O nu masculino no século 21

Preconceito pode reprimir homens e gerar crises de identidade com consequências dolorosas

Lorena Carolino

A sociedade passou por inúmeras transformações ao longo da história, mas desde a antiguidade a nudez aparece como tema nas artes. Na antiguidade, o corpo humano era admirado por suas formas, traços, músculos e pelos contornos que tornavam a expressão artística um símbolo de beleza natural. Porém, em pleno século 21 o nu masculino é um tabu pouco compreendido pela sociedade.

A nudez masculina já foi retratada em pinturas, esculturas, fotografias e exposições em grandes países, como Paris e Viena. A arte não é algo recente, seus primeiros registros remetem aos tempos antigos em Roma e Grécia, com estátuas e obras culturais, porém, a polêmica que permeia o assunto é acirrada. Vários conceitos contribuem para a formação da opinião social, como dogmas religiosos e costumes morais, apesar de a nudez ser alvo de curiosidade.

Segundo o historiador Reiner Godoy, a comunidade brasileira se revela preconceituosa e ao mesmo tempo contraditória, sobretudo quando se trata de propaganda e mídia. “Criou-se um paradigma de que a bebida está atrelada às mulheres seminuas, ao passo que a nudez masculina quase sempre apela à homossexualidade, o que transmite a mensagem de que apenas o público homossexual consome esse tipo de nudez”, afirma.

Porém, nos últimos anos é possível observar o crescimento do nu artístico nos veículos de comunicação e uma mudança no comportamento masculino. “Há uma transição em curso, os passos históricos para que isso acontecesse remontam os movimentos libertários da década de 60, ao feminismo, e até mesmo aos clubes para mulheres comuns na década de 90”, assegura Reiner.

O nu masculino obteve êxito em pinturas e desenhos, mas foi censurado na fotografia e no cinema por vários anos. De acordo com a cineasta Nathália Machado, a dificuldade está no realismo da cena. “O nu vem trazer a credibilidade para a história e é diferente do palco ou do teatro, pois na tela do cinema, nem sempre precisa estar explícito o órgão masculino, pois o enquadramento, a luz, a posição do ator, o cenário e toda a composição para a cena pode contribuir para a construção do filme com ar de suspense, sem precisar retratar o real de forma explícita”, afirma.

O nu artístico vem ganhando espaço nas passarelas do mundo, nos estúdios de fotografia e nas telas de pinturas, como uma forma de arte. O modelo Thiago Albuquerque, desfila nas passarelas brasileiras há 12 anos e revela o preconceito que se esconde atrás dos aplausos. “Estamos acostumados a entender a nudez masculina como algo engraçado, e não como algo natural e belo. Lembro-me de um traje que usei com uma abertura frontal e recordo-me de ouvir crises de riso e zombarias das pessoas da plateia”, revela.

Segundo o modelo, as pessoas podem até aceitar o órgão enrijecido, mas jamais aceitarão um pênis flácido e de forma natural. “Eu não tenho medo da exposição e acho que é necessário quebrarmos esse preconceito, mas as pessoas dificilmente aceitarão um órgão pouco atraente sem marcas de erotismo, e infelizmente essa é a marca que a sociedade moderna rotulou de virilidade”, conclui.

De acordo com o psicólogo Diogo Lopes, uma das consequências que o preconceito traz à vida do homem é o desconforto com o seu próprio corpo. “Estamos falando de algo muito sério, pois diante de tanta repressão, o homem pode crescer se sentindo estranho e feio diante dos padrões impostos pela sociedade contemporânea, e isso pode afetar suas relações futuras com amigos, namoradas, esposas e com ele próprio, gerando crises de identidade”, assegura.

Diogo afirma que os padrões estéticos são altamente valorizados atualmente, e vê o cenário com preocupação. “Temos que aprender a ver a beleza do natural e precisamos investir em educação nessa área para quebrar o tabu que ainda existe, com palestras educativas, filmes, educação sexual nas escolas, entre outros pontos que podem ser abordados”, aconselha.

Para a especialista em educação sexual Denise Batista, 37 anos, as pessoas cresceram vendo mulheres com roupas curtas e justas ao corpo, enquanto os homens usam blusas e calças largas. Esse detalhe revela o preconceito existente na sociedade. “Vemos o discurso de que as coisas estão mudando e as pessoas estão ficando com a mente mais aberta, mas isso não é verdade. Quando o indivíduo se depara com um pênis na televisão, aquilo é tratado como uma aberração e não como algo natural”, explica.

A nudez masculina está presente desde o período do Renascimento e pode ser usada para diversas representações, o que vai diferenciar é a proposta do autor. A cultura brasileira admite a nudez feminina e aprecia as suas formas, enquanto a exposição masculina ainda é objeto de discussão e adaptação.

Ilustração da capa: Álef Calado