Destino incerto

Catadores do Lixão aguardam posicionamento do GDF. Há quatro décadas a extinção dos lixões foi determinada, mesmo assim, o governo ainda não sabe o que fazer

Jhéssika Almeida

Exposto ao sol escaldante ou em meio a chuvas, seja durante o dia ou a noite. O trabalho não para. No intervalo para beber água, uma fila de caminhões é formada, é preciso ser rápido. Sem direito a férias, 13º salário, auxílio-transporte, vale alimentação ou até mesmo plano de saúde, o trabalho segue 24 horas por dia, incessante. Ninguém sonha em ser catador de lixo. Ninguém planeja a profissão para o futuro dos filhos, mas sem ela estaríamos todos submergidos em meio a tantos resíduos.

A separação dos resíduos é feita manualmente pelos catadores a céu aberto, dividindo o espaço com urubus e moscas. Para lá de desumanas, os trabalhadores sequer contam com materiais básicos de segurança.

A catadora Ernanda Maria de Jesus, 30 anos, veio da Bahia trazendo na mala seus temperos – seu hobby é cozinhar – e a esperança de encontrar melhores condições de vida. Hoje, catadora de lixo, ela sonha com o curso de Gastronomia. Há dez anos no lixão, Ernanda encontra, na cozinha, o prazer que está bem longe de sentir enquanto separa o lixo: “Sempre gostei de cozinhar e meus filhos não têm do que reclamar (risos)”.

Mas depois do sonho, vem a realidade. No lixão, a atenção precisa ser dobrada. Muitas pessoas já morreram atropeladas no local. “Se acontecer qualquer acidente é por sua conta, não tem nenhum responsável”, denuncia. Além do alto risco de lesões, cortes com agulhas de injeções e cacos de vidro, o trabalhador quando se machuca prejudica a si mesmo, pois perderá alguns dias em casa por conta dos ferimentos.

Por mais que estar ali seja sinônimo de viver o caos – em meio a moscas, urubus, ratos e tantas outras possibilidades que podem levar à contaminação e doenças -, os catadores do lixão da Estrutural não querem sair de lá. Poderia ser uma contradição, não fosse o entendimento de que eles se apegam ao espaço como uma forma de sobrevivência. A favor da desativação, Ernanda teme não conseguir um local para trabalhar.

João da Conceição, 45 anos, também se apega ao lixão como seu local de trabalho. Ele veio do Piauí e viu no lixo, literalmente, sua única fonte de renda. O catador acredita que se o lixão for retirado muitos trabalhadores irão ficar desempregados. “Muitas pessoas que vivem aqui não têm nem uma casa para morar, as vezes falta até o que comer. O que será feito com a gente, ninguém soube explicar ainda”, indaga.

Longe de acabar

A desativação do Lixão da Estrutural segue sendo uma novela interminável. Pode-se dizer que o primeiro capítulo se deu em março de 1979, quando o Ministério do Interior publicou a portaria que estabelecia a extinção de lixões, vazadouros ou depósitos de lixo a céu aberto, no menor prazo possível, visando à qualidade de vida das populações urbanas.

Em 2000 o Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU) iniciou um processo de desativação do Aterro Controlado do Jóquei – nome oficial do lixão da Estrutural. Na ocasião, foi prometida a criação de locais apropriados para o recebimento dos resíduos sólidos e o fechamento total do espaço.

O Governo Federal em 2007 sancionou a lei, chamada de Política Nacional de Resíduos Sólidos. A lei, que só entrou em vigor em 2010, determinava a extinção de todos os lixões do Brasil e a construção de aterros sanitários até agosto de 2014. Ao fim desse prazo, o governo do Distrito Federal alegou que a construção dos aterros sanitários estava sendo concluída e conseguiu um novo prazo – outubro de 2015 -, que também não foi cumprido.

A implantação do lixão da Estrutural é um problema para toda a população do Distrito Federal e não somente para as pessoas daquela região. O solo da região não é impermeabilizado. Por isso, é contínua a poluição ambiental no Lago Paranoá e em toda a região vizinha ao Parque Nacional de Brasília, duas grandes fontes de abastecimento de água da região.

