Empreendedorismo inteligente

Como a Economia Criativa no Distrito Federal forma novos produtores e movimenta o setor.

Ana Velozo

Rendas, toalhas de mesa, cerâmicas e trançados. Estes são alguns dos itens mais produzidos pelos artesãos brasileiros. Entretanto, o artesanato passa por uma revolução, com a qual seus tradicionais modos de produção se expandem para áreas como gastronômica, têxtil e até mesmo tecnológica.  Segundo a coordenadora de Políticas Públicas da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal Mariana Soares, o artesanato é visto pelo Governo do Distrito Federal (GDF) como um dos pilares mais importantes da Economia Criativa.

“Vemos nesse empreendedorismo uma forma de produzir e atender cada vez mais o público de Brasília. O setor de comércio é o que mais fatura durante o ano, rendendo R$ 6,2 bilhões no ano de 2015”, explica.

Após abandonar a profissão de colorista em um ateliê de moda na cidade de São Paulo, Marcelo De Angelo, 33 anos, buscou Brasília como segunda casa. Assim, o empresário criava seu primeiro negócio: A Quitanda Criativa. Baseada no conceito de delivery, Marcelo explica que seu intuito era criar um serviço à população brasiliense. “Para fornecer uma ligação entre o produtor rural e o consumidor brasiliense criamos um mapa de frutas, legumes e hortaliças em Brasília. Após uma grande demanda de clientes,  resolvemos iniciar o serviço de delivery.”

No início de 2014, Brasília passava por uma transformação gastronômica, quando os primeiros foodtrucks – automóveis personalizados para servir à população alimentação diferenciada, preferencialmente  artesanal – começaram a aparecer. A partir de então, seus donos se uniram para criar eventos que atraíssem a população oferecendo produtos artesanais, música e arte, além de trazerem vida a espaços urbanos pouco utilizados.

Marcelo viu neste fato uma oportunidade de expandir seu negócio e, além de oferecer alimentos frescos para os organizadores, também passou a ser convidado a criar sucos naturais, uma paixão antiga. “Sempre gostei de frutas, seja comendo ou misturando suas cores. E o mais importante é que sempre optei pelo natural, orgânico e fresco. Assim, fazia pequenas garrafas de criações próprias e presentava a meus clientes”, relembra.

O que era um hobby para o empresário, passou a ser uma demanda nos eventos. Mas nem tudo foi fácil, segundo ele explica: “Nessa época, enfrentei dificuldades, porque eu não tinha um automóvel para comercializar meu produto, o que é uma exigência desses eventos”. Foi então que Marcelo resolveu criar uma nova marca. E assim nasceu, no mesmo ano de 2014, a Sucopira, uma kombi voltada para atender as demandas de eventos de rua.

Marcelo se diz contente com os resultados e mesmo enfrentando problemas de gestão e a crise financeira, as dificuldades não refletem o desafio no preço final para o consumidor. “A ideia está funcionando muito bem, melhor do que imaginávamos. Tentamos entender como é feita a estocagem do suco no foodtruck, pois sua vida útil é curta. Outro empecilho é o preço das frutas e legumes. Se antes eu pagava 25 reais numa caixa de cenoura, hoje pago 70.”

A solução é utilizar novas estratégias para continuar lucrando, como utilizar as frutas da estação que são mais baratas. Mas algumas receitas não podem seguir esse princípio, explica Marcelo. “Há sabores que não podem sair do cardápio, são os queridinhos do público. Daí, ao invés de levarmos quatro tipos diferentes de sucos, optamos por um preferido e uma novidade. Assim, mantemos nosso público fiel e ao testamos  novos sabores”, anima-se.

Marcelo Piucco, chef a frente do foodtruck El Negro,  enfatiza que o sabor é o maior diferencial dos produtos artesanais.  “Não tem motivo usar carnes baratas, pois o que faz um lanche de foodtruck ser especial e melhor do que um de fast food é o seu gosto. Você precisa sentir cada especiaria e a , suculência do hambúrguer.”, garante.

O El Negro, restaurante especializado em carnes argentinas, expandiu seus negócios para a criação de hambúrgueres totalmente artesanais, da fabricação do pão até as pimentas usadas pelos clientes nos eventos. Em funcionamento há apenas 2 meses, o projeto conta com uma tradicional parrilha argentina móvel, onde hambúrgueres, linguiças e demais carnes são assadas.

O chef conta com a ajuda de mais cinco funcionários no caminhão, e mantém sua produção totalmente artesanal. Linguiças, hambúrgueres e queijos são criados no subsolo do restaurante localizado na Asa Norte.

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Investimentos

Ao todo, 22,6 mil pessoas foram empregadas em 2015 em postos gerados pela Economia Criativa. O Distrito Federal ficou em 2º lugar entre os estados brasileiros a investirem e reconhecerem a Economia Criativa, perdendo somente para São Paulo. A lista divulgada pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), também revela outros dados, como investimentos do governo durante o ano e o que de fato foi produzido pelo setor.  

A pesquisa também mostra a representação do setor para  o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Anualmente, o setor representa 1,2% e 2% PIB e aproximadamente 2% da mão de obra e 2,5% da massa salarial.

A gerente de projetos em Economia Criativa do Sebrae, Aparecida Vieira apresenta o quadro dos trabalhadores deste setor, que se mostra diferenciado. “ Os profissonais ganham mais e são mais escolarizados do que a média. Isto é refletido no salário. Enquanto o rendimento mensal médio do trabalhador brasileiro era de R$ 2.073 em 2013, o dos profissionais criativos chegou a R$ 5.422.”

