Amor, me banca?

Longe das relações tradicionais, jovens encontram na internet a oportunidade de conhecer homens maduros e endinheirados dispostos a gastar o que for preciso para mantê-las

Hariane Bittencourt

Bolsas de marca, viagens, intercâmbios e jantares nos mais conceituados restaurantes. Estes são alguns dos mimos adquiridos pelas chamadas sugar babies — mulheres jovens dispostas a serem bancadas por homens ricos e mais velhos —, os sugar daddies. Os conceitos, que podem parecer novos, foram difundidos por um site brasileiro que promove relacionamentos amorosos nada convencionais: o Meu Patrocínio. Lançada em novembro de 2015, a plataforma atrai homens e mulheres de todo o país, que querem um romance diferenciado, baseado na qualidade dos benefícios financeiros.

Um ranking divulgado pelo próprio site revela: Brasília é a sétima capital com mais usuários. Sede do poder político brasileiro e lugar escolhido para acolher empresas de renome, a capital federal tem motivos de sobra para ocupar uma posição de destaque quando o assunto é relacionamento com benefícios. Não por acaso, de acordo com pesquisa divulgada pelo Meu Patrocínio, a renda média dos sugar daddies premium chega a R$ 54 mil. A média de idade das sugar babies está em torno dos 26 anos, enquanto eles têm uma média de 42 anos. Em Brasília, a maior parte das usuárias é universitária e está na Universidade de Brasília (UnB): são 63 babies. Logo em seguida está a Universidade Católica de Brasília (UCB), com 53.

A criadora do site, Jennifer Lobo, trouxe a ideia de Nova Iorque e apostou que este estilo de relacionamento funcionaria no Brasil. Para ela, a ideia central é possibilitar relações transparentes, especialmente quando a questão envolve finanças. “No Meu Patrocínio, homens e mulheres podem conversar sobre estes assuntos e alinhar as expectativas, aumentando as chances de a relação dar certo”, considera.

Negando a polêmica que existe em torno do site, que costuma ser visto como um canal promotor da prostituição de luxo, Jennifer garante que os termos da plataforma proíbem isso. “Prostituição é uma transação entre sexo e dinheiro, não existe relacionamento e não há afinidade entre o homem e a mulher. É um trabalho. No Meu Patrocínio, os casais formam relacionamentos com expectativas e afinidades”, argumenta.

Experiência

Aos 45 anos, o executivo Roberto, que preferiu não revelar o sobrenome, conheceu o site por um amigo e se cadastrou em janeiro deste ano. O morador do Lago Sul está em processo de divórcio e revela, sem grandes rodeios: tem renda mensal de R$ 39 mil. Segundo ele, o grande atrativo da plataforma é o fato de permitir relacionamentos afetivos honestos. Disposto a arcar com os desejos destas mulheres, ele revela o que o levou a se cadastrar. “Eu gosto de bancar uma moça mais jovem. Este tipo de relação me rejuvenesce”, afirma.

Discreto, ele garante que desde fevereiro sai com apenas uma sugar baby. Ele elegeu como namorada uma brasiliense de 24 anos, estudante de administração. “Jantamos em muitos lugares e costumamos viajar para a fazenda da minha família. Temos encontros normais, como os que acontecem com qualquer casal que se gosta”, defende. Roberto acredita que o site permite a conquista e viabiliza relações que em nada se parecem com qualquer tipo de serviço de acompanhantes. Ele explica que os mimos são uma forma de agradar às jovens, assumidamente ambiciosas. No caso dele, as despesas com a amada beiram os R$ 4 mil por mês. “Pago por todas as atividades que fazemos juntos, custeio faculdade, academia e dou presentes a ela”, diz.

Opinião muito parecida com a de Roberto é a de Laura Pessoa, 26 anos, estudante de Publicidade e Propaganda e usuária do site. Depois de receber uma sugestão no Facebook, ela resolveu buscar mais informações sobre o Meu Patrocínio e se interessou pela proposta. “Achei a ideia mega interessante, uma vez que já vivi relacionamentos onde a questão financeira era o que mais afetava”, comenta. Laura acredita que as vantagens de ser uma sugar baby são muitas. “Vivo um relacionamento sincero, em que posso expor tudo o que penso e quero. Meu daddy é muito generoso e me faz feliz”, orgulha-se. Perguntada sobre as desvantagens deste tipo de relação, ela não hesita: o grande problema é a falta de tempo. “Ele (daddy) é empresário e viaja muito, então não conseguimos estar juntos todos os dias”, lamenta.

