Elas podem voar

Mesmo sem nenhuma barreira física que impeça mulheres de serem pilotos de avião, elas ainda são minoria. Fugindo à regra, empresas criam políticas de incentivo à participação feminina

Brenda Knutsen e Filipe Cardoso

Comparando com outras profissões que também exigem muito tempo de trabalho, esforço e estudo da profissão, as mulheres ocupam os piores lugares nas estatísticas na profissão de piloto. Aline Borguetti Torres, pilota da Azul Linhas Aéreas, iniciou sua carreira em um cargo predominantemente feminino, o de comissária de bordo. Porém desde o início sabia que sua vocação estava na cabine do avião. Durante suas viagens ela sempre esteve buscando informações e estudando para confirmar a escolha que seria uma grande mudança de vida. “Eu nunca me importei com o fato de ser uma profissão masculina, estava ciente de que sofreria preconceito por estar ‘invadindo’ uma profissão dominada por homens “, frisou.

A pilota conta que houve momentos desconfortáveis que a fizeram repensar estar na categoria. Sendo as mulheres minoria na aviação brasileira, frequentemente Aline ouve comentários machistas dos colegas de trabalho, dos próprios passageiros e para sua surpresa, de outras mulheres. “Hoje em dia, sempre pego aqueles olhares desconfiados dos clientes que embarcam e escuto piadinhas do tipo: ‘você não deveria estar pilotando fogão?’. Mas relevo e ainda brinco com os passageiros: ‘Senhor(a), fique tranquilo que eu não preciso fazer baliza com o avião”.

A Força Aérea Brasileira conta com um efetivo de 40 pilotos mulheres em atividade e outras 21 em fase de formação. A primeira turma de oficiais aviadoras da Força Aérea Brasileira (FAB) formou-se em 2006. A Capitão Débora Ferreira Monnerat pilota o helicóptero H-36 Caracal, no Esquadrão Puma sediado no Rio de Janeiro, e realiza missões de busca e salvamento, missões humanitárias, apoio em casos de enchentes, incêndios e todo tipo de calamidades.

Débora conta que não se interessava por nenhuma faculdade e, pesquisando, descobriu que queria ser militar, encontrando na aeronáutica o seu maior interesse, especificamente a carreira de piloto. Para sua surpresa, descobriu que mulheres não podiam ser pilotos quando ingressou em 2004. A restrição não impediu Débora de se inscrever para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), que não aceitava mulheres. Porém uma semana antes da prova, a FAB mudou sua política interna e abriu vagas para mulheres na Academia da Força Aérea.

Vocação e persistência seriam palavras-chave para a capitã, que passou por um intenso processo de formação, incluindo fortes provas físicas. As mulheres têm a mesma rotina que os homens na Academia da Força Aérea, sem qualquer distinção. “Na minha turma se formaram apenas duas mulheres, mas a procura vem aumentando. A Força Aérea tem aviadoras desde 2003 e a tendência é termos cada vez mais mulheres na profissão”, assegura Débora.

O escasso número de pilotas não é somente aqui, mas no mundo todo. De acordo com a Sociedade Internacional de Mulheres Pilotas da Aviação Comercial (ISWAP) todas as companhias aéreas americanas, além de algumas canadenses, francesas e indianas possuem poucas pilotas. A United Airlines, uma das maiores do mundo, possui um quadro de 12 mil pilotos, dos quais somente 700 são mulheres, segundo dados da própria empresa.

Mas uma delas se destaca, a pequena companhia aérea canadense Porter Airlines. Sediada em Toronto, tem em seu efetivo uma das mais altas taxas de pilotos mulheres; atualmente dos 272 pilotos da empresa 36 são mulheres, ou seja, ou seja, 13% do efetivo. O CEO da companhia, Robert Deluce começou uma iniciativa para alcançar a equidade de gênero na cabine de voo. Ele espera conseguir balancear as estatísticas através pela base de recrutamento e incentivo a jovens mulheres par considerarem carreiras na aviação, disse em nota.

Foto: Acervo FAB

Conteúdo do jornal na íntegra em: Jornal Artefato Março 2016