Uma fuga, uma sentença

Marianne Paim

O relógio tocava todos os dias às seis da manhã para que Adebayo começasse a sua rotina: passar o café, acordar o primo para o trabalho e se aprontar para mais um dia de função.  Antes de colocar o café na xícara, o senhor de veias saltadas e de expressão forte se deixa levar pela música do rádio. Para ele, entender e falar português ainda é seu maior desafio. Por isso, o jornal impresso do mês passado ainda tinha o lugar central da mesa cheia de remendos.

Adebayo é um nome nigeriano que significa “ele foi feliz” e, ao som de Caetano Veloso, o sentimento era traduzido na letra que ecoava: “Saudade até que é bom, é melhor que caminhar vazio”. Saudade costuma ser aquela palavra-sentimento que só existe em nosso vocabulário. Mas até para quem é de fora, a saudade passa a existir com as memórias.

A mochila já estava pronta e seu primo já havia saído, quando o quase cantor de bossa nova se preparava para o trabalho. Na mão tinha sacos de lixo já empacotados, na mochila havia água e bastante pão com manteiga. O dia prometia ser longo, o sol já estava começando a dar sinais de uma quase erupção. A única preocupação que pairava pelo ar sob a cabeça cinzenta era a meta que deveria ser alcançada hoje: vender todos os sacos que ainda tinha em seu estoque. Com o dinheiro em mãos, ele pretendia comprar e enviar um carrinho de controle remoto para o filho.

Como toda meta, há tropeços pelo caminho até que seu objetivo final seja atingido. O calor já estava intenso, o ônibus cheio e cada um em seu respectivo mundo das ideias, viagens ou aflições. Universo paralelo que foi brutalmente interrompido pela entrada do velho dos sacos de lixo.  Os olhares foram os mais diversos: de pena à curiosidade pelo português confuso. A senhora de bolsa vermelha discretamente escondeu seus pertences, a mãe colocou a criança no colo e até o estudante pareceu rir do jingle inédito – música que representa o produto, “três pacoti de saco de lixo pó 10 real”. A plateia parecia não estar satisfeita, mas toda desconfiada com o dono do picadeiro.

Seria pelo português meia boca? Pela falta de cuidado e por alguns buracos na roupa feitos por estilistas de alto nível das ruas? Ao chegar à rodoviária, a plateia voltou a surgir. Tímidos, discretos, os olhares eram os mesmos do ônibus. De bom humor, Adebayo trabalhava com a ideia de que estava sendo escoltado porque era importante, com direito a paparazzi. Na pausa para o lanche, sentou junto ao chão – que mais parecia um sofá, depois de horas em pé – e entre pães com manteiga, refrigerante quente e olhares, um tropeço. O silêncio pairou por alguns segundos e logo depois vieram as respostas para tantas perguntas.

O preto que trouxe doença, o sujo que o governo deixou entrar, o imigrante que veio para roubar emprego. Uma plateia que a cada palavra dita era como tomates prontos para serem lançados. Para piorar, tomates podres. A cada sentença de frase, uma sentença de morte para nossas origens. Brasileiros, o exemplo mais real do que se pode chamar de shake de culturas – todos querem aproveitar o carnaval, as paisagens exóticas e a culinária diversificada. Um verdadeiro shake que não é só para inglês ver, mas para o mundo admirar.

Uma batida que não se mistura para os que fogem para cá e que tentam se adaptar a uma realidade aparentemente fácil.                 Migramos sempre por motivos diferentes. Alguns querem uma vida melhor, outros viajam com a certeza de que vão voltar e tem aqueles que fogem também por amor. Poderia ser até uma cena de filme, um romance clichê. Mas as pessoas abandonam o seu lar por não terem alternativas, proteção ou qualquer tipo de amparo. É um verdadeiro filme de guerra, uma bomba-relógio racial.

Ao final do dia, vários Adebayos tentam buscar uma saída para uma vida de conflitos. Mesmo com os sacos de lixos totalmente vendidos, eles queriam mesmo é ter a família por perto. Eles se “contentam” em enviar presentes. É preciso fazer a lição de casa para dar exemplo, acolher culturas e dar visibilidade para a ação. Enquanto isso, para os africanos que cá estão, ainda ecoa a profecia de Caetano: “Tenho um sonho em minhas mãos. Amanhã será um novo dia, certamente eu vou ser mais feliz”.