Atualmente, a estudante se relaciona com um homem divorciado de 42 anos e fala abertamente sobre os presentes que costuma ganhar. Viagem com tudo pago para Trancoso, em Porto Seguro, intercâmbio nos Estados Unidos, carteiras de marcas famosas e joias são alguns dos agrados que Laura já ganhou. Apesar do luxo, ela defende que o relacionamento é como qualquer outro. “Ter um sugar daddy é ter um namorado, a diferença é que ele faz tudo o que pode por mim. Eu ainda não sei porque algumas pessoas não entendem que é uma relação normal”, questiona.

Controvérsia

Argumentos à parte, o fato é que o assunto levanta discussões acaloradas. Ainda assim, um passeio pela história da sociedade revela que relações muito parecidas com essas já ocorriam antes. Na Grécia Antiga, as chamadas hetairas eram mulheres letradas, tinham acesso à cultura e recebiam dinheiro dos homens interessados em se relacionar com elas — vale lembrar que essas relações não eram obrigatoriamente sexuais. No Japão, as gueixas faziam a mesma coisa. Elas estudavam, entendiam de arte e literatura, e eram pagas para divertir e instruir os homens.

Nos dois casos, as mulheres comuns costumavam ser oprimidas pela sociedade. Nem sequer eram consideradas cidadãs. Estas ocupações, por assim dizer, eram uma saída para esta situação opressora. A psicóloga e terapeuta sexual Lorena Torres Noronha explica que, tanto as gueixas quanto as hetairas, escolhiam quando e com quem iriam se relacionar e trocavam essas relações por dinheiro. “Apesar de serem julgadas pela sociedade, elas eram socialmente independentes e faziam as próprias escolhas. Se analisarmos a relação destas mulheres com os homens e com a sociedade, vemos o germe do feminismo. Elas não tinham que obedecer, tinham propriedades e eram livres”, explica.

Para ela, o Meu Patrocínio vem ao encontro dessas vivências que já aconteciam no passado. “Tanto antes quanto agora, a relação financeira é explícita. Eu não vejo o site como uma coisa perversa, que explora a mulher de forma negativa. Vai depender da relação que ela estabelece com o homem”, justifica.

Sexualmente dizendo, a especialista pontua que a diferença de idades leva a um encontro fisiológico. “Uma mulher na casa dos 20 anos tem a libido mais baixa, na comparação com os homens que, aos 50 anos, passam por uma diminuição significativa desta libido. Ou seja, há um encontro. O homem vai se sentir gratificado com uma mulher mais nova porque ela tem uma exigência sexual menor. Para ele, vai ser mais fácil satisfazer uma jovem do que uma mulher mais velha, geralmente bem mais exigente”, destaca.

Mas esse ponto de vista gera controvérsias. Para a psicóloga clínica e sexóloga Isabel Lazzarotti, esse comportamento traduz uma total distorção do que é amor. “São relacionamentos que começam a partir de um jogo de interesses. Parece que o amor foi corrompido, que virou uma coisa comercial”, considera. Ainda de acordo com Lazzarotti, algumas dessas jovens podem ter alguma questão do passado mal resolvida. “Elas (sugar babies) podem ter passado por algum problema com homens, até mesmo com os pais, em que o dinheiro foi um fator determinante. Então, esse tipo de relação com parceiros mais velhos e ricos se torna uma maneira de satisfação pessoal”, pontua.

Isabel acredita que esse tipo de relação pode dar a essas mulheres uma sensação de poder, coisa que muitas vezes elas não acreditam ter a chance de conquistar sozinhas. “Poder e dinheiro sempre estiveram relacionados e isso chega a gerar um fetiche, uma vontade de estar com homens que ocupam cargos de destaque”, completa.

Ao final das contas, só se tem certeza de uma coisa: nessa história não existem vilões ou mocinhos. Quem se cadastra no Meu Patrocínio já sabe o que esperar e tem plena convicção do que procura.

gráfico Mulheres

 

Conteúdo do jornal na íntegra em: Jornal Artefato Março 2016