Quem disse que o DF não tem raiz?

Manifestações culturais tradicionais resistem na história. Senso comum é de que o lugar não tem identidade cultural própria e fortalecida

Webert da Cruz

As raízes culturais do Distrito Federal possuem vínculos íntimos com a história do Planalto Central. O passado dessa região se revela em tradições como folias, danças, músicas, linguagens e religiosidades que marcam a identidade cultural de quem vive em Planaltina, Brazlândia e outras áreas ao longo do DF e Entorno. De indígenas macro-jê aos Bandeirantes colonizadores, da mineração à ruralização, da construção de Brasília aos dias atuais, muitas manifestações populares dão vida às tradições no DF, mesmo que esse lugar receba continuamente críticas por ser jovem e ainda – na opinião de muitos – não ter estabelecido uma identidade cultural própria.

Na contracorrente do senso comum, João Monteiro da Costa Neto, mais conhecido como Cassiano – da dupla caipira Zé Mulato e Cassiano, que chegou a Brasília na década de 70 explica que Brasília é uma colisão cultural: “Quando vieram, aqui já tinha Planaltina, tinha Formosa, índio pra caramba. Mataram um monte. Falam como se aqui não existisse nada, mas mesmo antes da construção da capital, já existia muita coisa”, revela. Os irmãos vieram de Minas Gerais – só aqui montaram parceria musical – e se identificaram facilmente com as manifestações culturais populares que existiam em regiões mais afastadas do Plano Piloto. “Chegamos aqui e tinha festa de catira, até diferente da que a gente conhece. Muita gente não sabe, mas tem folia pra caramba em volta de Brasília”, diz Cassiano.

A viola caipira desde o Brasil Colônia é o principal instrumento acompanhador da voz humana nas músicas tradicionais do meio rural. No Planalto Central esse instrumento possui presença marcante na história de muitos homens e mulheres do cerrado. “É um instrumento condutor dos cantorios de devoção e das danças típicas. No dizer dos guias de folia, depois da obrigação, a distração”, diz Roberto Corrêa, violeiro, compositor e pesquisador musical brasileiro, radicado em Brasília.

“Na região do Entorno do DF a viola de cordas dedilhadas ainda está presente na maioria das manifestações musicais e é soberana nas Folias do Divino, nas Folias de Reis, nas catiras e nas curraleiras que são as principais manifestações da região do entorno do DF”, enfatiza Roberto, que há quase 40 anos estuda e desenvolve projetos e pesquisas voltadas para o universo da viola, principalmente a caipira e a de cocho. Roberto e Juliana Saenger, produtora cultural e esposa dele, trabalharam juntos na pesquisa e produção do CD Sertão Ponteado – Memórias Musicais do Entorno do DF, projeto que realizou um grande levantamento das tradições populares da região em 1997.

Para Juliana Saenger, o Sertão Ponteado revelou melhor a história do chão e da vida das pessoas do Planalto cerratense. “Na pesquisa que resultou no CD, encontramos práticas musicais ancestrais características do Brasil Central, de influência caipira, que já estavam presentes na região antes da construção de Brasília, como folias, catiras, curraleiras, terço cantado em latim. Brasília é um elemento agregador, que aproximou grupos de diferentes localidades e diferentes famílias do próprio Entorno”, conta a produtora.

A Tradição da Folia

A Festa do Divino de Planaltina tem 134 anos. Joaquim de Felipe guia a celebração há 25 e com quase 60, ele participa em prece ao Divino Espírito Santo da religiosidade católica para continuar as tradições de seus avós, pais e tios. “Eu comecei a guiar folia na zona rural, nas fazendas e onde eu nasci. Guio folia hoje na cidade, mas na roça é ainda mais gostoso, porque lá as pessoas costumam respeitar a tradição ainda mais do que aqui”, pondera.

