Leitura que faz a diferença

Com ajuda de voluntários, cegos encontram nos livros oportunidade para recomeçar

Diogo Neves

Imagine como é viver sem poder ver o mundo, as cores, a beleza do pôr-do-sol ou o rosto de quem está ao seu lado o tempo inteiro. É assim que muitas pessoas, que nasceram ou em algum momento de suas vidas perderam sua capacidade de enxergar, enfrentam o dia a dia. Isso não impede que deficientes visuais vivam normalmente; socializando, lendo e estudando. Nivaldo Alves do Santos (66), perdeu a visão num acidente de trabalho aos 30 anos e teve que se aposentar. Angustiado por passar a depender de outras pessoas, se isolou em casa durante 8 anos. Por insistência de um vizinho, visitou a Biblioteca Braille Dorina Nowill em Taguatinga e se tornou frequentador assíduo. “Lá eu conheci a professora Noeme. Foi ela quem me ensinou tudo. Quando iniciei, três meses depois já estava lendo e digitando em braille”, conta.

Leonilde Maria (47), coordenadora da biblioteca há 10 anos, conta que no início Nivaldo ficava constrangido por achar que estava dando trabalho: “Quando ele vinha não mostrava interesse nenhum, mas com o tempo e a convivência conosco e com outros cegos, ele se mostrou muito esforçado”. Segundo a coordenadora, Nivaldo foi aluno excepcional e por gratidão começou a ministrar o braille. Para Leonilde, o trabalho realizado Biblioteca Braille vai além do simples hábito de ler: “A gente tem muito interesse de incentivar neles a leitura, a escrita, mas também o resgate da auto-estima. Nós conhecemos pessoalmente cada deficiente que aqui frequenta, a história deles. É uma oportunidade de renascer e de ter uma nova experiência dentro da limitação em que ele se encontra. ”, enfatiza.

A biblioteca foi fundada em 1995 por iniciativa da professora Dinorá Couto Cançado. No início atendia cerca de 20 deficientes visuais, com livros em braille doados pela Fundação Dorina Nowill para a Biblioteca Pública Machado de Assis em Taguatinga. Hoje, funcionando em um prédio da Secretaria de Educação e com recursos da mesma, dentro do espaço cultural da cidade, a Biblioteca Braille dispõe de obras da literatura nacional e internacional. “Temos, por exemplo, toda a coleção do Harry Potter, livros do Dan Brown, Machado de Assis, Cecília Meireles. São quase 3 mil títulos, todos em braille.”, conta a coordenadora.

Ledores

Nivaldo Alves dos Santos (66), frequentador da biblioteca, está no terceiro período de psicologia no Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB) e, segundo ele, a participação dos voluntários nesse projeto é de grande importância, pois facilita a conclusão de seus trabalhos acadêmicos. “A leitura deles nos ajuda muito. Eu preciso de um ledor porque não consigo fazer todo o trabalho só com o braille. Os dedos não têm a mesma agilidade dos olhos. As letras são maiores e ocupam mais folhas. Se perde muito tempo. ”, conclui.

Rafaela de Souza Lima (18), estudante do ensino médio, é ledora há um ano. Ela conta que conheceu o projeto de leitura por acaso: “Eu já tinha feito outros trabalhos voluntários, mas voltados para crianças. Minha mãe sempre estuda aqui na Biblioteca Pública de Taguatinga e, quando viu que estavam precisando de alguém para esse tipo de trabalho, ela me indicou”. Rafaela afirma que já cultivava o hábito de ler desde pequena: “Esse projeto veio somar. Eu já lia bastante na escola e também procurava temas que me interessavam. Agora eu posso ajudar pessoas”. Conciliando a leitura para cegos com os estudos, pelo menos uma vez por semana, a voluntária vai à Biblioteca Braille.

O grupo de 15 voluntários é formado, na maioria, por estudantes. Uma das coordenadoras e fundadoras da biblioteca, Noeme Rocha da Silva (55), que também é deficiente visual, explica que para ser voluntário é necessário apenas boa vontade e paciência: “O projeto depende da demanda dos cegos e da aptidão do voluntário que nos procura. Ele pode ler só um texto para o deficiente, um livro ou o material de quem está na faculdade. É importante que o voluntário se mostre interessado em ajudar o cego, pois como a gente costuma dizer, aqui eles são os nossos olhos. ”, afirma.

Como grande parte dos ledores frequentemente estão atarefados com atividades escolares, Noeme Rocha conta que nem sempre os cegos que procuram a biblioteca conseguem ser atendidos. “Hoje, frequentam a nossa biblioteca 90 cegos. Às vezes recebemos 10, 20 por dia, mas têm dias que não recebemos nenhum. E não é sempre que os voluntários podem nos atender. Então, quem quiser e tiver vontade será muito bem-vindo. Não precisa ser uma manhã ou uma tarde inteira, mas é um compromisso para com alguém que necessita. ”, ressalta.

Os livros em braille são fornecidos pela Fundação Dorina Nowill para Cegos, de São Paulo. Em Taguatinga, os deficientes visuais são capacitados à leitura desse material na própria biblioteca, com a ajuda das coordenadoras. Quando impossibilitados por doenças como a diabetes, que retira a sensibilidade dos dedos, ou por falta de aptidão, eles recorrem aos ledores. Além de livros, a biblioteca também dispõe de 600 títulos em áudio. Versões gravadas pelos voluntários para facilitar o acesso e permitir que os cegos usufruam da leitura, quando não podem estar acompanhados de um ledor.

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Coordenadora da biblioteca, Leonilde Maria

coordenadora Leonilde Maria (foto) explica a importância que esse
projeto tem para os deficientes visuais. Para ela, trata-se do resgate da autoestima. Ouça:

 

Ela ainda diz o que necessário para se tornar um voluntário na Biblioteca Braille. Ouça:

Foto: Flávia Alves