Melanina não colore as telas

Mulheres negras têm espaço reduzido e estereotipado nas salas de cinema

Nathalia Melo e Mariane Cunha

Ir ao cinema é uma atividade comum para parte dos brasileiros. De romance a filmes de ação e terror, todos os gêneros têm seu público. Ver os grandes galãs e heróis nas telas é uma experiência única. Personagens marcantes de homens brancos, como James Bond e Homem de Ferro são referência. Mas o mesmo não acontece com os negros.

No documentário A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira, de 2000, o cineasta Joel Zito Araújo afirma que os negros só têm a oportunidade assegurada de aparecer nas telas se houver evidências da necessidade deles nos papeis.

De acordo com o artigo publicado pela BBC When white actors play other races (Quando atores brancos interpretam outras etnias, em tradução livre), a lista de filmes nos quais a situação acontece vai desde comédias românticas até filmes de ação, aventura, fantasias e épicos. O termo que sintetiza a situação é o “whitewashing”, sem tradução para o português.

São personagens que aparecem frequentemente de modo caricato e estereotipado. Negros, indígenas e asiáticos são alvos da situação. Para a professora de Cinema Negro da Universidade de Brasília (UnB) Edileuza Penha, a soberania do homem branco em relação a outras etnias acontece até hoje, pois o cinema é, ainda, considerado um espaço deles. “Fazer cinema é para quem tem dinheiro e historicamente o poder está concentrado na mão dos homens brancos”, sentencia.

Mulheres

Pesquisa divulgada pela revista Superinteressante em 2014 mostra que a proporção média da presença feminina na indústria cinematográfica americana é de cinco homens para cada mulher. Em 2012, dos filmes analisados, as mulheres representaram cerca de 30% dos personagens com fala. Entre as 100 maiores bilheterias, o número de protagonistas femininas é de apenas 11%.

A professora especialista em gênero e raça Isabel Clavelin explica. “No Brasil as pessoas, infelizmente, se acostumaram a conviver com as desigualdades raciais e de gênero”. No livro Alice Doesn’t: feminism, semiotics, cinema (Alice Não: feminismo, semiótica, cinema, em tradução livre) Teresa de Lauretis afirma que a imagem da mulher na mídia impõe idealização: “Pode-se dizer que a construção social da mulher é baseada em critérios preestabelecidos socialmente”.

No que diz respeito às negras, os números de representatividade caem mais. A pesquisa A Cara do Cinema Nacional de 2014 mostrou que, apesar de serem maioria na população feminina do país (51,7%), as negras ocuparam apenas 4,4% do núcleo de elenco de produções brasileiras entre 2002 a 2012, enquanto 80% corresponde a brancos.

A professora Edileuza afirma que a falta de negros e negras nas telas ocorre desde o início do cinema. No Brasil, até hoje, pouca coisa mudou. Ella Shohat e Robert Stam complementam no livro Crítica da imagem eurocêntrica, consideram a participação das mulheres negras a ausência mais notável do cinema brasileiro. Especialmente no que se refere a papeis de protagonistas ou antagonistas, os negros são identificados com dificuldade, explica o livro.

A professora Renata Parreira é negra e acredita que a mulher branca é considerada pela sociedade a beleza ideal, o padrão representado no cinema e televisão. Para ela, a sociedade vê a negra de modo sub-representado e subalterno. “A gente começa a perceber ausência dos corpos negros nos espaços”.

A professora Isabela Clavelin explica que para a igualdade será garantida com enfrentamento às desigualdades. “Com o debate político e reflexões de ideias contrárias à ideologia racista”. Edileuza, professora, acredita que é a mentalidade dos produtores que deve mudar, para representar a sociedade brasileira de fato: “Significa criar um cinema para todos, onde a diversidade esteja pautada desde o roteiro, passando pela escolha de elenco, direção e todos corpo técnico e edição”, finaliza.

Mesmo que apareça pouco nas telas de cinema, a mulher negra é quase sempre representada de forma caricata, segundo João Carlos Rodrigues no livro O Negro Brasileiro e o Cinema, de 2001. A seguir, alguns desses padrões de representação:

Mulata boazuada – Gilberto Freyre, na obra Casa-Grande e Senzala explica o que esse termo significa: a mulata é apenas o seu corpo, um objeto sexualizado, com a presença de uma sensualidade excessiva e de domínio do homem branco. Pode usar de uma sexualidade para atingir objetivos. Situação percebida no longa Xica da Silva (1976) e na protagonista de mesmo nome.

Negra de alma branca – Pode ser exemplificada pela história da personagem Alice no longa Rio 40º (1955). É a negra que recebeu “boa educação” e quer fazer parte da sociedade dominante. Usa roupas e arruma o cabelo para se “embranquecer” e tenta atingir ideais brancos: ser rica e viver em um bairro nobre, por exemplo.

Mãe preta – É um padrão com raízes na sociedade escravocrata brasileira. Negra que trabalhava na casa-grande, cuidava das tarefas domésticas, se dedicava à família branca e estava no meio termo entre ser membro efetivo do núcleo familiar ou simplesmente servas. Pode ser identificada no filme Gonzaga, de pai para filho (2012), bem como na série Sítio do Pica pau Amarelo (1977).

Foto de capa: Marcelo Camargo/ Agência Brasil