Celebrando Pentecostes, os 50 dias após a Páscoa, a Folia do Divino movimenta atividades na zona rural e urbana de Planaltina e a festa é patrimônio cultural imaterial brasileira desde 2010. A comemoração tem início com novenas nas casas e chácaras dos moradores da região. Ester Rodrigues, catireira e foliona conta sobre a celebração: “Quando as orações terminam, os fiéis da roça vão a cavalo para a cidade participar do grande encontro que corteja o Espírito Santo. A folia deixa a cidade toda enfeitada. Ao final, todos se encontram na Praça da Igreja Matriz para uma grande comemoração, com comidas típicas, músicas ao som de violas e instrumentos tradicionais, catiras e religiosidade”.

Aos 49 anos, Ester defende que o DF tem raízes mais profundas do que as já conhecidas. Com um sorriso no rosto, ela conta que participa do Sistema Brutas do Catira, um grupo feminino de catira buraqueiro, um estilo existente apenas em Planaltina. “Hoje é constatado que a dança da gente aqui é um catira inventado pelas nossas raízes. É uma dança mais rápida, pesada e que precisa de muito exercício físico! São quatro estrofes da moda e um recortado depois”, explica a catireira que também mantém a tradição familiar e participa ativamente da Folia do Divino e de outras folias da cidade como a de Reis e São Gonçalo.

Resistência

A diversidade cultural brasileira é amplamente rica e muito da pluralidade possui raízes na tradição. Saberes e fazeres antigos que passados de geração em geração são cultivados em diversas comunidades pelo Brasil enfrentam variados desafios para existirem. O acesso dessas manifestações aos meios de comunicação, por exemplo, é um gargalo a ser enfrentado. Volmi Batista violeiro e produtor cultural apresenta o programa Violas & Violeiros há quase 20 anos de forma totalmente voluntária na Rádio Cultura FM 100,9. Das 6h às 7h da manhã a programação difunde cultura popular tradicional caipira. “A gente não pode desprezar essas possibilidades, na grande mídia é muito difícil o acesso. A música de viola teria que ter mais espaço no rádio, principalmente, porque as pessoas ligadas a essa cultura ainda ouvem muito rádio. Poucos segmentos da música ainda possuem audiência na rádio”, afirma Volmi.

Marcelo Manzatti, antropólogo, pesquisador e trabalhador da cultura popular defende que o Estadotem um papel importante para a manutenção das tradições culturais: “É preciso que as políticas públicas contribuam ou fortaleçam essas comunidades para que elas possam estabelecer a dinâmica mais adequada para elas. É preciso difundir mais esses saberes para um conjunto maior da população e fortalecer com educação patrimonial, considerando essas expressões como patrimônio imaterial”.

O Instituto do Patrimônio histórico e Artístico Nacional (Iphan) é responsável por inventariar as referências culturais no Brasil. No DF, o Iphan realizou cinco inventários: as feiras tradicionais, lugares de culto de matrizes africanas e afro-brasileiras são alguns deles. Atualmente está em andamento o Bumba Meu Boi de Seu Teodoro Freire, em Sobradinho, o Choro, o Repente e a Literatura de Cordel.

Além do sistema nervoso político, arquitetura e urbanidade rebuscada de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, Brasília reuniu e misturou, também, a multifacetada cultura brasileira. E com o tempo, as expressões seguem na tradição ou também vão sendo reinterpretadas ou refeitas. “A manutenção das tradições da cultura popular é um processo vivo e dinâmico”, diz Juliana Saenger. “Apesar de sua conexão essencial com o passado e a ancestralidade, a continuidade e o repasse das tradições se dá no tempo presente. Seus atores vivem a realidade histórica e sociocultural atual”, afirma.

Para Marcelo Manzatti, valorizar os bens culturais imateriais do Brasil é um processo contínuo e profundo a ser encarado no Brasil. Ele afirma que o reconhecimento como patrimônio imaterial é uma das políticas públicas mais bem estruturada de cultura tradicional que existem no país atualmente. “Se faz o inventário dessas expressões, o registro e uma série de ações de salva guarda, desde formações até registro da memória dessas tradições. Regularização fundiária das sedes dos grupos ou das terras onde essas pessoas vivem, por exemplo, tem uma série de implicações com essa política de patrimônio imaterial, o fortalecimento dessa política seria muito bom”, confirma.