Segundo o assessor da diretoria geral do SLU Guilherme de Almeida, o governo vem adotando medidas que viabilizam esse processo de desativação. “O aterro sanitário da Samambaia vai começar a funcionar em julho deste ano”, promete. A promessa se arrasta desde 2010. A primeira vez que o governo sinalizou que a obra estaria pronta foi em setembro de 2013, depois outubro de 2014, depois julho de 2016. Há três meses do prazo que o governo deu para que o aterro esteja pronto, o Aterro ainda continua em obras.

Enquanto não se sabe ao certo o destino das pessoas, o futuro do aterro de Samambaia, o atual lixão com 124 hectares – que correspondem a 120 campos de futebol – também é incerto. De acordo com Eduardo Almeida, o lixão da Estrutural vai continuar funcionando até que todas as medidas estejam concluídas, pois se trata de uma área com necessidade de compensar os impactos na natureza. “Ao longo dos anos aquela área foi bastante agredida, agora precisamos estudar o que poderá ser feito e descobrir o custo-benefício”, complementa.

Para o professor de engenharia ambiental e sanitária Douglas José da Silva, mesmo com a desativação do lixão o controle dos resíduos terá que continuar, por pelo menos, dez anos ou até que a área esteja totalmente estabilizada. De acordo com o professor, provavelmente será feito um recobrimento naquela área que não poderá ser destinada para construção civil. “É uma área onde, por muito tempo, foram depositados resíduos tóxicos. É perigoso para a população, pois a área tem muitos gases que se acumulam no subterrâneo e até mesmo uma faísca pode ser fatal”, alerta.

De acordo com a socióloga e professora de comunicação social Sheila da Costa Oliveira o fato de existir um lixão é um retrato de como a sociedade lida com seus rejeitos, pois segundo ela o lixo também é nossa responsabilidade. “Mostra como destacamos os catadores que tratam dos nossos rejeitos. A leitura sociológica é os rejeitados trabalhando os rejeitos”, esclarece.

Ao longo de 37 anos, quase quatro décadas, a inquietação é que o GDF ainda não sabe o que fazer com o lixão da Estrutural. Enquanto a população aguarda, talvez o maior impacto gerado na região, seja na vida das pessoas que vivem naquele lugar.

Situação ideal

Para que a desativação aconteça e traga benefícios aos catadores que dependem do lixão para sobreviver, é preciso que sejam criados locais apropriados para o recebimento de resíduos da coleta seletiva, designar áreas para realização do tratamento de resíduos de materiais da construção civil e garantir que os aterros sanitários e os centros de triagem atendam todos os catadores.

De acordo com a engenheira ambiental e especialista em Saneamento Ambiental Jhéssica Cardoso enquanto nada é feito, a falta de impermeabilização do solo pode causar contaminação direta do solo e da água. Segundo a engenheira, o risco de contaminação é grande. “Os resíduos lá depositados podem contaminar o solo e depois a água, influenciando diretamente na qualidade das águas, e assim na qualidade de vida da população”, alerta.

Para Jhéssica Cardoso o problema vai além da falta de gestão do GDF. Está na atuação do ser humano em seu próprio habitat, a poluição próxima às nascentes e a falta de cuidado com os recursos hídricos. Ela acredita que talvez a solução esteja em atitudes simples: “Muitas vezes a medida mais importante é a própria educação ambiental, sensibilização e conscientização da população”.

Uma outra possível solução para o lixão da Estrutural apontado pelo professor de engenharia ambiental e sanitária Douglas José da Silva, seria a construção de jardins e plantio de vegetação não comestível.

Enquanto isso, o lixão da Estrutural, que durante anos oscila entre a lembrança e o esquecimento, continuará por um bom tempo sem um destino certo. Da mesma forma, a população que vive em cima do lixo a céu aberto e que e depende do lugar como forma de sustento, terá que aguardar os próximos capítulos. E a novela não tem data certa para terminar.

Conteúdo do jornal na íntegra em: Jornal Artefato Março 2016

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Foto: Karyne Nogueira
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