Doenças e depressões da Internet

Excesso de uso das redes sociais pode causar transtornos nos jovens, depressão e dificuldade de relacionamentos entre as pessoas. Equilíbrio é a melhor receita

Isabella Vieira

Você é daqueles que passa horas e horas nas redes sociais? Ou que tenta ser reconhecido por essas mídias? O uso das redes sociais tornou-se uma prática comum entre os jovens, o que mostra que eles estão cada vez mais interessados pelo mundo virtual. Ao observar os resultados de pesquisas e atitudes dos adolescentes é possível verificar que a era da comunicação digital mudou a maneira das relações e comportamento entre as pessoas nessa faixa etária, já que estão mais próximos da realidade interativa. O modo com que os adolescentes lidam com essa ferramenta pode prejudicar na forma como se relacionam com o próximo e até mesmo na própria saúde. É bom ter cuidado.

Segundo uma pesquisa realizada, de 2005 a 2008, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o número de usuários com a idade entre 15 e 17 anos subiu de 33,7% para 62,9%, respectivamente. O acesso à rede móvel de celular no Distrito Federal (DF) é o maior dentre as capitais do Brasil, com 75,6%. Para o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), durante a pesquisa divulgada em agosto de 2014, quase 80% dos jovens, entre nove e 17 anos, possuíam perfis em redes sociais e o aparelho celular é a principal forma de acesso desse público, correspondente a 53%.

Os estudos indicam que a interação dos jovens com a internet cresce a cada surgimento de uma nova rede, o que prova que os adolescentes estão em constante procura pelo reconhecimento entre os “amigos virtuais”. No ranking de perfis mais usados pelos adolescentes brasileiros durante o ano de 2014 para 2015, o Facebook ocupa o primeiro lugar. A segunda posição fica com o Instagram, a terceira com o Snapchat e, em seguida vem o Twitter. Isto mostra que, a cada ano, as redes sociais apresentam inovações que aguçam o público juvenil a estarem sempre conectados no mundo virtual.

Segundo a especialista na área de psiquiatria, Rosângela Bezerra, 40 anos, o uso de maneira excessiva pode provocar o consumo viciante que, posteriormente, resulta em complicações psicológicas no indivíduo. “A internet é o espaço que os jovens usam para demonstrar aquilo que desejam ser e, assim, a busca pela popularidade. A exposição das exigências que o mundo globalizado impõe faz com que acreditem que são aceitos e admirados, pela sociedade”, afirma.

Essa atitude de querer ser o que verdadeiramente não é pode ocasionar depressão e outras complicações psicológicas que têm reflexos negativos nos relacionamentos dos jovens. A psicóloga Cássia Machado explica esse fenômeno. “Quando não existem mais fronteiras entre o real e o virtual, onde tudo funciona como mágica e tudo é possível sem obstáculos, percebe-se uma dificuldade do contato, ou seja, do acesso com os reais e verdadeiros aspectos da personalidade em formação, impedindo uma estrutura saudável e equilibrada da personalidade”, diz.

Para Raphaella Santos, de 17 anos, postar uma foto no perfil das redes sociais é uma forma de melhorar a autoestima e de socializar. “Eu amo tirar foto e postá-la na internet para as pessoas verem. Quando recebo muitos ‘likes’ e elogios, me sinto mais bonita e confiante. E eu uso disso também para fazer novas amizades, tenho vários colegas que conheci nesse meio social”, conta a estudante.

Mas, de acordo com a psicóloga, essa maneira de pensar se contradiz com a realidade que cerca muitos jovens. “Qual autoestima? Não vejo a autoestima de alguém que vive em um universo sem limites e sem equilíbrio, em que o anonimato garante a possibilidade de mentir em todos os aspectos da vida. Esses jovens não constroem relacionamentos reais e fazem milhões de amigos online. E a vida offline?”, questiona.

A estudante de direito Manoela da Silva, 20 anos, conta que devido o vício do uso das redes sociais desenvolveu alguns dos transtornos e que precisou ter um acompanhamento médico. “Minha mãe percebeu que eu ficava muito isolada mexendo no celular. Eu na internet demonstrava ser uma pessoa que não era. Foi aí que comecei a ir no psicólogo e ter acompanhamentos médicos para se livrar desses transtornos. Hoje, eu digo que estou curada. E vejo que basta maneirar no uso do celular e ser o que é nas redes sociais”, reflete.

Transtornos

Entre os males mais comuns hoje está a “depressão Facebook”; Denominada por pesquisadores, este transtorno é a consequência do uso sem moderação, que pode acarretar em cyberbullyng, ansiedade social, que se aplica no desconforto de alguma situação social e até mesmo o medo de se relacionar com outras pessoas, além do isolamento severo. “No momento em que constatamos que o período dedicado aos relacionamentos virtuais supera o tempo que ele dedica à vida, impedindo a construção de relacionamentos reais, o papel das redes sociais torna-se prejudicial”, esclarece a especialista.

Além de depressão, a insônia, dificuldade de aprendizado, baixo rendimento escolar, emoção alterada, enxaqueca, dores no corpo e o sedentarismo são alguns dos males causados pelo uso excessivo das redes sociais. Raphaella confessa que sente algumas dessas ocorrências. “Hoje eu não consigo dormir rápido e ter um sono tranquilo, o que às vezes me faz acordar de mau humor e ter pouca paciência com algumas coisas durante o dia. Também percebo que o meu rendimento na escola caiu. Às vezes, sinto dores de cabeça e na nuca quando fico no celular por muito tempo”, narra a adolescente.

O papel dos pais é um ponto importante nesse assunto, uma vez que eles são eles quem podem ajudar os filhos em suas escolhas. “Quando os pais ou responsáveis acompanham a vida virtual e colocam limites, evitando o excesso e identificando a qualidade e o tempo dos acessos, observo que há benefícios a serem considerados, como socialização, aprendizado e mobilização social”, aconselha a psicóloga Cássia.

Foto de capa: Marcos Santos/ USP Imagens