Protagonistas da noite no DF

Embalados pelo sucesso do reality show americano RuPaul’s Drag Race, drag queens conseguiram ampliar o público e se tornaram figuras reconhecidas nas boates da capital

Pedro Grigori

Tudo começa com a maquiagem. Massa de modelar para os olhos, base de efeito para palco, pó compacto, cílios postiços e glitter são apenas alguns dos materiais utilizados. Depois disso, é hora de se vestir. Meia calça fio, vestidos extravagantes – muitas vezes feitos em casa -, peruca e salto alto.  Em média duas horas e pronto: qualquer homem se torna uma drag queen*, uma das mais fortes figuras artísticas do meio LGBT*. Mas o que existe por baixo de toda essa montagem?

Flávio Alexandre, 20 anos, é tímido, mora em Taguatinga e acredita não se encaixar nos padrões de beleza masculinos. Mandy Million é elegante e expressiva. Mesmo sendo milionária, continua humilde e não abandona as raízes do gueto. O que estas pessoas têm em comum? Tudo. Flávio criou Mandy há dois anos e oito meses. De lá para cá, muita coisa mudou. Ela o ajudou a construir diversas amizades, conquistar trabalhos e adquirir conhecimentos que talvez não tivesse conseguido sendo Flávio.

Mandy Million é uma drag queen. Uma personagem criada por um artista masculino, que se transveste de mulher e adiciona características próprias e adereços extravagantes, tendo como principal objetivo entreter o público. Elas existem desde o século XVI, onde, no Teatro Isabelino na Inglaterra, homens faziam papeis femininos, devido à proibição de mulheres subirem ao palco.

Desde então, as razões para se tornar uma drag mudaram. Hoje é uma expressão artística, um artifício utilizado pelo ator por trás do personagem para expressar um de seus lados ocultos ou simplesmente mostrar ao mundo quem seria se tivesse nascido mulher. Segundo o psicólogo Bayard Galvão, especialista em psicanálise, a criação do alter ego drag queen é saudável. “Quando montada, a pessoa por trás da drag vive um momento em que mostra outro pedaço dela. É algo que não gera sofrimento, pelo contrário, é um exercício de viver uma parte própria em que ninguém é atacado ou agredido. É extremamente saudável, pois uma das maiores fontes de doenças psicológicas é justamente não viver os mais verdadeiros valores e vontades”, explica.

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Dita, Xantara Thompson e Poppy Moore animando a noite da boate Victoria Haus

Mercado de trabalho

Do século XVI até hoje, o alcance drag só cresceu. Elas chegaram à TV, cinema, música e principalmente a boates. Em cidades como São Paulo, drag queens comandam casas de show com capacidades que superam 1,5 mil pessoas. Enquanto isso, no DF, o movimento ainda está engatinhando, mas a cada dia se torna mais forte. Boates como Victoria Haus, Velvet Pub e Oficina Club já se tornaram as principais “moradias” das drags brasilienses.

A explicação para o crescimento do interesse por essa cultura é unânime entre quem é do meio: o reality show americano RuPaul’s Drag Race. “No Brasil temos acesso a uma versão muito caricata da drag, e em RuPaul aprendemos que vai muito além disso, ser drag é usar e abusar da criatividade e personalidade. E essa pluralidade cultural cativou diversas pessoas a acompanharem o mundo drag”, argumenta Flávio, que criou Mandy Million após virar fã o reality.

A drag queen é uma profissional artística como qualquer outra. Por noite, como performer, elas podem ganhar de R$ 100 a R$ 700. Mas para chegar a isso não é fácil. “No começo a gente precisa ser vista, então aceita o que tem. Já fui paga com consumação e já cheguei a nem ser paga, mas faz parte do período de construção de um nome”, relata Mandy, que já trabalhou como host – quem recepciona os clientes nas festas -, performer, dançarina, DJ e tequileira.

Melina Impéria, drag queen de Gabriel Sims, 19 anos, existe há quatro meses e vive o momento de ser vista. Atualmente, trabalha como promoter de festas, ajudando na divulgação dos eventos que participa. Para isso, recebe como pagamento uma quantia revertida em consumação dentro da festa. “Pretendo continuar trabalhando como drag, mas espero conseguir a oportunidade de receber em dinheiro pelo trabalho, pois ser drag não é barato. A montagem básica custa, em média, R$ 400. Esse valor não inclui a mão de obra, feita, na maioria das vezes, por nós mesmas”, conta Melina.

