Serviço de quarto

Os negócios são o principal atrativo de quem vêm à Brasília. Além de ótima hospedagem, os hotéis cinco estrelas oferecem algo a mais

Diogo Neves, João Pedro Carvalho e Thiago Siqueira

Passando rapidamente pelo Setor Hoteleiro Sul, no Plano Piloto, é possível ver o movimento pacato que cerca os hotéis da capital. Atendentes esperam nas portarias, pedestres entram e saem, e os taxistas esperam que os hóspedes procurem seus serviços. Ao falar com um dos motoristas mais experientes, ele logo assume “o taxista de Brasília trabalha para o turista, principalmente o que vem para trabalhar”. Ele, o turista de negócios, é quem movimenta esse setor na Capital Federal.

Assim como o serviço de taxi, os empresários e servidores públicos que visitam a cidade também afetam economicamente os bares, restaurantes e trazem para o DF um capital de outros estados. O dinheiro trazido por eles é empregado em um mercado menos visado pelas associações e órgãos que tratam do turismo: O sexo.

No ano passado, quando houve um aumento expressivo de turistas em razão da Copa do Mundo de Futebol, foram registradas 259,1 mil entradas em hotéis da capital, de acordo com o relatório do Observatório do Turismo do Distrito Federal (Setur/2015). Já este ano, entre janeiro e junho, mais de 63,7 mil pessoas se hospedaram em hotéis do Plano Piloto, uma projeção de decréscimo de quase 50%.

O relatório ainda traça o perfil do turista que vem à capital. Entre os que se hospedam em hotéis, 96% são brasileiros, 85% chegam de avião, 71% são homens e 55% estão sozinhos. O que mais motiva esses turistas são os negócios. Dos que desembarcam em Brasília, 67% vêm a trabalho.

Gilmar*, atendente recepcionista de um grande hotel no Setor Hoteleiro Sul, destaca que existe a procura do turista por garotas de programa, mas que discrição é a palavra de ordem. “Os hóspedes são pessoas públicas, que vêm a trabalho, e não podem ter sua imagem comprometida. Por isso, eles normalmente procuram garotas de luxo, pela internet, e raramente são vistos com elas”, explica. Ainda segundo ele, existem exceções, como as reuniões de prefeitos, onde os chefes municipais gostam de ser vistos com acompanhantes de luxo. “Parece uma forma de ostentação”, comenta o recepcionista.

Atendimento

Diferentemente das prostitutas de rua, que aguardam seus clientes em locais como o Conic e Setor Comercial Sul, as acompanhantes de luxo alugam Kits em bairros nobres como o Sudoeste, a Asa Sul ou Norte e lá oferecem seus serviços. Quando solicitadas por meio de seus anúncios em sites especializados, essas garotas seguem para os hotéis e adentram o local de forma discreta, pagam uma taxa de visita, preservando o nome e imagem dos clientes, assim como o do estabelecimento.

O jornalista e diretor dramaturgo, Sérgio Maggio, que elaborou uma pesquisa sobre a parceria dos hotéis com as profissionais do sexo em seu trabalho de especialização em Gestão de Marketing em Turismo, na Universidade de Brasília (UNB). “O que eu comprovei na pesquisa é que boa parte da rede hoteleira, em medida diferente, aderiu ao esquema do programa. A cobrança de uma taxa para as garotas subirem ao quarto é um artifício legal para driblar o risco de ser associado ao lucro direto. ”, afirma.

Para Sérgio, apesar da taxa paga pelas prostitutas ser legal, a consciência do objetivo do programa põe os estabelecimentos diretamente ligado à malha da prostituição. “O hotel tem seu padrão de qualidade e há um preço ao ser associado ao esquema de prostituição. Acho que esse é o maior conflito em coibir ou não a prática. Brasília tem suas peculiaridades, como não ter motéis no centro e acaba sendo conveniente para o cliente ir para o quarto consumar o programa. Isso é uma demanda que os hotéis precisam enfrentar e decidir como lhe dar. ”, conclui.

Elas estão na lista?

Os turistas que, em especial estão a trabalho ou participando de eventos, nem sempre conseguem fácil o telefone de alguém. Nos hotéis, o questionamento acerca do contato de alguma moça costuma ter resposta negativa. Mas nos cafés da cidade, é possível descobrir. É o que afirma A Pedro*, que foi sócio em um cibercafé no Brasília Shopping: “É muito comum que as pessoas fossem olhar coisas de concurso, e várias vezes pegar telefones de mulheres e homens. Era quase um ritual, em especial nas quintas e sextas-feiras. O pessoal chegava, sentava 15 minutos, pedia papel e caneta, e começavam a anotar. ”, conta

Histórias de como encontrar profissionais do sexo são muito comuns a boca miúda, e se transformam quase em mitos da cidade, assim como em outros lugares do Brasil. Mas a procura por mulheres na internet se tornou algo muito comum. Em especial com os diversos sites especializados, como as “Acompanhantes Top”, do topdebrasília.com, que arrola todas as informações físicas como cor de pele, medidas e fotos sensuais. O mercado do sexo não é dominado exclusivamente por mulheres, é possível encontrar anúncios de travestis, transexuais e homens dispostos a fazerem o mesmo “serviço de quarto”.

 *Nome fictício

Foto de capa: Tissyane Scott