Namoro: Do portão de casa para carícias mais envolventes

Modificações na cultura dão espaço para o surgimento de novos modelos de relacionamento

Adrienne Ribeiro e Daniela Andrade

Namorar no portão de casa, na sala, ou nas ruas, sempre acompanhados, nunca sozinhos. Esse era o formato de namoro aceitável até meados da década de 1960, no qual tinha como meta o casamento. Desde o nascimento, as mulheres eram criadas para assumir a função de esposa, mãe e dona de casa. Hoje os relacionamentos já não são mais os mesmos, não que as pessoas não queiram casar, mas além do formato tradicional, estão preferindo viver outras formas de relacionamentos, com sentimentos mais intensos.

A aposentada Florência Soares, 63 anos, conta que quando começou a namorar, seus pais eram muito rígidos, não permitiam que ela e o namorado ficassem a sós, sempre tinha alguém presente. “Quando íamos a alguma festa, o meu irmão ficava o tempo todo conosco. Não tínhamos privacidade. Mal segurávamos na mão e não tinha beijos, como fazem os casais de hoje”, afirma a aposentada.

Naquele tempo, como exigia as tradições passadas, boa parte das famílias, mesmo que não fossem religiosas, mantinham o relacionamento tradicional. Baseado na castidade e na santidade, com finalidade o matrimônio e, principalmente, o compromisso com Deus. Ainda hoje, mesmo com a modificação cultural, é possível ver casais com esse plano.

A coordenadora do grupo jovem Amigos pela Fé, de Águas Lindas (GO), Solange Oliveira, 22 anos, defende que o objetivo maior do namoro cristão é o propósito com Deus e consigo mesmo. Para ela, é preciso ter força de vontade e domínio de si próprio para resistir às tentações e só então amar inteiramente o outro.

Mas, nos dias atuais, o namoro cristão é tratado por muitos como uma atitude antiquada, ultrapassada. A antropóloga Telma Amaral, especialista em relacionamentos, explica que diante do alto grau de intimidade que existe entre os pares nos namoros contemporâneos e da sexualidade vivenciada de forma mais aberta, faz com que essa prática gere estranhamento. Pois, parece remeter a um passado em que as proibições do exercício da sexualidade principalmente no que se refere às mulheres, e o controle da família sobre elas se dava de forma intensa.

Com a modificação cultural, esse formato do namoro tradicional também passa por mudanças. A antropóloga enfatiza que desde a década de 1960 esse modelo vem tendo as suas bases alteradas. “As conquistas do movimento feminista, como por exemplo, a entrada da mulher no mercado de trabalho e a chamada “revolução sexual” com a criação da pílula anticoncepcional deram autonomia a mulher, inclusive sobre seu corpo, já que ela passou a exercer um controle sobre sua sexualidade e a procriação”, cita Telma.

Novos relacionamentos

Beijos mais demorados, intimidades que não existiam antes e afetividades passageiras. Hoje, as pessoas estão buscando se encontrar em novas vínculos, seja com pessoas do mesmo sexo ou com mais de uma pessoa. Mas de acordo com Telma, essas relações afetivo-sexuais, as quais as pessoas estão se envolvendo, sempre existiram na sociedade. A diferença é que atualmente há uma transparência maior, o que não ocorria no passado, devido a cultura ser rigorosa e não permitir outras formas de relacionamento.

Umas dessas relações afetivo-sexuais é a homossexualidade, que consiste em um romance entre indíviduos do mesmo sexo. É o caso do engenheiro civil Gustavo Catunda, 24 anos, casado com um outro homem há quatro anos. Ele conta que no início foi muito difícil a aceitação do seu namoro, tanto por parte da sua família, quanto da sociedade, sobretudo porque a sua família é muito rígida e inteiramente cristã. E devido a isso, manteve consigo em segredo durante 18 anos o fato da sua orientação sexual ser diferente da aceita pela sociedade e pela sua família.

“Porém, lá pelos 18 anos, eu comecei a olhar um mundo a minha volta, percebi que existiam milhares de outras formas de se pensar e viver além dos ensinamentos cristãos. Minha primeira experiência com outro homem aconteceu com o meu melhor amigo, inicialmente por curiosidade. Ele também tinha uma história bem parecida com a minha. No momento aquilo funcionou como uma explosão de sentimentos, e nós que não acreditávamos que existisse amor entre pessoas do mesmo sexo nos descobrimos apaixonados”, ressalta Gustavo.

Outra forma de relação também é o poliamor, prática e aceitação de um relacionamento com mais de duas pessoas. Um exemplo é o trisal formado por Angélica Tedesco, Paula Gracielly, e o Klinger Souza. “Foi por acaso, fazíamos ménage. E no decorrer minha esposa se descobriu bissexual. Estávamos nos relacionando há um mês com uma mesma pessoa, quando começou a rolar sentimento”, explica Klinger, supervisor de operações.

Ele conta ainda que, a partir desse momento, não fizeram mais ménages, mas procuram se relacionar sentimentalmente á três. Porém, só um tempo depois que descobriram que a forma como se relacionam é conceituada como a prática do poliamor.

O preconceito

Gustavo e o companheiro enfrentaram muitos preconceitos, tanto por parte da família quanto da sociedade, a ponto de serem ameaçados de morte, passar fome e desistir da profissão de engenharia civil. Hoje, após quatro anos juntos, Gustavo afirma que todas as dificuldades, provações e pressões só serviram para uni-los ainda mais. Mesmo sabendo que, com a cultura em constante alteração, o Brasil ainda é muito preconceituoso com as pessoas com opções sexuais diferente da tradicional.

O trisal também afirma que para a surpresa deles as suas famílias e os amigos aceitaram muito bem. Mas, em relação a sociedade o poliamor não é bem aceito. “Quando somos expostos a páginas do facebook, 70% dos comentários são preconceituosos. Nas ruas, nunca passamos por preconceito, mas evitamos ficar agarrando. Mas de um modo geral, a sociedade acredita que é só libertinagem, que não se pode amar mais de uma pessoa”, relata Klinger.

Foto de capa: Bruna Andrade