Epidemia midiática

Informações ultrapassam a linha tênue que separa os dados estatísticos e científicos do exagero. Buscar soluções rápidas causa desinformação e pânico na população

Jéssica Luz

Uma emergência sanitária ligada ao Zika vírus fez com que a mídia voltasse os olhos para o tema. Notícias mostrando que crianças abaixo de sete anos e idosos teriam mais chances de adquirir problemas neurológicos após a infecção pelo vírus ou teorias citando mosquitos transgênicos criados para disseminar o vírus surgiram. E como um vírus, informações erradas se proliferam nos meios de comunicação de forma rápida, principalmente em redes sociais na internet.

A ligação do Zika vírus com casos de microcefalia passou a assustar mães. Dayane Lima, 25 anos, moradora do Guarujá, litoral de São Paulo, foi diagnosticada com Zika um mês após dar à luz sua filha. O susto maior veio em decorrência da desinformação: ela não sabia como deveria agir com seu bebê. “Eu ainda estava amamentando e as notícias que saem sempre assustam a gente”, diz. Após procurar ajuda médica, Dayane foi informada de que o bebê estava fora de risco.

Juliana Neves Ribeiro, 24 anos começou a sentir mal-estar no sábado que antecedia o carnaval. O primeiro sintoma foi falta de apetite. No dia seguinte outros sintomas começaram a aparecer. “Senti dores nas pernas e costas, mas achei que era normal. Dois dias depois, a sensação que eu tinha era de que um caminhão tinha me atropelado”, relata remetendo a fortes dores no corpo.

Após exames de urina e sangue, o tratamento foi direcionado para infecção nos rins. Após seis dias de internação e nenhuma melhora, Juliana ligou para um médico e amigo, que também trabalhava no hospital em que foi internada. Depois de avaliar o quadro, o médico levantou a hipótese de doenças relacionadas ao Aedes aegypti. Foi aí que ao fazer os testes, Juliana recebeu o diagnóstico positivo para a doença. “A minha maior preocupação, e claro, desespero, foi a dificuldade do diagnóstico. Eu era tratada de forma errada e os médicos não pediram os exames corretos, cheguei a achar que iria morrer”, conta.

Preocupada, Juliana relaciona a falta de informação sobre a doença, que é algo novo, e o tratamento indevido e desconhecido por profissionais que não sabem como agir. “Me desesperei porque ninguém sabe muito sobre a doença, e a mídia, ao mesmo tempo que informa, assusta”, conclui a jovem.

Conhecimento

No Brasil, a Fiocruz é conhecida por ser uma instituição de pesquisa e ensino, mas ainda não atua como figura esclarecedora para trabalhadores da área de saúde. “É função do médico ir atrás de esclarecimentos sobre como deve agir em uma situação de epidemia”, esclarece Elisa Andries, coordenadora da assessoria de comunicação da Fiocruz.

Para o tecnologista da Fiocruz e mestre em Divulgação da Ciência, Wagner de Oliveira, as medidas preventivas se tornaram ineficazes. O DF conta com a prática do fumacê, um carro ou pequeno caminhão que dispara inseticida sobre as casas para evitar que o mosquito se propague. “O uso indiscriminado de inseticida acaba tornando o mosquito mais forte e resistente a este tipo de ação”, explica.

Wagner questiona as informações divulgadas pela mídia a partir de apurações superficiais e boatos que surgem em redes sociais distorce o foco do problema porque busca soluções rápidas para algo que é novidade. “A busca por um culpado se torna o alvo da apuração, enquanto questões sociais são esquecidas”, ressalta Wagner.

No dia 5 de fevereiro de 2016, a Fundação Oswaldo Cruz informou que presença do Zika ativo, com potencial de transmissão, foram encontradas em amostras de saliva e urina. “O Brasil está passando por uma questão de emergência sanitária, falar sobre um potencial risco de infecção para a população é melhor do que tornar a instituição omissa com relação ao assunto”, conta Elisa Andries, assessora de comunicação da Fiocruz.

Conteúdo do jornal na íntegra em: Jornal Artefato Março 2016

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Foto de capa de Rodrigo Souza.