Tem que se adaptar

Imigrantes enfrentam dificuldades e têm novas experiências no DF. Contato entre os diferentes povos gera diversidade cultural, diz especialista

Gabriella Bertoni e Rodrigo Mendonça

Segundo o Ministério do Turismo, mais de 6 milhões de pessoas visitaram as terras brasileiras em 2014. E alguns desses escolheram a capital federal. Apesar do fluxo de turistas, tem gente que vem pra ficar, e não apenas para visitar. É o caso do Farid Jabrane, professor, 39 anos. O Marroquino, nascido em Marrakesh, vive em Brasília há 13 anos. Quando jovem, trabalhava para o governo do Marrocos como professor de línguas. Formado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB), hoje dá aula de inglês para brasileiros.

Farid decidiu vir para o Brasil pois estava em busca de experiências diferentes. Foi primeiro para São Paulo, em 2012, e um mês depois desembarcou em Brasília, onde vive até hoje. Oriundo da cultura islâmica que, segundo ele, sofre com pressão da tradição religiosa, não demorou a sentir uma grande mudança de realidade. “O brasileiro usufrui de muita liberdade. Aqui as pessoas, de certo modo, podem decidir, pensar diferentemente, e as relações de amizade são mais valorizadas. Lá há muita dominação, é muito diferente”, compara.

Seu maior problema foi com a língua. De mente aberta e pronto para novas aventuras, Farid se adaptou bem ao modo brasileiro de viver. Mas na hora de fazer seu mestrado na USP, descobriu que a dissertação tinha que ser feita em português, língua que não falava na época. Para ele, “a imigração se intensificou mais. O Marrocos fica em uma rota migratória, então tem muito africano que vem dos países subsaarianos que foram roubados e colonizados pelas grandes potências. Então está havendo o fluxo inverso, essas pessoas que sofreram com a colonização estão procurando uma vida melhor na terra do colonizador”, conta.

Por amor

O francês Maël Boutin, artista plástico, 29 anos, se apaixonou por uma brasileira e resolveu vir morar com ela em Brasília em 2014. Ele teve muitas dificuldades com o idioma assim que chegou no Brasil, além de, até hoje, não ter conseguido emprego. Mas o carisma do povo chamou sua atenção. “Eu acho os brasileiros mais gentis, afetuosos, agradáveis e de mente aberta”, comenta.

Maël acha terrível a crise migratória: “Eu vejo que a Europa não pode mais assumir os valores dela. A França, o país dos diretos humanos, dos ‘filósofos iluministas’ não é mais capaz de afirmar essa posição cultural e ética frente ao mundo e isso me deixa muito triste e revoltado”.

Para ele, a França deveria ser mais responsável pelos valores humanos, já que seu slogan é liberdade, igualdade e fraternidade. “E na verdade nenhum dos refugiados Sírios querem ir para França porque a situação política lá é ruim com o crescimento do partido de extrema direita e a cada dia fica pior para os estrangeiros”, relata.

Confira a entrevista abaixo:

A professora Sofia Zanforlin, doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora da área de Migração e Comunicação Intercultural, afirma que a dificuldade de adaptação com o nosso idioma é o principal problema enfrentado por quem decide vir construir, ou reconstruir uma vida no Brasil. Ela ressalta um fator que ajuda na inserção cultural dos migrantes: o uso do smartphone, que eles usam tanto para o lazer, com jogos, filmes e música, como para o aprendizado, quando assistem ao noticiário local e até fazem cursos de português pela internet.

Para ela, a questão cultural é fundamental para se construir um ambiente de diversidade no Brasil, mas esse tema é pouco contemplado nas discussões políticas do país. “Apesar de toda a boa vontade do governo com as questões migratórias, se não fosse a sociedade civil a dar apoio aos imigrantes que aqui chegam, eles estariam perdidos”, critica. A pesquisadora defende que o processo de inclusão social e inserção cultural dos estrangeiros na sociedade brasileira tem aspectos positivos tanto para eles quanto para os brasileiros. “As culturas deles passam a fazer parte do nosso cotidiano porque agora eles estão aqui. Tudo é uma troca, um encontro, uma construção de diversidade”, conclui.

Foto de capa: Rovena Rosa/Agência Brasil