Medula Óssea: a luta é pela vida

Falta de informação reduz número de doadores voluntários e dificulta a realização de transplantes em todo o Brasil

Diogo Neves

 

Por meio da campanha #AjudeVivi, nas redes sociais, a família da pequena Vivian Cunha, de apenas 2 anos, tenta mobilizar pessoas para conseguir uma doação. Diagnosticada com Leucemia Linfóide Aguda aos 10 meses de vida, a menina apresentava problemas de saúde como infecções, febre e os antibióticos receitados não resolviam. A tia da menina, Mariana Moura, diz que somente após exames de sangue mais detalhados a família teve a confirmação. Para tentar encontrar um doador compatível, a família recorreu à web: “A ideia surgiu quando a gente precisou atingir um número enorme de pessoas pela necessidade do transplante. Eu atualizo sempre a página no Facebook e Instagram. Com isso eu vejo como tem gente que também tá precisando”, revela Mariana.

Segundo a Fundação do Câncer, no relatório anual de 2014, cerca de 3,5 milhões de pessoas estão cadastradas no Registro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome), no Brasil. O mesmo relatório mostra que apenas 272 transplantes foram realizados no país, sendo 193 com doadores voluntários não aparentados, sem vínculo familiar. As chances de se encontrar um doador compatível na família são de apenas 25%. No caso da pequena Vivian, a compatibilidade entre seus parentes está abaixo desse índice. O Ministério da Saúde e o Instituto Nacional do Câncer (INCA), estabeleceram como meta atingir o número de 9 mil doadores voluntários cadastrados no Redome, por ano, no Distrito Federal. Em 2014, o DF registrou mais de 4.301 mil cadastros. Entre janeiro a agosto deste ano foram 6.980, segundos dados da Fundação Hemocentro de Brasília (FHB).

O Redome é o terceiro maior registro do mundo, indo de 30 mil para cerca de 3,8 milhões de doadores voluntários cadastrados em dez anos. Graças aos investimentos e campanhas de sensibilização, promovidas pelo Ministério da Saúde, órgãos vinculados como o INCA e com a resposta positiva da população. Essas campanhas mobilizam hemocentros, laboratórios, ONGs, instituições públicas e privadas e a sociedade em geral. A hematologista da FHB, Flávia Piazera, explica que os voluntários desconhecem o procedimento cirúrgico no ato do registro. “A gente nota que as pessoas vêm fazer o cadastro após as campanhas e quando são chamadas não comparecem. Muitas acreditam que doar é apenas retirar os 10 ml de sangue, mas não é. A retirada do material do doador é realizada em um centro cirúrgico, por meio de pulsão direta feita com uma agulha injetada no osso do quadril, que é perfurado”, reforça.

 

Necessária à vida

A medula óssea é a “fábrica do sangue”. De acordo com Flávia Piazera, trata-se de um componente gelatinoso, encontrado na parte interna dos ossos, responsável pela produção das células-tronco. Doenças como leucemia, linfomas e falência medular, que decorrem de falhas na produção de células, exigem o transplante para a cura. Com o procedimento a produção de células do sangue no paciente volta ao normal. Ela também produz outros componentes do sangue como glóbulos vermelhos e brancos, responsáveis por transportar o oxigênio nas vias sanguíneas e pela defesa imunológica, e as plaquetas, componentes do sistema de coagulação.

O material extraído do doador é armazenado numa bolsa de sangue e enviado ao hemocentro, onde é centrifugado e purificado. Substâncias como gordura são retiradas e assim é injetado no paciente por meio de transfusão. Após o procedimento cirúrgico, feito sob anestesia geral, o doador leva até duas semanas para se recuperar totalmente.

Para encontrar um doador compatível é necessário que determinados conjuntos de genes sejam iguais aos do paciente, estabelecidos por meio de uma série de testes laboratoriais com amostras de sangue coletadas do doador e do paciente, que identificam traços genéticos importantes de cada indivíduo.

 

Longa espera

Para encontrar um doador compatível é necessário que determinados conjuntos de genes sejam iguais aos do paciente. Mariana Moura, a tia da pequena Vivian, acredita que é preciso investir mais em campanhas informativas e tornar o processo de doação menos burocrático e demorado: “É uma luta contra o tempo. A gente luta contra o tempo sem saber se vai dar tempo. Tem que, às vezes, deixar o emocional de lado e pensar racionalmente e se perguntar isso”, conta. Vivian de apenas 2 anos é uma lutadora. Desde que nasceu sofre com a leucemia. A família busca nas redes sociais uma esperança: a luta é por um doador compatível. A luta é pela vida.

 

Foto de capa: USP Imagens