroline Dias
Moradora de Águas Lindas durante quase toda vida, Caroline teve que abandonar sua casa _MG_0253durante a semana se quisesse chegar no horário nas aulas pela manhã. Essa saída encontrada por ela foi possibilitada por que a avó de Caroline mora na Ceilândia.

Ela gastava cerca de R$70 por semana para ir e voltar da aula na Universidade Católica onde cursa biologia. Ela acordava 5:30, já pegava o ônibus lotado e o via lotar mais a cada parada. Ela conseguia se sentar apenas dentro de Taguatinga, chegando ao seu destino final.

Sem nenhum conforto e acordando muito cedo, ela resolveu ficar na casa da avó nos dias de semana e gozar do direito de ter passe estudantil pois está de fato residindo no DF. Sorte que muitos outros alunos que moram no entorno não tem e são obrigados a se submeter ao transporte de péssima qualidade do entorno.

Fotos: Evelin Criss