Música que transforma

Alunos com deficiência superam limitações e quebram barreiras educacionais. Talentos se aperfeiçoam com habilidades artísticas

Adrienne Ribeiro e Daniela Andrade

Clodomir de Morais, 58 anos, perdeu a visão nos dois olhos em um acidente de carro quando tinha 33 anos. Mesmo sem poder enxergar, o seu amor pela música falou mais alto e o fato de não poder ver não foi um empecilho para que aos 56 anos ele entrasse para as aulas de flauta transversal na Escola de Música de Brasília (EMB).

Para ele, as pessoas acham que porque eles têm uma deficiência não são competentes o suficiente para aprender a tocar tal instrumento. “É uma luta constante das pessoas com deficiência visual aprender a musicografia em braile e também fazer a sociedade entender que somos pessoas limitadas, mas não incapazes”, descreve Clodomir.

Segundo Celso Tavares, professor de braile e musicografia braile da EMB, o processo de inclusão começou na instituição na década de 1980. Atualmente com 2.493 alunos, apenas 30 deles são estudantes com deficiência intelectual, física, baixa visão, síndrome de down, paralisia cerebral ou autismo. Para ele, o processo para entrar na escola, com ou sem deficiência, não é tão fácil. O aluno precisa ser escolhido ou passar por testes, para só depois efetuar a inscrição. Segundo ele, todos os professores são capacitados para ensinar os estudantes especiais.

Para a professora da Universidade Católica de Brasília, Valícia Ferreira Gomes, especialista em educação inclusiva e em Língua Brasileira de Sinais (Libras), assim como nas escolas regulares, as entidades de arte e música devem permitir o ingresso e o desenvolvimento de estudantes com deficiência, oferecendo-lhes adaptações permanentes para a sua entrada, acesso e integração ao ensino nas diferentes modalidades.

A Escola de Música de Brasília é uma das pioneiras de ensino de música na capital. Surgiu a partir de dois movimentos de grupos musicais motivados em propagar a educação musical na cidade, em meados de 1960. Celso conta que na EMB, os estudantes com algum tipo de deficiência passam primeiro por um tipo de capacitação individual, para avaliar se têm condições de tocar o instrumento e fazer as aulas junto com os outros alunos.

“Quando é um estudante com necessidades, a gente pega alguns momentos antes de dar início às aulas para prepará-lo, e só então depois colocá-lo no curso junto com os outros aprendizes. Se o aluno tem deficiência visual, é necessário trabalhar a música em braile primeiro”, afirma Celso.

João Vicente, 40 anos, tem baixa visão e também é um dos alunos especiais da escola. Durante os oito anos que está na instituição, já fez curso de gaita acromática e atualmente faz violão popular. Ele relata que no início não tinha condições de fazer o curso, mas o interesse e a paixão pela música é o que o motiva até hoje. Para ele, a música trouxe muitas melhorias: “A convivência, o intelectual, a disciplina em casa mudou bastante. Aqui a gente aprende muito, além de contribuir na nossa educação e no nosso entrosamento com as outras pessoas”.

Abaixo, vídeo do documentário “Noite Sem Fim” – sobre alunos deficientes visuais da Escola de Música de Brasília

Uma outra instituição tradicional é o Conservatório de Arte e Música de Brasília (CMAB), conhecido pela sua qualidade na propagação da aprendizagem em diversos instrumentos e por ser uma das escolas que possui o processo de inclusão.

O atual dirigente do CMAB, Roberto Banks de Camargo, professor e pianista, afirma que a educação inclusiva está presente na escola antes mesmo dele assumir a direção, em 2006. Desde então, a instituição vem renovando os métodos de ensino, tentando atender os aprendizes com deficiência, e prestando serviço de qualidade. “Um dos métodos que a entidade aderiu foi o de capacitar um professor para atender a demanda dos alunos com deficiência, e essa estratégia tem rendido bons frutos à instituição”, relatou.

A arte de instruir requer cuidado, carinho, atenção e amor, itens que nem sempre estão presentes no ensino, mas que são fundamentais para o aluno. Para a professora Wansley Prado, especialista em neuropedagogia e psicanálise infantil e profissional em Educação Musical Infantil no CMAB, ensinar para pessoas com deficiência é gratificante, pois é um aprendizado constante.

Ela explica que, para cada estudante especial que dá aula, é aplicado um método diferente, mas que primeiro é preciso conhecer o aluno e suas peculiaridades, pois cada um vem de uma família e de uma cultura diferente. “Não adianta eu ser a melhor instrumentista do mundo e não saber quem é o meu aluno, porque ele é uma outra pessoa, um outro mundo. Primeiro eu tenho que conhecê-lo, para depois começar a ensinar. Tudo é uma questão de amor”, enfatiza Wansley.

Um dos seus alunos é Rony Pelegrini, 12 anos, um garotinho autista, que está no CMAB desde pequeno. Rony conta que antes não conseguia fazer os comandos corretamente. Hoje, depois de muito aperfeiçoamento, ele adora apresentar nos eventos do Conservatório e mostrar as suas novas habilidades.

Para a mãe de Rony, Vera Pelegrini, professora de ciências, quando o filho começou a fazer as aulas, ele apresentava dificuldade de concentração. “Como a maioria dos autistas possuem um ritmo nato para a musicalidade, Rony tinha a mania de ficar testando os sons nas coisas. A partir do teclado foi possível trabalhar os diferentes sons com ele, e cessar a sua dificuldade por meio do instrumento”, descreve a mãe.

Professor norte-americano dá aulas e incentiva crianças especiais.

Foto de capa: Pedro Ventura/ Agência Brasília