Futuro para quem empreende

Empresas Juniores desenvolvem habilidades de universitários e contribuem com o crescimento econômico do país

Eliezer Lacerda e Lorena Braga

O cenário de crise econômica do Brasil traz desafios para toda sociedade. Soluções criativas estão sendo desenvolvidas para melhorar o futuro econômico do país. Neste cenário, existem universidades apostando no empreendedorismo como ferramenta de mudança, aliando teoria e prática com o movimento Empresa Júnior. Apesar de existir desde o ano 2000, este movimento ganhou força nos últimos anos e recentemente teve sua atividade legalizada pelo Congresso Nacional.

A Empresa Júnior (EJ) é ligada aos cursos de graduação que estabelecem sua criação, é gerida voluntariamente pelos universitários e atuam principalmente na área de consultoria, realizando projetos para empresas que estão inseridas no mercado. Todos os trabalhos são realizados pelos alunos, sempre com a supervisão de professores profissionais.

Em regra, as Empresas Juniores vendem seus serviços para micro e pequenas empresas. O custo é abaixo do preço praticado por profissionais já renomados. Dessa forma, os alunos desenvolvem suas habilidades e ajudam a economia, prestando serviço de qualidade a empresas que carecem de consultoria qualificada – algumas quase em estado de falência. O dinheiro arrecadado é investido no desenvolvimento da própria EJ. “Trabalhar com uma EJ neste momento de crise, consiste numa oportunidade muito boa para as empresas que estão sem orçamento para contratar uma consultoria de renome. Nosso foco não é o lucro em si, é manter a Empresa Júnior e formar melhores profissionais para o futuro”, afirma Pedro Mullen, presidente do conselho administrativo da Concentro.

A Concentro é a entidade que representa, no Distrito Federal, a federação nacional das Empresas Juniores, conhecida como Brasil Júnior. Esta instituição está presente em 17 estados brasileiros e conta com 427 Empresas Juniores federadas. São mais de nove mil universitários, de todo país, engajados neste projeto. O último censo realizado pela entidade, no ano de 2015, mostrou que o PIB registrado pelas Empresas Juniores no Brasil em 2014 foi de 13 milhões de reais. No DF existem 27 empresas federadas ao movimento Brasil Júnior, 24 delas estão na Universidade de Brasília (UnB), uma no Centro Universitário de Brasília (UniCeub), e duas na Universidade Católica de Brasília (UCB).

Segundo Mullen, além do espírito empreendedor o aluno desenvolve também a responsabilidade: “Trabalhamos com a formação de lideranças. São quase mil alunos passando anualmente pelas empresas juniores aqui do DF. É uma responsabilidade muito grande. Precisamos quebrar o clichê de que o Brasil é o país do futuro. Queremos mostrar que o Brasil é o país do presente. Fazer a diferença hoje, para que o futuro seja outra realidade”.

Esta formação de liderança beneficia não só o mercado privado, mas também a esfera pública. Com a cultura dos concursos públicos presente na capital federal, muitos empresários juniores optam por trabalhar para o governo. “Estes jovens estão preparados para empreender também no serviço público, apesar de ser um lugar de mudanças lentas e burocráticas. Mas eles têm a capacidade de mudar este cenário aplicando aquilo que aprenderam no espaço da empresa júnior”, é o que pensa o professor Jairo Bittencourt, doutor em economia e coordenador do curso de administração da Universidade Católica de Brasília.

Segundo pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o brasileiro tem um espírito empreendedor, pois três em cada dez brasileiros adultos, entre 18 e 64 anos, possuem uma empresa ou estão envolvidos com a criação de um negócio próprio. Para o professor Jairo, a Universidade oferece ao estudante uma experiência além da sala de aula. “A EJ tem o objetivo de proporcionar um momento de prática a partir da teoria que o aluno tem em sala de aula. Conhecer as empresas, estrutura, problemas, planejamento, organização, direção e controle. Assim, os estudantes vão tendo contato desde presidentes a funcionários. Tudo isso vai criar a expertise dos alunos das EJ”, disse.

