Vivendo mais e sem lar

Distanciamento familiar, envolvimento com drogas, violência e o desemprego são fatores que levam idosos a fazerem da rua seu lar

Andressa Guimarães e Catarina Barroso

Há tempos não vê a família, não se lembra mais do rosto do filho. O céu é seu cobertor, a calçada é a sua cama, as estrelas sua televisão, não toma banho há três dias, suas roupas estão rasgadas. Tem medo, fome, e o frio não lhe deixa dormir, por isso bebe: “a cachaça é o cobertor do pobre”. Viver nas ruas é a realidade de cerca de 4 mil pessoas no Distrito Federal, segundo levantamento da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Humano e Social (Sedhs), de 2015. Essa situação torna-se ainda mais difícil depois que se chega à terceira idade.

De acordo a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estima-se que nos próximos 14 anos a projeção da população idosa ultrapassará os 30 milhões de pessoas. Dados da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) explicam que em 2030 para cada cem pessoas menores de 15 anos existirão 51 pessoas de 65 anos ou mais. Para assegurar qualidade de vida dessa população, o Estatuto do Idoso confere proteção à vida e à saúde, deixando claro ser dever do Estado implementar políticas públicas para os maiores de 60 anos. Para acompanhar o crescimento deste número, a Sedhs oferece serviços socioassistenciais, realizando a abordagem social nas ruas e encaminhando os moradores em situação de rua para as Unidades de Acolhimento, que são vinculadas à Secretaria como a Casa Santo André.

Causas

Há quatro principais causas para cidadãos irem parar na rua – e contrário dos que muitos pensam – a principal não é relativa à problemas com drogas ilícitas, mas o distanciamento familiar, comumente causados pelo álcool. A violência doméstica também é um fato que leva os idosos a saírem de casa e romperem os laços familiares.

O terceiro fator é a falta de condições de sustento, possivelmente causados pela migração em que os idosos vem em busca de melhores condições de vida e não encontram oportunidades de trabalho. Por último, as questões de saúde fazem os idosos se deslocarem para buscar tratamento em Brasília.

Relato de vida

IMG_6731Humberto Sílvio Barreto Dourado, 62 anos, é um dos moradores da Casa de Acolhimento Santo André, na unidade do Gama.

“Eu tinha uma vida estruturada, vivia com minha esposa e um casal de filhos, mas comecei a beber e fui viver nas ruas. Passei seis meses em uma chácara terapêutica e parei de beber, mas quando sai não consegui apoio na rua e voltei para o vício. Quando pensei que ia fraquejar eu pedi ajuda e a Casa Santo André me ajudou. Eu vim para cá com piolho, maltrapilho, fedendo e olha como eu estou hoje, engordei 8 kg. Agora eu tenho autoestima, recuperei minha lucidez, porque cheguei aqui com a cabeça fraca, com um pouco de amnésia. A Casa Santo André transformou a minha vida para melhor, e hoje eu sou chamado de ‘seu Humberto’. Aqui não existe diferença entre um e outro, eles tratam todos muito bem e são gentis.” diz ele com entusiasmo e sorriso no rosto.

Na rua

“Se estivesse na rua era apenas mais um velho mendigo morrendo a míngua. Qual a esperança que um velho como eu teria lá fora? Nada, não tinha nada. O Brasil está passando por uma crise tão ferrenha que até os novos estão perecendo aí.” Ele ainda afirma que o preconceito e a humilhação vinham de todas as partes, o medo tomava conta de suas noites e conviver com viciados acabava fazendo se sentir rebaixado perante a sociedade.

Saudade

“Tive 45 anos de alcoolismo, e ainda sinto vontade, se falasse que não era mentira, mas aqui dentro estou me segurando. Frequentar as reuniões dos Alcoólicos  Anônimos (AA), também vem me fortalecendo, para quando eu sair, conseguir conquistar alguma coisa, pois ainda tenho dois filhos para cuidar. Espero que Deus me abençoe, essa Casa está me abençoando para sair uma nova pessoa, rejuvenescida mentalmente, fisicamente e moralmente. Eu perdi o contato com eles por um bom tempo e um ficou melhor de vida que outro, e quando cresce tem aquelas picuinhas, eu estava numa situação até boa e depois cai nessa situação e não procurei mais eles” lamenta Humberto.

Cheio de esperança, ainda sonha em rever seus filhos “com fé em Deus penso em voltar para a convivência com meu casal de filhos, Mirian e Vitor, é o que mais quero para minha vida.”

Foto 1: Patrícia Benevides

Foto 2: Catarina Barroso

Conteúdo do jornal na íntegra em: Jornal Artefato Março 2016