A voz da periferia

Moradores de Ceilândia assumem papel de protagonistas em atividades que aliam música, dança e diálogo. Realidade de jovens é transformada a partir de suas experiências

 Tatiane Alice

  Quem pensa que o eixo cultural do Distrito Federal se concentra apenas no Plano Piloto, mal sabe que a oferta pode se estender a outros lugares, como Ceilândia. Música, poesia, dança e teatro compõe o cenário cultural ceilandense. Jovem de Expressão, Sarau VA e Samba na Comunidade levam arte e incentivo social para os moradores da cidade. Projetos como esses são fundamentais para a região, considerando que esta é a mais populosa e com a maior taxa de homicídios da capital.

É comum escutar que crianças e jovens são o futuro do país, mas muitos estão em situação de vulnerabilidade, expostos à violência e sem acesso à cultura e conhecimento de qualidade. Os dados do Mapa da Violência de 2014 são preocupantes: no Brasil, a principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos é o homicídio. Negros e moradores de regiões periféricas de grandes centros urbanos engrossam as estatísticas.

Foi pensando nesses jovens que surgiu o Jovem de Expressão, custeado pela Caixa Seguradora. O programa é gerido pela Rede Urbana de Ações Socioculturais (R.U.A.S) e voltado para a juventude. No espaço, que fica na Praça do Cidadão, em Ceilândia Centro, são realizadas oficinas gratuitas de dança, fotografia, teatro e empreendedorismo. Grande parte do público mora em Ceilândia, mas também frequentam o local moradores de outras cidades como Samambaia, Recanto das Emas e Planaltina.

Durante as oficinas acontece o Fala jovem, um momento de diálogo em que os participantes podem discutir problemas e receber auxílio. Nas rodas de conversa são discutidos temas como sexualidade, drogas e questões de gênero. Toda atividade é pautada com temas relacionados à juventude.

O jornalista Davidson Pereira, 30 anos, conheceu o projeto há seis anos, quando ainda estava fazendo a gradução. Participou de uma oficina de produção de eventos durante três meses e, desde então, trabalha no local. Para ele, a importância do Jovem de Expressão “é canalizar oportunidades e fazer com que jovens façam curso superior, encontrem um trabalho, tornem-se um empreendedor e sejam criativos no que fazem”.

Mudança

Um novo caminho para o empreendedorismo foi o que motivou Lucas Pinheiro, 24 anos, a montar uma produtora. Ele é morador de Ceilândia e teve a ideia junto com amigos, que não sabiam como colocá-la em prática. Isso mudou quando conheceram o Laboratório de Empreendimentos Criativos (LeCria) – a incubadora de ideias do Jovem de Expressão. “Dentro do laboratório assistimos palestras, aprendemos como captar recursos e outros aspectos que são essenciais para a criação de um negócio”, conta.

A equipe se dividiu, mas Lucas seguiu em busca do sonho e criou o Movimento Undergroud de Brasília (MUB), uma produtora com quase dois anos de atividade. A empresa conta com seis voluntários e realiza eventos relacionados à cultura urbana. “O Jovem de Expressão mudou nossa rotina, nossa forma de pensar e de viverHouve uma transformação no cenário da minha cidade, sentimos na pele essa mudança. O projeto é uma verdadeira uma fonte de inspiração”, emociona-se.

Samba para todos

Não é tarefa fácil implementar um projeto que insira um gênero musical onde ele é pouco conhecido e para todas as idades. Mas é justamente isso o que acontece no Samba na Comunidade, ação idealizada por Michael Santos, 30 anos, e Negro Vatto, 45 anos. O primeiro toca cavaquinho e o segundo, percussão. Ao participar de eventos de samba, começaram a observar uma série de problemas que envolviam este gênero musical no DF. E foi isso que os motivou a começar o projeto.

O samba de raiz é oriundo dos morros e das favelas mas, no Distrito Federal, está mais concentrado no Plano Piloto e no Cruzeiro. Além disso, existe a dificuldade de locomoção para o público e a maioria dos músicos que fazem samba moram em outras regiões administrativas. Durante quase dois anos, eles fizeram um estudo do cenário do samba no DF e, em maio de 2014, com a ajuda de amigos, realizaram a primeira roda de samba.

Ao fazer as primeiras pesquisas para o projeto, Michael percebeu que muita gente confunde samba com pagode. “Quando você sai do Plano Piloto o samba começa a ser perder, pois muitas pessoas nas outras cidades nem sabem o que é samba. Existe muito pagode na mídia, mas não samba”, acredita. Pensando nisso, eles queriam levar o samba de raiz para os locais onde ele não é conhecido. “A cultura do samba de raiz é tão maravilhosa, por que não pode estar em todo lugar e ser para todos, já que ela foi feita para todos?”, indaga o sambista.

O mais interessante é que o projeto é feito inteiramente pela comunidade. Existem pessoas que vão apenas para ouvir, outras que chegam somente para tocar na roda, e algumas que, quando podem, contribuem financeiramente com o movimento. “A comunidade abraçou o projeto de uma forma maravilhosa”, conta. No geral, a ideia é que o samba é para todos, inclusive para as crianças. É um evento para toda a família. Em algumas ocasiões, a ação conta com pula-pulas e futebol de sabão. O Samba na Comunidade acontece todo terceiro sábado do mês na Praça da Bíblia, em Ceilândia Norte.

Conexão de anônimos

No processo de construção do Samba, Michael e Vatto conheceram o Sarau VA (Voz e Alma), antes denominado Sarau da CM (Caligrafia Mardita). Eles ficaram maravilhados com o que acontecia ali e perceberam que era possível fazer um projeto cultural virar realidade, mesmo sem dinheiro.

O Sarau VA também acontece na Praça da Bíblia, toda terça-feira à noite, desde 2013. Segundo um dos organizadores, Rafinha Bravoz, 30 anos, o projeto surgiu a partir da vontade que amigos de infância tinham de se reunir novamente. Inseridos na cultura do Hip Hop, eles se juntavam para trocar versos. No começo não havia música mas, com o tempo, o movimento começou a crescer. Ao receber sugestões de frequentadores, eles ainda resolveram colocar som e microfone. Para Bravoz, a grande importância do Sarau é que os frequentadores assumem o papel de protagonistas. “Anônimos chegam e se sentem importantes”, conta.

Assim, o Sarau se tornou um lugar de resistência na periferia, onde os participantes podem expor seus problemas, dificuldades e anseios pela arte. Cada pessoa que frequenta tem espaço para falar, seja cantando, declamando poesias ou mandando rimas de rap. Além disso, acontecem shows e apresentações de artistas locais e de outras cidades.