A Proade é a Empresa Júnior do curso de administração da UCB, ela oferece o serviço de consultoria administrativa desde empresas grandes às que estão começando. O presidente, Carlos Veloso, aluno do 7º semestre, afirma que mesmo com algumas dificuldades, a participação ativa abre ao estudante novas portas no mercado de trabalho: “Sou apaixonado pelo que faço aqui. Percebo que tenho grande ganho de conhecimento com a experiência de passar por uma EJ. Tem que gostar do que faz, se comprometer e aproveitar as oportunidades que surgem”.

Você tem uma visão 360º de tudo o que está acontecendo. Aqui temos uma estrutura definida, e isso nos ajuda a desenvolver habilidades. Ter o contato com os empresários é uma grande responsabilidade. Sinto-me mais preparada para o mercado de trabalho”, afirma a estudante de gestão pública, Letícia Borges, assistente de gestão de pessoas da Proade.

Dentro da lei

Os senadores aprovaram no último mês de março projeto de lei que regulamenta o funcionamento das Empresas Juniores. O PLS 437/12 foi proposto pelo senador José Agripino (DEM-RN), e após sofrer pequenas modificações na Câmara dos Deputados, foi aprovado por unanimidade no plenário do Senado.

A lei fomenta a capacidade de iniciativa dos jovens. Ela dá amparo legal aos universitários que passam a dispor de um espaço físico, ter a presença de professor orientador com carga horária garantida pela sua atividade. Garante também a isenção tributária pelo fato da empresa não ter fins lucrativos, e veta ideologias partidárias nas EJs. “Precisávamos ajudar aqueles, que num país capitalista, se dispõem a organizar para prestar um serviço e com isso garantir o seu crescimento de vida, e também do país”, disse o senador José Agripino.

Para a senadora Ana Amélia (PP-RS), que foi a relatora do projeto na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a lei incentivará a conciliação entre teoria e prática. “A convivência harmoniosa da prática e a teoria dentro do ambiente da universidade é extremamente relevante. Em algumas universidades públicas já existe a consciência da necessidade do país se atualizar nesse sentido, mesmo naquelas onde os aspectos ideológicos vão contra o capital, o que é uma visão ultrapassada. Se o Brasil não investir no empreendedorismo, ele vai perder o bonde da história. E nós temos uma coisa fundamental, que é o talento e a criatividade”, concluiu.

Caso de sucesso

Tarso Frota, 26 anos, foi empreendedor júnior quando ainda cursava administração na UnB. “Venho de uma família de juristas, maioria servidores públicos. E eu, desde sempre, quis empreender, ser um executivo de uma grande empresa ou ter meu próprio negócio”, disse.

Ele chegou a ser presidente do conselho deliberativo da Concentro quando ainda cursava administração. “Eu passei no processo seletivo para ser embaixador da Brasil Júnior na Confederação Europeia de Empresas Juniores. Fiquei no movimento Empresa Júnior por três anos e meio, o que foi de fato, a minha faculdade”, avalia Tarso.

Atualmente o ex-empreendedor júnior é um empresário de sucesso. Após sair da faculdade em 2011, Tarso investiu no seu próprio negócio. Juntamente com seu sócio, compraram a empresa Mr. Brownie, fabricante de doces e guloseimas de chocolate. “Pegamos a empresa praticamente falida. Empreendemos todos nossos conhecimentos adquiridos durante a faculdade e nos anos de Empresa Júnior. Desenvolvemos novas estratégias e hoje estamos com a empresa funcionando a pleno vapor”, disse.

Além da Mr. Brownie, os sócios estão investindo em mais dois negócios. Suas empresas empregam mais de 50 pessoas e têm um faturamento anual de quase seis milhões de reais. “A hora da universidade é uma hora de realização e não de ficar rico, até porque salário de estagiário não é pra ficar rico. O aluno deve aproveitar o momento da universidade para realizar coisas, para fazer coisas, e não para ficar no piloto automático e deixar tudo passar”, finalizou.

Ouça a fala do Senador José Agripino Maia para o Artefato.

jose agripino em entrevista para elizer da católica sobre empresas juniores (5)

Foto 1: Bárbara Carvalho

Foto 2: Mariana di Pietro