Medo de altura

Rebaixar carro e andar de acordo com a lei é possível. Especialista afirma que a segurança depende do órgão fiscalizador competente

Jacqueline Santana

Brasileiro parece gostar de deixar as coisas fora do comum. Alguns donos de carros alteram a altura, a roda, o barulho e até o motor para se satisfazer. Para eles, a velocidade não importa, mas a sensação de andar em um rebaixado é o diferencial.

O auxiliar administrativo Marcos Santos, 29 anos, comprou um carro popular em 2012 e desde a primeira semana já começou a fazer alterações. “Para mim, fica mais bonito dirigir um carro rebaixado e tenho a sensação melhor de estabilidade quando estou dirigindo”, comenta. Ele conta que já gastou em torno de R$ 4 mil para mudar as molas e amortecedores com o intuito de deixá-lo mais baixo.

Para fazer essas mudanças na estrutura do carro, ele precisava estar de acordo com a lei. O artigo 98 do Código Nacional de Trânsito diz que o proprietário ou responsável não pode fazer modificação no carro sem prévia autorização de autoridade competente.

Embora o carro de Marcos esteja a dez centímetros do chão – permitido pela resolução nº 479/2014 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) -, ele ainda não legalizou a situação e por isso já foi parado e multado quatro vezes pela irregularidade. O motorista que dirige com a suspensão modificada está sujeito a multa no valor de R$ 127,69, ganha cinco pontos na carteira de habilitação e tem o documento do carro retido.

O estudante de engenharia mecânica da UnB Carlos Felipe Araújo, 23 anos, tem um carro popular do mesmo modelo de Marcos e também quis rebaixar. A despesa foi em torno de R$ 1,6 mil com os valores das taxas, equipamentos, mãos de obras e declarações. “Como o carro não está no meu nome, precisei ir ao cartório pegar uma declaração e gastei cinco dias úteis para realizar todo o procedimento”, reclama.

Conheça mais sobre a liberação

Como funciona

Em Brasília, primeiro é preciso levar o carro sem alteração ao Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) para ser vistoriado, e então é liberado para fazer a mudança. Após a modificação, é necessário voltar ao Detran para nova avaliação e depois ir ao órgão regulamentador para a realização da inspeção – no DF, a Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) realiza o processo. Se tudo estiver de acordo com as normas, é emitido o laudo de segurança do sistema e o requerente retorna ao Detran com o pedido de emissão do novo documento e aguarda recebê-lo em casa.

O educador físico Diego Oliveira, 30 anos, alterou a suspensão, motor (ele turbinou e fez com que o moto ficasse mais potente) e colocou rodas de aro maior (17 polegadas) de sua perua. Diego, que reside em Brasília, legalizou em Formosa (GO), por achar mais fácil. Como ele fez várias alterações, o processo durou dois meses e custou R$ 3 mil.

O Detran-DF reconhece que um número reduzido consegue regularizar o carro com a suspensão regulável, mas não disponibilizou o número de quantos já conseguiram. “Os Institutos Técnicos Licenciados (ITL), que avaliam a instalação, estão obrigados a seguirem os Regulamentos Técnicos do Inmetro e muitos são reprovados por não estarem com as peças homologadas ou pela maneira que foram instaladas”, esclarece.

Segurança

O mecânico Ranniery Pelizer, garante que se a pessoa escolher peças de qualidade e não rebaixar o carro ao extremo com certeza ela preserva estabilidade extra no veículo – função de absolvição das vibrações e choques das rodas com o solo. Assim conserva-se conforto aos ocupantes do veículo.

Diego afirma que a alteração na suspensão não atrapalha em nada a segurança. “Pelo contrário, sinto meu carro até mais seguro. Tudo depende do motorista e do que ele fará com o carro”, comenta.

O doutor em Estudos em Transportes da Universidade de Brasília Paulo César da Silva, afirma que, em relação à segurança, toda mudança feita no projeto original do carro depende do órgão competente. “Os institutos licenciados pelo Inmetro é que podem realmente verificar e garantir se há segurança em carros alterados”, afirma.

Foto de capa: Marcelo Hide/ Fotos Públicas