Tuk-tuks: pode ou não pode?

Aprovados pela população, eles esbarram na burocracia e no impasse governamental. Triciclos são opção para problemas de transporte no DF

Juliana Procópio

Música alta, mesas lotadas e um happy-hour bem no meio de uma badalada quadra no centro da capital. Nessa bagunça, um bar tem chamado atenção dos brasilienses: o Godofredo, que fica na 408 Norte. O motivo? Uma ideia que alia respeito à lei seca e serviço ao cliente. O estabelecimento oferece o tuk-tuk para transportar os clientes do bar depois da diversão.

O Proprietário, Ailton Trisão, 45 anos, teve a ideia durante uma viagem ao Peru – local onde o veículo também é usado para transporte -, e implantou a cortesia. Ele garante que a ideia tem dado certo. “Temos notado o aumento do número de clientes. As pessoas ligam e fazem reservas para utilizar o tuk-tuk. Há clientes que antes utilizavam transporte próprio na volta para casa e agora não mais”, conta.

É o caso do empresário Ben-Hur Reis, 52 anos, morador da Asa Norte. Frequentador assíduo do estabelecimento, ele conta que o tuk-tuk do Godofredo busca e leva os clientes em casa, e que para isso há um termo de compromisso que é assinado pelos usuários: “É um transporte que está sujeito a acidentes, assim como todos os outros inclusive, mas nós assinamos um termo de responsabilidade. Antes, eu vinha de carro com a minha esposa que não consumia e era a ‘amiga da vez’, ou com amigos e aí todos consumíamos e era arriscado voltar pra casa”.

Graças a essa iniciativa, o Bar Godofredo recebeu o Prêmio Sem Excesso, entregue pela Associação Brasileira de Bebidas, que reconhece boas práticas de carona e conscientização em prol do consumo responsável.

Originários de países asiáticos como Índia e Tailândia, os tuk-tuks chegaram ao Brasil em meados de 2014. Em Brasília, por volta de junho de 2015, já era possível ver os triciclos em pontos específicos.

O uso pode ser complementar ao sistema de transporte coletivo. A prática já conta com apoio popular. Para o arquiteto e membro da iniciativa voluntária Urbanistas por Brasília, José Hélder, a utilização dos tuk-tuks em vias secundárias de baixa velocidade seria uma opção de ligação entre locais distantes e grandes vias. “Além do Park Way, cidades como Grande Colorado, Jardim Botânico e Arniqueiras poderiam se beneficiar deste serviço”, explica.

Cristiane Messias, moradora da quadra 25 do Park Way, relata que a quadra sofre com a falta de transporte público. Segundo ela, os colaboradores do condomínio onde mora chegavam a passar horas no ponto de ônibus e muitas vezes a solução era levá-los de carro desde as quadras internas até a passarela onde o transporte coletivo chega.

Para ela, os tuk-tuks têm sido uma ótima saída. “É só ligar. Os motoristas são bem educados e atendem prontamente”, garante.

No Gama, é possível encontrar Bruno Oliveira, 33 anos, que abandonou o emprego antigo como atendente numa distribuidora de gás e foi para as ruas oferecer o serviço de transporte de passageiros com o tuk-tuk. Um mês depois da compra do veículo, ele diz que já consegue renda suficiente para se manter. “Ganho, em média, R$ 60 por dia. Tenho por volta de dez clientes fixos que andam comigo todos os dias, geralmente com destino a colégio ou cursos de inglês/informática, fora as ligações e chamados via WhatsApp que recebo entre um cliente e outro”, diz.

Além de ser uma alternativa de renda, os tuk-tuks são alternativas para suprir a ausência de transporte público: “Acho que Uber e tuk-tuk são evoluções naturais da concorrência, principalmente quando o Estado não faz a sua parte com qualidade”, declara Cristiane, moradora do Park Way que reclama das opções de ônibus na região.

Impasse

Apesar de todo apelo popular, o tuk-tuk enfrenta problemas com os órgãos de trânsito e mobilidade para se regularizar. No DF, um dos veículos foi multado duas vezes e apreendido por fiscais da Secretaria de Estado de Mobilidade do Distrito Federal (Semob) por falta de regulamentação como prática comercial. Por meio de assessoria, o órgão esclareceu que o tuk-tuk é um transporte de uso individual e familiar e, por isso, é proibido cobrar pelo serviço.

Já os profissionais que trabalham nessa nova iniciativa relatam possuir toda documentação exigida junto ao Departamento Nacional de Trânsito (Detran), além da filiação obrigatória junto ao Sindicato dos Mototaxistas do Distrito Federal (Sindmototaxi-DF), mas lamentam que não exista interesse público em regularizar a atividade como profissão. Atividade similar à dos triciclos é a dos food trucks – veículos adaptados para o comércio de produtos alimentícios – e que foi regulamentada por meio de uma lei porque o governo entendeu que gera emprego e renda.

O presidente do Sindmototaxi-DF, Luiz Carlos Galvão, conta que a situação não tem evoluído como esperado: “Estávamos com uma negociação em andamento, e inclusive iniciávamos a fase de ministração de cursos para os mototaxistas, mas com a alteração do secretário de mobilidade, toda a negociação foi perdida. Hoje temos dialogado com a Semob e com o Ministério Público para dar andamento às negociações”, explica.