Adeus chuvisco

Projeto promete melhoria de imagem e da faixa do sinal 4G

Reportagem atualizada na versão WEB.

Lucas Lélis e Marianne Paim

Talvez os mais novos não se lembrem, mas era tão comum dar pancadas com a mão na televisão, colocar palhas de aço nas antenas ou até mesmo subir no telhado várias vezes para melhorar a captação do sinal, que era ruim e só transmitia chuvisco ou fantasmas na tela atrapalhando a imagem.

Os que não têm uma televisão preparada para receber o sinal digital não precisam entrar em desespero. Os conversores digitais são aparelhos que farão a adaptação da imagem para o modelo de TV. Para quem não tem, pode adquirir um aparelho com o conversor já integrado, esta é a melhor solução para continuar acompanhando a novela, o jornal e o futebol, sem fantasmas e chuviscos na tela.

Em 2003 foi implantada a TV digital no Brasil, por meio do decreto nº 4.901, que instituiu o Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD). De lá para cá as emissoras de TV aberta têm se modernizado para levar a melhor qualidade de imagem possível até a casa dos brasileiros. Brasília será a primeira grande cidade do país a ter o sinal analógico, aquele em que a imagem é ruim, totalmente substituído pelo novo sinal. A mudança ocorrerá no 26 de outubro de 2016.

O diretor geral da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, Luis Roberto Antonik explicou que a população está ciente da mudança da tecnologia. “A informação sobre o desligamento do sinal analógico foi dada com um ano de antecedência por meio da inserção, na tela, da logomarca da TV analógica e de uma tarja informativa sobre a data do desligamento do sinal. Dois meses antes da data prevista para o desligamento, haverá também uma indicação fixa com a contagem regressiva para o desligamento no alto da tela”, informa.

Mas a nova forma da TV não irá melhorar apenas a experiência de assistir televisão. As frequências ocupadas pelo sinal analógico serão destinadas à melhoria do sinal 4G, assim as operadoras de telefonia móvel poderão oferecer internet mais rápida para celulares, tablets e modems portáteis. Segundo a Abert, essas faixas que serão desocupadas foram vendidas para as operadoras de telefonia móvel por quase nove bilhões de reais. “As telefônicas ganharam muito com isso, pois aumentaram drasticamente seu espectro de frequência. A faixa que era da televisão, dos canais 51 até o 69, é a melhor faixa de frequência. Assim, economizam no investimento, apresentam um bom produto, pois esta frequência é ótima para a qualidade do serviço, e vendem mais telefonia para a população”, afirmou Luis Roberto.

Antes de o sinal analógico ser desligado na capital federal, a cidade de Rio Verde (GO) vai passar por um teste. A partir do dia 29 de novembro de 2015, a cidade contará apenas com o sinal digital. Para que o desligamento aconteça é necessário que pelo menos 93% dos domicílios de cada município estejam prontos à recepção da televisão digital terrestre.

TV digital para todos

A Abert informou que os beneficiários do Programa Bolsa Família terão direito a um Kit Digital gratuito, com um conversor, antenas e controle remoto. Ele será distribuído a 14 milhões de inscritos no programa e, além de interatividade, possibilitará o acesso à internet. Juntamente com o conversor, o Kit Digital gratuito incluirá uma antena interna, que poderá ser usada em cidades com onde há dificuldades para instalação das externas.

Cada conversor entregue a um beneficiário do programa terá um custo de R$250,00, ou seja, R$ 3,5 bilhões. Um aparelho desses pode ser encontrado no mercado por apenas R$100,00. O diretor geral da Abert criticou o fato do governo ter escolhido um modelo mais caro. “O conversor foi incorporado por uma série de ferramentas, absolutamente incompatíveis com os domicílios que irão recebê-lo. Deste modo se tivéssemos projetado um conversor mais barato, sem esta série de habilidades suecas, poderíamos economizar dinheiro e incluir muitas outras famílias no programa, pelo menos o dobro”.

O Intervozes, coletivo Brasil de comunicação social, também se posicionou contra o alto preço dos conversores. Com discussões sobre o tema desde 2003, o grupo aponta um descaso do governo quanto a escolha do equipamento mais caro para comercialização além da desvalorização da produção nacional. “É fruto de opções equivocadas do governo federal, que decidiu pela adoção do padrão de modulação mais caro entre todos os disponíveis internacionalmente”, relata.

Entretanto, para o coletivo, há uma série de irregularidades quanto à democratização do projeto. Eles acreditam que a implantação do novo sinal não foi realizada de maneira adequada, houve apenas uma adaptação da transmissão das emissoras comerciais. Reduzindo o espaço para as TVs comunitárias, públicas e universitárias. O novo modelo poderia dar mais visibilidade a esses veículos que hoje estão ausentes da programação. “Mas, infelizmente, essa não foi a opção do governo federal, que destinou às emissoras comerciais mais uma fatia do espectro, tornando o atual latifúndio um latifúndio improdutivo”, lamenta.

Para a costureira Walquiria Soares, 72 anos, o novo sinal foi motivo para reunir a família e tornar o velho hábito ainda mais frequente. Mãe de cinco filhos, ela garante que sempre foi fascinada pela televisão. “Lembro de quando minha mãe tinha que dar uns tapas na TV ou mudar ela de lugar para que o chuvisco saísse, ficávamos horas tentando”. Se nada dava certo, ao menos ela e os irmãos tinham uma distração. “Quando não funcionava nem com palha de aço nas antenas, a brincadeira era a corrida de mosquitos – o chiado em preto e branco quando ficava sem sinal”, brinca.

Já na casa do eletricista Jânio Soares, 47 anos, o novo sinal já havia chegado e ele não tinha notado. “Assisto TV todos os dias, mas nunca percebi grande diferença. Meu filho que viu a propaganda e me disse que não precisaríamos chamar um antenista”, conta. No caso do eletricista, o eletrodoméstico já veio de fábrica com o conversor e talvez por esse motivo ele não tenha notado a diferença, porque a transição de sinal é feita automaticamente. Para informar sobre esse processo, emissoras brasileiras fazem propagandas em sua grade horária em forma de tutorial para que telespectador se adapte para acompanhar mais uma evolução daquela que, em muitos lares, era o centro das atenções.

A TV Globo divulgou uma série de vídeos com instruções de como configurar a TV digital na sua casa, assista:

Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília