A cura pela mente

Tratamento clínico busca na hipnose novo caminho para a melhora de doenças

Maianna Souza e Daniela Silva

Um homem mastiga uma cebola crua com a fome de quem encontra uma maçã suculenta após correr uma maratona. “Está gostoso?”, pergunta Guilherme Alves, hipnólogo com mais de uma década de experiência. O participante com a boca cheia afirma com a cabeça.

A cena pode ser vista em cursos e shows que Alves faz por todo o país. Durante anos a hipnose foi usada para simular truques de mágica em shows de entretenimento, conhecida como hipnose de palco. A prática busca agora seu lugar no rol de ciências que lidam com a saúde mental. “A capacidade de experimentar um estado de transe é a mesma capacidade de sentir medo, dor ou felicidade. É parte do ser humano’’, afirma o hipnólogo. Entre outros tratamentos, Alves realiza um curso específico para mulheres que enfrentam a anorgasmia, disfunção sexual que impede a experimentação do orgasmo.

Outros profissionais também utilizam a técnica em uma variada gama de distúrbios. Criador da metodologia Hipnoterapia Cognitiva certificado em Hipnoterapia clínica pelo Instituto Weizmann de Ciência em Israel, o psicólogo Benomy Silberfarb utiliza a hipnose clínica em conjunto com a Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC): “A hipnose ensina ferramentas de controle para lidar com transtornos mentais, dor, insônia e controle de dietas alimentares”. O objetivo desta abordagem é a reestruturação do processo de conhecimento para identificar os erros de raciocínio e transformar as emoções. “Lembro de uma cura ocasional em que uma paciente tinha câncer no pulmão. Fiz ela imaginar que seu pulmão era um jardim cheio de flores e o câncer uma erva daninha. Se ela regasse todos os dias as ervas morreriam”, recorda. Silberfarb conta que a fé é outro componente importante no processo de cura: “A mulher venceu o câncer e acredito que sua religiosidade, aliada à hipnose, foi de grande valia”.

Doutorando em Ciências Médicas pela Universidade de Brasília (UnB), o médico Gil Montenegro também utiliza a prática contra a dor, a ansiedade e a depressão em pacientes que lutam contra o câncer no trato digestivo. “Em minha experiência os resultados são expressivos e demonstram que a hipnose é viável como terapia complementar em pacientes oncológicos”, relata.

De acordo com Alves, a hipnose é benéfica mesmo se for apresentada como uma brincadeira. “Se o hipnólogo for ético, saberá trabalhar o inconsciente da pessoa e ajudar o consciente a resolver algum problema”, acredita.

Medo, fobia e vício

Quando falamos de medo, estamos falando de fobia? O psicólogo e doutor em Neurociências, Danilo Assis esclarece a diferença: “A fobia é uma reação patológica a determinados estímulos que levam a atitudes e ações extremas. O medo tem uma reação muito menor que uma fobia”. Esta é a experiência do consultor Numa Duisit, que sentia pânico ao passar por túneis. “Estava em um engarrafamento em um túnel em São Paulo e pensei que ia morrer. Todos os sinais físicos surgiram: coração acelerado, pressão baixa. Fiquei em estado de choque, quase parando de respirar”, descreve. O alívio veio após a regressão hipnótica que fez em outubro de 2015. “Eu não imaginaria que a regressão fosse tão forte e profunda, que iria tão longe no tempo. Eu diria que melhorei 80%”, diz.

Os resultados da prática variam. A primeira vez que o representante comercial João Domingos participou do procedimento para curar o tabagismo, não funcionou. Decidiu então fazer um curso para aprender a hipnose e aplicar em si mesmo. “Em janeiro deste ano fiz uma auto hipnose, em que induzi o meu subconsciente a associar um cheiro ruim de cigarro a cada vez que eu sentisse vontade de fumar e funcionou’’, comemora.

Guilherme Alves explica que o efeito conseguido por Domingos é esperado porque todo estado hipnótico é um processo de auto hipnose, que pode ser ou não guiado por alguém. “A hipnose é fé e expectativa, não tem nenhum poder. Ninguém faz o que não quer por estar em um estado hipnótico. Eu posso sugerir algo, mas a pessoa não fará se ferir os princípios morais e éticos dela”, explica.

Orientação

O uso da hipnose como recurso auxiliar é aprovado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). “Cabe a cada profissional avaliar se a hipnose poderá ser utilizada em determinado atendimento. O registro destes profissionais fica a cargo dos Conselhos Regionais de Psicologia. O Conselho Federal atua em instância recursal”, explica a assessora do CFP Raquel de Lima. Do mesmo modo o Conselho Federal de Odontologia (CFO) normatizou a hipnose na Resolução nº 82/2008 como uma prática integrativa e complementar, utilizada como substituta de anestésicos quando o paciente é alérgico.

No entanto, no Brasil não há legislação que estabeleça regras para ensino e prática da hipnose, por isso os profissionais recomendam cautela ao procurar um curso ou tratamento.

O neuropsicológo Silberfarb acredita que o profissional deve ter formação em psicologia ou psiquiatria. Essa é a mesma opinião do psicólogo Danilo Assis que sugere procurar o CFP para encontrar um bom hipnólogo, assim como verificar se o profissional possui mestrado ou doutorado Fazer pós- graduação possibilita mais de artifícios para trabalhar a hipnose, como acesso a materiais em inglês, leituras a textos e artigos científicos”, aconselha.

Para o hipnólogo Gil Montenegro um dos desafios da área é criar uma legislação que puna de maneira severa o uso da hipnose por pessoas não qualificadas. “A hipnose tem sido utilizada de forma errônea por algumas pessoas apenas interessadas em aparecer”, critica.

 

Saiba mais:

Filmes:

Dr. Mesmer- O feiticeiro – A obra biográfica mostra a vida de Franz Anton

Mesmer, precursor do magnetismo animal que deu origem à hipnose.  O filme

mostra o desenvolvimento da técnica e as dúvidas que cercaram o médico

durante o tratamento dos pacientes que se submetiam à novidade.

 O hipnotista- O hipnotista envolve família, assassinatos, traumas e um

terapeuta para resolver a situação. O filme conta a história de um assassinato

que envolve quase toda família. O único sobrevivente pode ajudar a encontrar

os culpados, através da hipnose. O hipnotista é dirigido por Lasse Hallstrom e

tem duração de 2h2min.

Hipnose- A personagem busca um tratamento para o vício no cigarro, mas a

história cria outros rumos durante a sessão de hipnose, com visões que podem

ajudar as autoridades na busca de um criminoso.

https://www.youtube.com/watch?v=ij-oCL50M- g

 

Livros:

  •  Hipnose para o Clínico, de Gil Montenegro
  • Hipnoterapia Cognitiva: Tratamento dos Transtornos Alimentares e

Controle de Dietas, de Benomy Silberfarb

  • Manual Brasileiro de Hipnose Clínica, de Marlus Vinicius Costa Ferreira

 

Foto de capa: Alan Rios.