Sepultando vidas

Apesar de ser um trabalho escasso, coveiros falam como se sentem na profissão, e relatam acontecimentos em suas carreiras

Gustavo Figueredo

Diariamente, o coveiro chega no seu trabalho, fica 8 horas por dia preparando covas lite para um enterro, esse é o seu cotidiano. A profissão é um pouco “estranha, diferente”, mas apesar da adversidade, é uma profissão como outra qualquer. Inclusive, existe celebridade que trabalhou no ramo. É o caso do cantor (Rod Stewart), que em sua adolescência trabalhou no ofício antes de tornar-se um cantor consagrado.

Com alguns acontecimentos durante a sua carreira, José Neto, fala da época que trabalhava no cemitério em Minas. Presenciou um grupo de amigos tocando violão no local, já viu um bezerro, momentos inusitados, mas que ao lembrar dessas situações, começa a recordar de algumas histórias ”Estava trabalhando e me deparei com um casal em cenas íntimas. Já vi Pedido de casamento. Pessoa que dormia em covas, enfim, já vi de coisas que até deus dúvida” risos

O enterrador Adelson Raimundo, de 30 anos fala da sensação de trabalhar num local que muitas pessoas recusariam, mas apesar de tudo, leva a vida com dignidade e relata o momento que aceitou a trabalhar na profissão “Consegui a oportunidade de trabalhar após a indicação de um cunhado. “No início foi estranho, porque ninguém gosta de cemitério, eu não gosto de ver o sofrimento das pessoas, principalmente na hora do sepultamento, um dos momentos mais dolorosos para os familiares, mas é daqui que tiro o meu sustento”, ressaltou.

Aos 39 anos, João Carvalho que o diga. Apesar de ter iniciado no ramo aos 15 anos, trabalha no posto há muitos anos, desde quando seu pai trabalhava no local. Apesar de acostumado com a morte, em alguns funerais ele não deixa de se emocionar ” No início tive um pouco de medo. Mas logo me acostumei. Fico muito tocado quando vou sepultar crianças, acho um momento doloroso, fico emocionado. ”, disse

Em 2014, mais de 200 mil pessoas foram mortas no Brasil. Dados que exemplificam a grande demanda de trabalho do profissional, que apesar de ser pago justamente para enterrar pessoas, não gostam nenhum pouco de participar de um dos momentos mais triste na vida de uma família. Porém, já presenciaram situações que poderíamos chamar de nenhum pouco convencional.

Problemas com a segurança

Muitos coveiros ainda ficam preocupados com a segurança em seu local de trabalho. Os funcionários reclamam que muitos salteadores invadem o espaço para fazer assaltos e levar pertences dos coveiros e pessoas que vistam túmulos de parentes. Essa é uma reclamação constante. João Carvalho comenta uma situação de perigo que viveu no trabalho há uns 10 anos, “Fiz uma cova bem funda porque antigamente a cova era bem maior.  Então dois assaltantes abordaram a mim e a um parceiro, levaram nossas roupas, dinheiro, quase tudo, só nos deixaram com cueca, em plena tarde, bem na hora do enterro naquele local. Fomos socorridos pelos parentes do falecido, bem na hora do sepultamento”, concluiu.

Apesar de ser uma profissão desvalorizada e até em alguns momentos perigoso, João Carvalho, diz que tem orgulho de trabalhar no ramo, e apesar de todas os problemas e dificuldade com  o trabalho, não pretende aposentar tão cedo ”Só paro de trabalhar quando me sepultarem” finalizou.

Abaixo, alguns vídeos interessantes que circulam na web sobre a profissão de coveiro:

Foto de capa: Tânia Rêgo/Agência Brasil