Nova forma de escrever português

Prazo de adaptação chega ao fim, mas cidadãos ainda têm dúvidas quanto às novas regras. Acordo ortográfico ainda gera divergências

Lorena Carolino

A língua portuguesa não é a mesma para todos os países que a utilizam. Algumas palavras foram modificadas com o objetivo de unificar o idioma. Ideia, enjoo, autoescola, minissaia e antissocial, por exemplo, têm duas coisas em comum: a mudança na grafia e a dúvida da população na hora da escrita. O trema foi abolido, alguns acentos diferenciais não existem mais, o alfabeto será formado por 26 letras, com a inclusão do k, w e y e o uso do hífen foi também modificado. Assinado em 1990 com outros Estados-membros, o novo acordo foi aprovado pelo Brasil em 2008 e implantado em 2009 sem obrigatoriedade, sendo as duas grafias aceitas até então. A ideia inicial era de que as regras fossem colocadas em prática em 1 de janeiro de 2013, mas diante das críticas da sociedade, o governo brasileiro adiou a mudança para 1 de janeiro deste ano.

Seis anos foi o prazo concedido para que a população se adaptasse às alterações gráficas. Segundo informações do Ministério da Educação, o acordo atingiu apenas 0,8% do total de palavras usadas no Brasil, enquanto os vocábulos de Portugal foram atingidos por 1,3%. Oito países adotam a língua portuguesa como idioma oficial: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Moçambique, Portugal e São Tome e Príncipe.

Por meio de assessoria a Academia Brasileira de Letras esclarece que, a nossa língua tem dois modelos oficiais ortográficos: o de Portugal e o do Brasil. Em 1940, delegados dos dois países combinaram um pacto ortográfico, mas o Congresso Brasileiro não validou. “O Brasil preferiu o critério anterior, de nossa Academia de Letras, enquanto Portugal acatava o combinado. Dessa forma, se criou a estranheza das duas formas oficiais de grafar a língua”.

A especialista em linguística e editora de opinião do jornal Correio Braziliense, Dad Squarisi, afirma que o acordo ortográfico teve o objetivo de padronizar a língua. “A confusão acontecia porque Portugal já não usava o trema desde 1972 ,nem o acento agudo em ditongos abertos, por exemplo, e nós usávamos. Na assinatura de documentos, os brasileiros não assinavam com a grafia portuguesa e os portugueses não assinavam com grafia brasileira, sendo necessária a produção de dois documentos”, afirma. Dad acrescenta que a reforma ortográfica muda apenas a escrita das palavras, não altera crase, concordância, regência e nem pronúncia. Além disso, as mudanças foram feitas apenas nas paroxítonas – palavras que possuem o acento tônico na penúltima sílaba.

O gestor operacional, Bruno Costa, 33 anos, vive em Porto, Norte de Portugal e tem ressalvas sobre a proposta do novo acordo, pois, acredita que com as reformas, a língua vai perdendo cada vez mais a sua raiz. “Partindo do princípio que havia duas ortografias para a mesma língua, acredito que o novo acordo vem resolver este erro histórico, já que Portugal alterou a escrita após a implantação da República Por outro lado, é preciso pensar sobre a origem da língua e sua raiz”, assegura.

Bruno observa que em Portugal as pessoas rejeitam o acordo ortográfico e estão resistentes à mudança, mas as escolas portuguesas e o governo têm ajudado nessa tarefa de aproximação da sociedade com a nova forma de escrita: “Por mais que a população não esteja completamente adaptada, os centros de ensino estão incentivando a interação dos alunos com as novas regras. Além disso, as leis portuguesas são publicadas com o novo acordo e tudo no âmbito estatal já está efetivamente funcionando com a nova grafia”. Bruno alega que as dificuldades existem, mas está confiante que a adaptação acontecerá em breve.

Para Douglas Tufano, professor de português e autor de várias obras didáticas e informativas da língua portuguesa, em alguns pontos, o texto da reforma não é claro. “A proposta era fazer um acordo ortográfico, como consta no documento oficial, e não uma reforma ortográfica. A ideia era diminuir a duplicidade de ortografias, por isso os ajustes ortográficos, que alcançam uma porcentagem pequena de palavras. Avançamos um pouco, mas ainda estamos distantes do objetivo principal”, opina.

O professor Douglas não concordou com todas as mudanças do acordo e acredita que a aplicação da reforma ortográfica poderia ter sido melhor. “Não gosto do acordo como um todo. As regras anteriores sobre o emprego do hífen, por exemplo, resolviam bem as diversas situações e eram mais lógicas do que as atuais”, conclui.

O cenário divide opiniões, alguns são a favor das mudanças ortográficas e outros são contra. Clarissa Fernandes, 24 anos, é formada em letras e é a favor da reforma ortográfica por entender que a unificação da língua é benéfica para todos que a adotam como idioma principal. “A reforma ortográfica modificou uma série de palavras e isso exige que todos estejam dispostos a se adaptar às novas regras Além disso, a língua portuguesa já passou por diversas transições e elas surgiram no decorrer da história, não é algo novo”, afirma.

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Linha do tempo

1991 – Portugal faz uma reforma ortográfica, mas o Brasil não.

1943 e 1971 – Foram os anos em que tivemos reformas ortográficas no Brasil.

Dezembro de 1990 – Quando a nova reforma ortográfica começou. Foi protocolada em Lisboa e discutida pelos oito países lusófonos.

2001 – O Congresso brasileiro aprovou a reforma.

2004 – O Brasil validou o acordo e o Segundo Protocolo Modificativo – documento que traz algumas modificações no acordo inicial.

Fevereiro de 2006 – Cabo Verde também legalizou os documentos

Dezembro de 2006 – São Tomé e Príncipe também ratificou os papéis

2009 – Acordo foi implantado pelo Brasil sem obrigatoriedade, sendo as duas grafias aceitas até então.

2013 – Era a data estipulada inicialmente para as regras da nova ortografia, mas a data foi modificada diante das críticas da sociedade.

2016 – Obrigatoriedade da nova ortografia em todo o país.