Qualificação

Brasília, assim como São Paulo e Rio de Janeiro são os estados que mais se preocupam com este novo conceito de economia. Os governos, juntamente com o Sebrae, buscam desenvolver um conceito de empreendedorismo que foque tanto na gestão empresarial de sucesso, como no bem intelectual. Portanto, estes setores precisam de constante qualificação.

O especialista em Finanças Empresariais pela Universidade de São Paulo (USP) José Eustáquio Moreira de Carvalho atua há 42 anos como assessor econômico no Federação do Comércio do Distrito Federal (Fecormércio-DF). Ele vê o processo de produção artesanal, assim como os demais setores da Economia Criativa, uma parte indispensável para o avanço econômico de Brasília.

“A economia brasiliense é baseada em comércio e serviço. Brasília não possui espaço e terra suficientemente fértil para ser um polo agrícola. Tampouco pode se firmar como polo metalúrgico e automobilístico, já que a área e o conceito de preservação não permite seu desenvolvimento”, explica o especialista.

Apesar da importância do setor, José Eustáquio ressalta a ausência de definições e diretrizes concretas sobre o que é Economia Criativa. “Desde 2014, são discutidas as diretrizes e setores desta forma de economia, entretanto pouco se estabeleceu. É uma área que precisa de organização e mapeamento, até mesmo de uma pesquisa censitária”, reflete. Para ele, o pequeno e médio produtor não recebem a devida importância de grandes órgão, e falta especialização, a especialização e informação ainda são falhas. “Apesar da importância deste tipo de serviço, falta assistência efetiva para o empresário. É preciso preparo para garantir eventos e a valorização do produtor local. É necessário formalizar e sistematizar a Economia Criativa.”

A especialização é o começo do projeto de Daniela Marques,  os irmãos Pedro e Tiago Dantas para a fabricação de cervejas artesanais. Após concluir o curso de mestre cervejeiro, onde aprendeu com fazer todo o processo de produção cervejeira, Pedro começou a fabricar cervejas artesanais na cidade de Vicente Pires para presentear amigos e familiares. Daniela, sua esposa, conta que o processo era totalmente manual, e as matérias primas eram buscadas em outros estados. “As cervejas ficavam prontas em cerca de 15 a 20 dias, e nós as engarrafávamos, resfriávamos e dávamos para as pessoas que assim como nós, eram amantes de cerveja”, recorda.

Com a procura pela iguaria cada vez maior, os sócios decidiram fundar a Fusbier, empresa móvel que oferece cervejas artesanais na janela de um fusca. O preço varia de R$ 8 a R$ 18 e possui diversas variações como Pilsen, Weiss e Red Ale. O automóvel modelo 1982 foi reformado  e planejado segundo a identidade visual da nossa empresa”, conta Tiago Dantas.

Hoje, com dois anos de carreira, a empresa conta com clientes fiéis e diversidade de marcas. Apesar da iniciativa, a fabricação de cervejas artesanais para comercialização é proibida no DF, após o decreto nº 6.871, de 4 de junho de 2009.   Sobre o empecilho, Daniela explica porque a sua empresa, assim como outras microempresas da região, possuem polo produtor fora do DF. Esta travessia dificulta na definição do preço final. “Uma produção de 30l de cerveja feita em Goiânia custa R$ 400. Para o produto chegar até aqui, pagamos o dobro em tributação. Mas é a nossa escolha. Queremos continuar fazendo e manter o preço.”

Outros setores

A Economia Criativa também utiliza outros setores de produção para integrarem seu conceito, como fotografia. Para o fotógrafo Gabriel Caldeira, 21 anos, o mais importante no processo dos setores da Economia Criativa é a paixão. “Não importa se você é um pedreiro, um confeiteiro ou um vitrinista. Se você ama o que faz, é claro que irá buscar profissionalização, justamente para enriquecer o seu trabalho e se fortalecer profissionalmente”, defende.

Atualmente Gabriel possui a microempresa Lightnin’ Produções, onde filma, fotografa e edita vídeos de casamentos, aniversários e festas. Os lucros com o trabalho chegam a 80% e utiliza principalmente equipamentos tecnológicos para serem produzidos. “Desde sempre gostei de fotografia. Comecei a me envolver com vídeos ao ver meus primos usando programas no computador e gostar do resultado. Assim comecei a me envolver e procurar cursos que pudessem me incentivar e mostrar o meu talento”, explica.

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Foto: Acervo pessoal

Por onde começar

O Sebrae e o Instituto Federal de Brasília (IFB) oferecem diversos cursos profissionalizantes e tecnológicos para ajudar jovens e pequenos empreendedores. Se o leitor se interessou e assim como os demais produtores acredita que há mais para aprender, confira os endereços de centros educacionais no Distrito Federal e entorno:

 

Instituto Federal de Brasília

www.ifb.edu.br/

Endereço: SGAN 610, Módulos D, E, F e G, Brasília/DF, CEP 70830-450

Telefone: (61) 2103-2154


 

Sebrae – DF

www.sebrae.com.br

Endereço: Conjunto A – Sgas 605

Telefone: (61) 3348-7100

 

 

Como é que tá lá

www.comoequetala.com.br

Endereço: SHIGS 705 Bloco A CASA 35, Brasília – DF, 70830-900

Telefone:(61) 8118-0147

 

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Foto: Divulgação