BRASÍLIA, A REBELDE MUSA DO PUNK ROCK DOS ANOS 80

Dos diversos temas que as bandas, a capital era unanimidade e inspirava amores, histórias e revoltas

Marcus Gomes

Em 1983 o jornalista e antropólogo Hermano Vianna já profetizava: “Não é por acaso que os brasilienses fazem o rock mais ousado desse país”. Intitulada “Ai de ti, Brasília”, a matéria publicada era o primeiro reconhecimento da imprensa fora da capital federal sobre o rock brasiliense.

A estudante Carolina Lima, 21, mora na capital e tem a discografia completa da Legião Urbana e se identifica com as músicas que apresentam sua cidade “É muito legal saber que uma das maiores bandas brasileiras saiu daqui e apresentou uma Brasília diferente, sob um olhar que não é o da política, e sim da nossa vivência”

A banda Legião Urbana alcançou o topo no ano de 1988 na turnê do álbum “Que país é este?”, homônimo a uma das músicas de maior sucesso feita por Renato Russo ainda nos tempos que era vocalista do Aborto Elétrico. Mas a caminhada de jovens rockeiros e do próprio rock foi longo. A cidade de Brasília, que assistiu ao crescimento de uma geração rebelde, proporcionou o crescimento e virou tema das músicas.

Brasília era famosa pelo tédio que pairava na cidade. Mas a sua arquitetura proporcionou, sob os blocos residenciais, os primeiros encontros de uma juventude que faria muito barulho. Eram adolescentes filhos de diplomatas, professores da Universidade de Brasília (UnB), funcionários públicos ou pessoas ligadas ao governo de alguma maneira. Eles tinham como manter contato com os movimentos culturais que aconteciam na Europa e os jovens voltaram suas atenções para o punk rock inglês.

Baseados na máxima do punk rock “faça você mesmo”, Renato Russo, André Pretorius e Fê Lemos montaram a banda Aborto Elétrico. Segundo o jornalista especializado em música Irlam da Rocha Lima, o Aborto foi a gênese de todo o movimento punk que estaria por vir em Brasília e tinha o líder e vocalista Renato como precursor inicial, influenciado pela banda britânica Sexy Pistols.

Plebe Rude, Capital Inicial e o Aborto Elétrico cantaram o ócio, alvo de críticas nas músicas como “Tédio” e “Anúncio de Refrigerante”, que posteriormente foi gravada pelo Capital Inicial: “Sentado embaixo do bloco sem ter o que fazer/ Olhando as meninas que passam/ Matando o tempo, procurando uma briga/ Sem ter dinheiro nem prum Guaraná”.

Com o período final da ditadura e a eleição indireta de Tancredo Neves, o Brasil vivia um clima de reabertura para a democracia o que permitiu uma maior expressão dos jovens. As letras das músicas começaram a ter um tom mais político e muito crítico.

No livro “Renato Russo – O filho da revolução”, biografia do cantor escrita pelo jornalista Carlos Marcelo, o próprio Renato fala da relação deste delicado período político com as músicas: “A gente fazia música sobre as coisas que aconteciam. A gente estava fazendo o que a gente sentia, entende? Como a nossa base era aqui, na colina da UnB, a gente via uma certa hipocrisia porque era na época da reabertura, da redemocratização, e continuavam as tropas de choque aqui e tudo”.

Cantando Brasília

Com seu desenho e obras peculiares, Brasília e seus movimentos não poderiam ficar de fora dos olhos atentos e críticos dos artistas. O romance de Eduardo e Mônica é, talvez, a primeira ligação que os fãs fazem quando se trata de Brasília nas músicas. Além encontro no parque da cidade, a canção usa a gíria brasiliense para bicicleta, ou seja, “camelo”.

“Dezesseis” conta onde ocorriam as corridas de ruas ilegais na cidade. A canção “Música Urbana”, feita por Renato e gravada pelo Capital Inicial, passeia pela rodoviária e pela torre de tv. Um dos maiores sucessos da Legião Urbana é Faroeste Caboclo, escrita em 1979, que conta a história de João de Santo Cristo. Ao longo da música, João passa por muitos lugares da capital, incluindo as cidades satélites de Taguatinga, Planaltina e Ceilândia.

Plebe Rude cantou a cidade de um viés crítico: “Brasília tem luz, Brasília tem carros/ Brasília tem mortes, tem até baratas/ Brasília tem prédios, Brasília tem máquinas/ Árvores nos eixos a polícia montada”.

Uma das mais inusitadas músicas da Plebe Rude é “Bandas BSB”, que critica os próprias grupos surgidas em Brasília. Num trecho da música eles ironizam o Aborto Elétrico e seu maior sucesso, “Que país é esse?”; “Já estou cheio de bandas que perguntam/ Que país é esse/ com instrumentos mas sem talento.” E termina dizendo “O rock já morreu/ agora você já sabe/ não pode ser ressuscitado”.

No final dos anos 80, com os três principais conjuntos brasilienses já reconhecidas, o jornalista Irlam conta que embaixo de cada bloco havia novas bandas: “Logo depois da geração do Renato surgiram umas trezentas bandas aqui em Brasília. Eram muitas. Em cada lugar que você ia tinha uma, mas nenhuma chegou a prosperar.”

A cidade era o tema da maioria dos novos músicos. Entre estas bandas estavam Liga Tripa e Little Quail. A primeira fez “Qual é, Brasília” e “Travessia do Eixão”, sendo que esta última chegou a ser gravada pela Legião Urbana. Little Quail trouxe “Azarar na W3” e “Dezesseis” que fala das misturas entre as siglas que são usadas com endereços na capital: “SQS, HIGS, SBS/ Pra mim é tudo igual/ SQN, SHIN, CLN/ Vou dar uma decida na comercial”.

Ao final da carreira, já nos anos 90, a Legião Urbana mudou-se para o Rio de Janeiro e alguns já não os consideravam mais brasilienses. Mas Renato não concordava com isso. No livro “Filho da Revolução”, ele diz: “Legião sempre vai ser uma banda de Brasília. Quem fala isso são os outros. Legião é Brasília. De Brasília. A música que está tocando nas rádios, que está em primeiro lugar (Faroeste Caboclo), fala de Taguatinga, Planaltina, fala de tudo. “Que pais é este” tem o prisma da capital.”

Foto de capa: Angélica Rangel