Confira o ensaio fotográfico exclusivo de Melina Impéria para o Jornal Artefato:

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Uma das festas que mais emprega drag queens na capital é a WoW, do produtor Wilson Nemov, 28 anos. São 15 drags entre as equipes fixa e periódica. “Há anos atrás, drags tinham espaço limitado, sofriam preconceito e desconforto. Felizmente é um quadro que vem mudando, e na WoW isso não acontece. Minhas meninas são prioridade. Qualquer sinal de desrespeito, olhar feio e abuso, é expulsão”, relataWilson.

A WoW acontece às quartas-feiras no Velvet Pub e, periodicamente, o produtor traz para Brasília drags participantes de RuPaul’s DragRace, como Katya e Laganja Estranja, recebidas pelo público como verdadeiras divas pop. Seus cachês chegam a até 10 mil dólares e o público é tão grande que a festa é levada para espaços maiores. “Sabemos que uma hora a moda irá passar e o mercado ficará morno. Mas agora que as descobrimos, é impossível esquecê-las. A porta foi aberta, e as drags não irão deixar que ela seja fechada facilmente”, completa o produtor.

Vivenciando outro lado do mundo drag, encontra-se a empreendedora Allice Bombom, personagem de Alexandre Loyola, 45 anos. Allice apareceu pela primeira vez em público em uma festa em Taguatinga, há 20 anos. “Comecei nas boates GLS*, em algumas delas, no início da minha carreira, cheguei a pagar para entrar. Depois de um tempo, eram as pessoas que me pagavam para comparecer”, conta Alexandre.

Hoje, por um cachê a combinar, Allice anima casamentos, aniversários, formaturas e despedidas de solteiro. E não para por aí. Alexandre, antes mesmo de se montar, vendia bombons caseiros para festas e eventos, e um dia após uma perda de encomenda, decidiu vender os bombons montado. “Na minha primeira vez fui para o bar Barulho, no Parque da Cidade, e desde então não parei mais. Descobri que comercializando os bombons como Allice o lucro era maior”, explica.

Assim como Allice, existem diversos outros tipos drags, como por exemplo, as comediantes, que fazem a vida em stand ups; as misses, que participam de concursos de beleza; as modelos, que se montam para participar de anúncios publicitários e vídeos na internet; e até mesmo as drag king, quando uma mulher se monta como um homem.

Preconceito

Confundidas com travestis, as drag acabam sofrendo os mesmos preconceitos que um membro da comunidade LGBT, mas por se tratarem apenas de uma expressão artística, não fazem parte desse meio.

No cotidiano, diferente das travestis, o ator por trás da drag abandona os utensílios femininos, podendo também exercer qualquer tipo de profissão durante o dia. Como é o caso de Breno Tavares, 27 anos, que dá vida a Xantara Thompson há três anos. Além de drag, ele trabalha com edição de imagens, é maquiador e editor gráfico do Miss DF.

Segundo ele, o preconceito ainda existe e engana-se quem acha que ele se resume ao público heterossexual. “O mundo gay ainda é regido pela heteronormatividade. Você pode ser gay, mas tem que ser macho, ter barba e voz grossa. Isso ocorre porque muitos se sentem obrigados a se masculinizarem para se misturar dentro da sociedade, o que afeta negativamente os afeminados. E quando você se torna drag queen, rema contra isso. Já sofri muito preconceito por ser drag, mas nada que me faça querer mudar quem sou”, relata Breno.

Vocabulário

Drag queen: a palavra drag é uma abreviação de dressed as a girl – vestido como uma garota, em português.

LGBT: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros.

Balada GLS: festa direcionada ao público LGBT e a pessoas que simpatizam com o movimento.

RuPaul Drag’s Race: reality show americano onde drags competem semanalmente em provas para conquistar o titulo de próxima estrela drag queen americana. Seis de suas oito temporadas estão disponíveis no Netflix.