Não sou obrigada

Susanne Melo

Há meses, conheci o homem perfeito. Muito carinhoso, fazia de tudo pra estar perto de mim, romântico… Até me fez querer algo que eu jamais havia imaginado: casar. Apresentei à família, compramos apartamento juntos; investimos no relacionamento. Um mar de rosas.

No trabalho também. Harmonia! Sempre fui a funcionária exemplar. Sempre prestativa, cumpro com todas as demandas da minha função. Acho que minha chefa não tem do que reclamar; ela fala, eu acato. Faço tudo sem murmurações, sem questionamentos, sem pensar demais. É o meu ponto de vista para manter um bom relacionamento no trabalho. Até começamos a almoçar juntas de vez em quando!

O tempo passou e, como era de se espera, o romantismo diminuiu, o cavalheirismo acabou. Mas está tudo bem, nosso relacionamento é estável. Embora eu ainda estivesse totalmente encantada, ele já não demonstrava o mesmo interesse. E ai de mim se não envio uma mensagem fofa ao chegar em casa! Mas é normal. Coisa de homem… né?!

Pra piorar, parece que a chefa está cansada. As funções dela são, cada dia mais, passadas para mim. Tudo bem, "tamo” aqui pra ajudar. Estamos quase amigas, talvez ela me conte o que está acontecendo. Por hora, seguro as pontas na empresa.

Mas na minha vida pessoa, as coisas começaram a ficar bem estranhas. Como assim eu devo excluir meus perfis nas redes sociais? Como assim não posso sair à noite com minhas amigas? Será que venho me comportando de forma vergonhosa durante todo esse tempo? Não, não é nada demais. Assim como minhas roupas curtas: nada demais. Mas que implicância é essa agora? Será que deixei meu companheiro mal acostumado? Falha minha. Deveria ter estabelecido limites desde o começo. Agora não tem mais jeito. Se eu fui a responsável por esse comportamento, tudo bem. Eu aguento.

Quando chego ao escritório eu já ouço a gritaria. O que está acontecendo?! O mundo desmoronando ao meu redor? De repente, sou motivo de chacota no trabalho. Xingamentos sem fim. Talvez seja o dia que esteja péssimo mesmo… Ou não. Há semanas venho ouvindo reclamações desnecessárias, pressões sem fim de funções que nem são minhas! E mais xingamentos. Tenho ido demais ao banheiro apenas para chorar e tentar desabafar essa sensação de ser humilhada por nada. Isso não está normal.

Não. Eu não aguento. Preciso me impor e colocar um basta. É isso. Estabeleci algumas regras. Mas… O quê?! Eu nunca o vi chorar antes! Chorou. Arrependido, não quer terminar tudo. Pediu desculpas. Eu senti culpa. Como tive coragem de pensar em acabar um relacionamento tão lindo? O que diria para minha família? Eu exagerei. Eu o amo. Perdoei.

Segui perdoando, até que… apanhei pela primeira vez; fui trancada em casa; não podia sair para almoçar até entregar o último relatório; comecei a ter vergonha de ser vaidosa; senti medo de sair com meus amigos; a humilhação excedeu seus limites; chorei e não voltei para a mesa do escritório. Ah, não suporto mais tudo isso!

Meu sangue ferve e meu coração pede socorro. Percebo que só eu posso me ajudar; eu não preciso mendigar atenção, amor ou respeito. Agora eu sei: só eu posso me fazer feliz!

Sempre fui o tipo de mulher cheia de autoestima, que controla a situação e sabe lidar com as adversidades da vida. O convívio com essas pessoas tóxicas sugou minha energia e minha positividade. Mas… para infelicidade deles e minha sorte, meu amor próprio permaneceu aqui, quietinho, em mim. Resolveu aparecer e eu resolvi dizer: Não!

Voltei a protagonizar minha própria vida, a estabelecer os limites necessários para a minha dignidade. Rolou delegacia da mulher. Rolou delegacia do trabalho. Rolou denúncia nos órgãos competentes. Nas redes sociais na internet eu fiz campanhas de conscientização. Sim! Porque, se tem uma coisa que eu não sou, é obrigada.

Depoimento

“Sempre fui cheia de autoestima e tinha o controle da situação em todos os meus relacionamentos anteriores. Mas sempre hesitei em pôr um fim. Parece que eu tinha que fazer de tudo para dar certo.

O conheci há 2 anos o meu ex-namorado, que também já foi meu noivo. No início, como acho que sempre é (se não, quem namoraria?!), tudo muito perfeito, tranquilo. Achei a pessoa certa para partilhar a vida.

Sempre moramos distante um do outro, e eu achava bom, a princípio, pois não perderia meu espaço, meu tempo só para mim. Mas aí eu comecei a ir demais na cidade dele, pois sentia que o precisava fazer. Ele também vinha até mim, mas a frequência era bem menor. Eu não ligava…. Me colocava no lugar dele e comecei a achar que para mim era mais fácil mesmo.

Minha família não aceitava isso tudo muito bem. Mas foi justamente deles que eu me distanciei, pois não queria dar ouvidos a quem não me apoiava. Depois foram os meus amigos, porque o “lindo” não gostava que eu passasse mais tempo com eles do que indo lá visita-lo. Não sei o porquê, mas na época eu aceitei isso. E me distanciei de todos também, ao ponto de excluir das redes sociais também.

E, pouco tempo depois, eu já estava sendo tratada de forma tão hostil por ele, que sempre que ia vê-lo na cidade dele, saía chorando, ou então ia dormir chorando pensando no motivo de me submeter àquilo tudo. Só que ele sempre me desculpava, e eu fingia que nada tinha acontecido e … acontecia tudo de novo.

Só que minha autoestima diminuiu tanto, mas tanto, que eu não conseguia ficar bem e feliz ao lado dele. Era como um vício que eu sabia que não me fazia bem. Na verdade, era como uma prisão: como me desligar dele, se já me afastei de todo mundo, amigos, família, por esse “amor”? Juro que era esse o pensamento que passava pela minha cabeça. E ele me jogava na cara também: “você acha que vai encontrar alguém que te aguente como eu?”. Impossível não doer. “Ele não era perfeito”, tentava repetir sempre a mim mesma.

Nessas idas e vindas, senti que não precisava continuar. Nem que tivesse que seguir sozinha a minha vida inteira. Foi realmente como despertar de um pesadelo. Pois tudo seria melhor do que ser diminuída dessa forma. Eu lembrava de como era antes dele e cheguei a sentir inveja do meu eu anterior. Queria voltar a ser essa pessoa. Na verdade, eu precisava.

Apesar da falta que, inevitavelmente, sinto dos nossos bons momentos, me recuso a voltar. Cansei. Foi isso. ”

Juliana Fonsêca*, 25 anos, fisioterapeuta.

 

Atenção! 

Se você se identificou com algum relato feito na crônica ou no depoimento, não fique calado! Ao expor esse tipo de tratamento e relacionamento, você contribui para que menos pessoas passem por isso. Denuncie!

Procure a Delegacia da Mulher (Disque 180) ou a Delegacia do Trabalho.