A ficha caiu

Telefones públicos marcaram época no país e agora estão com os dias contados. A iniciativa principal quer modernizar e reduzir o número de pontos

Lucas Lélis e Marianne Paim

 

Correr até a praça para atender a um telefonema de parente distante, separar uma parte do salário para comprar fichas telefônicas, enfrentar filas para pedir música no rádio. Além de ter sido um hábito para as gerações passadas e que hoje têm entre 30 e 40 anos, os orelhões aproximavam pessoas e guardam histórias, que parecem ter ficado esquecidas no tempo.

A aposentada Maria Aparecida Cavalcante, 63 anos, relembra das ligações apaixonadas e picantes que rendiam histórias inesquecíveis. “Eu namorava bastante pelo telefone que tinha em frente à minha casa. Mas um dia meu pai descobriu e me proibiu de comprar mais fichas”. Apenas proibir não era o suficiente para conseguir frear o contato com os vários namorados, ela sempre esperava os arredores do orelhão ficarem vazios e as intensas conversas começavam. “Quando era proibida, já tinha fichas de emergência guardadas debaixo do colchão. Esperava ele sair para o trabalho à noite, e já corria para o outro lado da rua. Era um sucesso!”, brinca.

Para o paraense Armando de Jesus, 68 anos, sua relação com esses telefones já é um caso antigo. “Fiquei sabendo que minha filha tinha nascido através de um telefonema da minha cunhada.”, conta. Com sorriso no rosto, diz que ficou cerca de 5 horas só esperando pelo toque. O aposentado, que não parava de checar as notificações do celular, diz que sente a mudança de hábitos. “Meu neto nasceu há 15 dias e se não fosse pelo celular, eu não saberia na hora. Ainda não sei mexer, é difícil. Mas o que não fazemos pelos netos?”, brinca.

 

Por um fio

A migração do consumo de telefonia fixa, em casa ou em telefones públicos, para o sistema móvel acontece em todo o mundo e a expansão não para, inclusive no Brasil. Por meio de assessoria a Oi informou que com a queda no consumo, apenas 0,5% da rede de telefones públicos da empresa gera receita suficiente para o pagamento do seu próprio custo de manutenção. Hoje cerca de 48% dos orelhões da Oi não geram chamadas pagas cerca de 38% não são sequer utilizados.

Mesmo sem ter registrado nenhuma chamada, os telefones públicos passam por manutenções semanais no Distrito Federal. O técnico Fábio Porto, 31 anos, é responsável pela manutenção dos pontos localizados em Águas Claras, Areal, Arniqueiras e Taguatinga Sul. Ele conta que das 500 linhas instaladas nessas cidades inicialmente, hoje restam apenas 270 ativas. “Se fica 8 dias sem uso, somos enviados para fazer a tarifação – utilização da linha para que continue funcionando”, relata.

Com a diminuição da demanda, Fábio teme pelo seu emprego devido às demissões que ocorreram nos últimos meses na empresa em que trabalha. ”Antes havia um responsável por cada cidade. Agora há uma concentração de funções e várias regiões para um único técnico”, explica. Segundo ele, a culpa não é apenas dos celulares e da internet. “Alguns são colocados em lugares perigosos ou indesejados. Pessoas ligam solicitando a retirada por estarem posicionados em frente à casa ou por incômodo”, lembra.

 

Cartões colecionáveis

Desde a sanção da Lei Geral das Comunicações em 1997, as famosas fichas telefônicas foram totalmente extinguidas. Vandalismo, tempo, custo para a manutenção e recolhimento das fichas levaram a mudança para os cartões, que ainda são de uso obrigatório para realizar chamadas nos telefones públicos que ainda sobrevivem.

Mas existem os colecionadores de cartões telefônicos, como o estudante Matheus Oliveira, 23 anos, que hoje possui mais de 40 cartões de diferentes épocas. “Meu avô colecionava fichas, mas eu não achava atraente. Um dia precisei ligar e acabei comprando um e não parei mais”, conta. Os preços variam entre R$2,46 – com 20 minutos e R$9,22 – com 75 minutos e mesmo com toda a tecnologia atualmente, tem gente que prefere não correr riscos. É o caso do vigilante Jonas Duarte, 34 anos, que anda com dois cartões próprios para os orelhões. “Não se pode confiar totalmente na bateria hoje em dia. Já precisei ligar para casa no dia de greve, porque não conseguia carregar o celular.”, relata.

 

Foto de capa: Gabriela Vieira