Orquestra Sinfônica Mambembe

Após a interdição do Teatro Nacional Claudio Santoro, a Orquestra Sinfônica segue itinerante em sua rotina de apresentações sem estrutura adequada para ensaios

Dalila Boechat

“Você já cantou no banheiro? É completamente diferente de cantar na sala. Então, alegoricamente, é como se você ensaiasse nesta e se apresentasse naquele. Todo o trabalho de equalização desenvolvido se perde neste processo.” É esta a maior queixa de Luiz Carlos Marques, violinista da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional há 15 anos. Além de Marques, o maestro e os demais 75 músicos lamentam a rotina de ensaios da Orquestra. Isto porque, desde janeiro de 2014, o Teatro Nacional Claudio Santoro está interditado por recomendação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) em virtude de 113 irregularidades apontadas pelo Corpo de Bombeiros e relatadas em laudo divulgado em abril de 2013. Entre as falhas, figuram a falta de acessibilidade, goteiras em camarins, rachaduras nas sustentações, sistema de ventilação inadequado e suporte obsoleto de combate a incêndio.

Desde então, a Orquestra Sinfônica segue itinerante em seu cronograma de ensaios e apresentações. Teatro Pedro Calmon, Centro de Convenções Ulysses Guimarães e Santuário Dom Bosco são alguns dos locais onde a Orquestra tem se apresentado semanalmente. O deslocamento eventual para os espetáculos é benéfico e proporciona uma maior difusão da Orquestra em todo o Distrito Federal. Entretanto, esta situação não pode se tornar o padrão: para que quaisquer apresentações tenham êxito, é primordial que a rotina de ensaios se dê em uma estrutura física adequada e permanente. Sem o teatro, a locomoção diária transforma o dia-a- dia dos músicos em um desgaste contínuo.

A redação do Artefato acompanhou um dos ensaios matinais da Orquestra, desta vez, realizado no interior do Santuário Dom Bosco, 702 Sul. Durante toda a manhã, visitantes e turistas transitavam pelo interior da igreja, além da equipe de limpeza, que realizava a manutenção rotineira do local. No ano passado, a Orquestra conseguiu uma sala de reunião no Centro de Convenções, mas teve dificuldades em continuar trabalhando ali devido ao tamanho inadequado da sala e aos altos níveis de decibéis a que os músicos ficavam expostos. “Já agora, no Santuário Dom Bosco, local público e aberto a visitações, é impossível ensaiar sem sermos distraídos pelos visitantes. Já fomos até perguntados se estávamos ensaiando pra missa!” relata Lilian Raiol, spalla (1º violino) da Orquestra.

Segundo Claudio Cohen, regente da Orquestra há cinco anos, mesmo que em condições não ideais, “o Teatro ainda era capaz de absorver demandas inerentes a qualquer orquestra. Havia estrutura para acondicionar equipamentos sob temperatura e armazenamento adequados”. Instrumentos de grande porte requerem veículos para transporte diário de acordo com o cronograma de ensaios; quando isto não ocorre, contrabaixos, harpas, tímpanos e bombos são submetidos a intempéries, acarretando em prejuízo patrimonial e gradativa perda de qualidade sonora para a Orquestra.

INDEFINIÇÃO

Projetos de êxito da Orquestra, como o Festival de Ópera de Brasília e as Temporadas de Ballet, estão suspensos desde a interdição do Teatro. Para o maestro, “prosseguir com as produções realmente ficou inviável, não existem outros teatros na cidade com estruturas tais como fosso de orquestra, boca de cena, urdimentos e tudo mais que tínhamos na Villa-Lobos”. A Secretaria de Cultura do Distrito Federal não é otimista quanto à solução em curto prazo. O secretário Guilherme Reis, ao ser abordado sobre as perspectivas da reforma, declara: “O projeto elaborado em 2014 foi orçado em R$ 220 milhões. Tal cifra supera o próprio orçamento da Secretaria para o ano inteiro, que é de R$ 160 milhões. Ou seja, para a realidade do GDF, neste momento de austeridade, se tornou uma obra impossível de ser concretizada”.

Com o intuito de equalizar as demandas entre a Orquestra e administração pública, a Associação dos Músicos da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional (AMUS-OSTNCS) também se articulou com a Secretaria de Defesa da Ordem Urbanística (Prourb), do MPDFT. Mas até o momento essa articulação não avançou significativamente. Em 2013, houve a tentativa de se prosseguir com os ensaios regulares no Teatro Nacional, apesar da interdição. A ideia foi abandonada dada a precariedade total da manutenção no local: bebedouros desativados, ventilação precária e até falta de papel higiênico incluem-se nas queixas formalizadas pela Associação, além de desabamentos e pequenos incêndios que já ocorreram durante os ensaios. “Não conseguimos vislumbrar interesse público que justificasse expor a saúde e até a vida dos músicos ao risco de um possível acidente”, relata Antônio Bayma, presidente da Associação e violinista na Orquestra.

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“É uma situação lamentável. Nunca presenciei tamanho descaso com a cultura da capital federal. Estou na iminência de me aposentar e não desejaria deixar a Orquestra nesta situação, órfã e sem casa.” Paulo Roberto – Trombone
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“Creio que a melhor alternativa seja equacionar uma solução razoável e factível, reabrindo o Teatro num prazo no qual seja possível garantir-lhe a correção de todas as pendências históricas agravadas pela ação do tempo e omissão dos governos”. Antônio Bayma – Violino
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Luiz Carlos Marques, violinista.
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“É a reflexão deste período de crise generalizada. Uma das primeiras áreas a serem afetadas é a cultura. É um descaso sem precedentes, ainda mais por se dar em Brasília”. Esther – Violino.
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“É um cenário lesivo. Nós, músicos, nos dedicamos praticamente toda as nossas vidas para chegar onde estamos. Agora que finalmente alcançamos nosso objetivo de integrar uma Orquestra de alto padrão, carecemos de estruturas básicas para o desenvolver de nosso trabalho”. Joaldo Barreto – Violoncelo.
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“Integro a Orquestra desde 2005. Nunca havíamos passado por isso. Tornamo-nos uma orquestra exilada dentro da própria cidade. Uma orquestra sem-teto. Abandonados pelo Estado que parece não ter zelo pela cultura”. Daniel Cunha – Violino.