Minha barba, meu eu

Entre idas e vindas da moda, os pelos faciais caem nas graças dos homens e agradam as mulheres

Rodrigo Mendonça

A quantidade de homens por aí que ostentam barbas dos mais variados tipos só tem aumentado. A tendência do homem lumbersexual, inspirada nos lenhadores (lumberjacks, em inglês) de filmes americanos que assumem os pelos do rosto e do corpo com orgulho, tem cada vez mais adeptos. Mas será que isso é novidade na sociedade ou já existiram outros movimentos de barbudos na história?

O professor de psiquiatria Allan Peterkin, da Universidade de Toronto, no Canadá, tornou-se uma autoridade no assunto dos pelos faciais quando publicou, em 2001, o livro One Thousand Beards – A Cultural History of Facial Hair, Mil barbas – A história cultural dos pelos faciais, em tradução livre. Nele, o autor explica que a presença ou ausência da barba pode acrescentar muitos detalhes interessantes na história da humanidade.

Há mais de 30 mil anos os homens do período Paleolítico já tinham hábitos vaidosos e tiravam os pelos do corpo com lascas afiadas de pedras. No Egito antigo, a barba era marca de status social. Os sacerdotes da época depilavam tudo, pois os pelos eram considerados sinais de animalidade. Os gregos ostentavam barbas longas e cheias de cachos. Entre os romanos o rosto lisinho era mais comum, com exceção dos senadores. Lá surgiram as primeiras barbearias e o creme de barbear, produzido à base de óleo de oliva.

Na Idade Média, a Igreja incentivou seus membros a rasparem o rosto para se diferenciarem dos cristãos ortodoxos, judeus e muçulmanos. Nesse período, as pinturas populares representavam o diabo usando bigode. Em 1447, o parlamento inglês proibiu os pelos acima dos lábios: era coisa de franceses.

Por volta de 1770, uma onda de vaidade masculina tomou conta da Europa. O filósofo Rousseau lamentava a condição de “afeminados” dos homens da época. O aparelho de barbear em forma de T, usado ainda hoje, foi criado em 1880 nos EUA pelos irmãos Kampfe. Mas foi King Camp Gillette quem popularizou a invenção ao lançar, em 1903, um aparato que tinha duas lâminas descartáveis.

No início do século XX a barba foi “perseguida” por médicos e cientistas, por acreditar-se que ela era o habitat de 200 mil micróbios. Barbudos não eram aceitos em inúmeros órgãos públicos e empresas privadas. Os filmes de Hollywood, com seus galãs de rosto liso, impulsionaram o uso dos barbeadores e o rosto barbeado passou a ser a regra, até que a comunidade homossexual de Nova York construiu um movimento de ressurgimento das barbas e bigodes na década de 70.

Hoje se vive mais uma onda de barbudos. O estudante de publicidade e propaganda Matheus Hoeckele, 21 anos, usa barba desde os 18, quando percebeu que isso combinava com a própria personalidade. Ele vê a moda como um tipo de exteriorização. “Acredito que, muitas vezes, as pessoas têm medo de usar aquilo que gostam e acabam seguindo a maioria. Eu não usava barba porque ninguém usava. Hoje descobri que gosto e não penso em tirá-la tão cedo”, reafirma.

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Foto: Mariane Brandão

Já o professor de idiomas Henrique Pereira, 30 anos, teve um motivo mais específico. Entre risos, ele confessa que queria aparentar ser mais velho, porque com 25 anos tinha cara de adolescente e isso lhe causava problemas com as mulheres: “Quando deixei a barba crescer as coisas melhoraram pra mim”.

Há também aqueles que gostariam, mas não podem ter. Joanilson Campos, músico de 30 anos, queria ter uma barba gigante, mas não tem pelos o suficiente na face. Apesar da vontade, ele não tem dúvidas de que a moda vai passar. “Nada mais comum do que ver em fotos do passado visuais que eram considerados bonitos e hoje são motivo de risadas. Talvez esse look lumbersexual passe por isso um dia”, comenta.

Os barbeiros têm opiniões diferentes sobre o assunto. Antônio do Nascimento, 80 anos, é barbeiro há 50 e critica a moda: “Isso é uma bobagem. A barba é uma sujeira e deixa o sujeito com cara de doente”. Já Luciano Freitas, 38 anos, tem opinião diferente. Ele é dono de uma barbearia localizada na Praça do DI, em Taguatinga e usa barba há seis meses. “Caiu na graça dos homens, é uma tendência atual. Para muitos, passou a fazer parte da identidade e tem gente que não se vê mais sem”, observa.

Quanto às mulheres, muitas se sentem atraídas por quem adota o estilo. As que são contra alegam o ar de desleixo e sujeira no rosto, além de atrapalhar na hora do beijo. Porém, a cada duas mulheres procuradas pela reportagem do Artefato nas redes sociais, uma se declara fã dos pelos faciais masculinos. Os motivos? É charmoso, realça a masculinidade, deixa o homem com cara de mais sério e mais maduro, ajuda na libido e até “faz uma cosquinha legal”, dizem elas.

Em seu livro, Peterkin defende que o significado das barbas muda constantemente, podendo ser algo relacionado ao divino em um dia e, no outro, coisa de comunistas ou terroristas. Ele conclui que a mensagem delas é mais ampla na atualidade: a necessidade da humanidade exercitar a tolerância, conviver com o diferente. Mas que essa intolerância seja só das mulheres que se incomodam com os pelos na hora do beijo.

 

Foto de capa: Mariane Brandão