Sertanejo: essa moda pega

Estilo atrai público, conquista espaço e aceitação dos brasilienses. Mesmo com mercado promissor, cantores ainda enfrentam obstáculos

 

Isabella Cantarino e Valéria Melo

Brasília é considerada por muitos a capital do rock, graças a cantores e bandas como Cássia Eller e Legião Urbana. Entretanto, quem mora aqui prova que a musicalidade não gira em torno apenas deste gênero, abrindo as portas para acolher estilos diferentes. O sertanejo, por exemplo, tem ganhado a preferência daqueles que frequentam bares e casas noturnas de Brasília e do Entorno.

Com boates cheias e público variado, a capital do rock – ironicamente – conta com mais de 200 duplas sertanejas. Anderson Oliveira, empresário dos cantores Borges e Fernando, atua na área há 28 anos e afirma que a capital oferece diferentes oportunidades para aqueles que pretendem iniciar carreira.

Anderson já investiu em duplas de sucesso como Conrado e Aleksandro e Henrique e Diego, e conta que é possível cantores iniciantes viverem apenas do lucro obtido por meio dos shows. “Sem dúvida alguma esse é um mercado proveitoso. Além da vontade que se tem em trabalhar, há a questão financeira por trás disso, o dinheiro movimenta a indústria musical”, aponta.

Segundo dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios 2013, realizada pela Companhia de Planejamento do DF, o sertanejo é o estilo musical mais ouvido na capital federal. A pesquisa foi realizada em dez regiões administrativas. Em seis delas, o gênero é o mais ouvido pela população.

 

Dificuldades

 

foto sertanejo
Os cantores Borges e Fernando lotam casa de show em Taguatinga (Isabela Moreno)

 

Mesmo com um cenário promissor, nem tudo são flores no mundo sertanejo. Sem financiamento para alavancar a carreira, os cantores Borges e Fernando apostaram e investiram no sucesso com o próprio dinheiro, o que os fez acumular uma dívida de aproximadamente R$ 6 mil. Hoje a dupla conseguiu quitar o débito, comemora a agenda cheia de shows marcados e a quantidade de fãs que conquistaram: “Acolheram a gente, temos um público que vai dos 15 até os 35 anos, que nos acompanha em redes sociais e shows”.

A dupla Zé Marco e Miguel, que está no mercado há quase cinco anos, também enfrentaram obstáculos para consolidar a carreira. Para eles, a conquista do público é algo que exige bastante confiança e, principalmente, paciência. De acordo com os cantores, fazer com que as pessoas entendam a música como opção profissional e não somente como a onda do momento requer a conciliação de profissionalismo e qualidade. “Estamos imersos no coração do sertanejo, houve o boom desse gênero musical e Brasília abraçou. Convivemos com isso e o ritmo é muito bem aceito aqui”, avalia Miguel.

Os parceiros Henrique e Ruan, que atuam há 18 anos no mercado da capital, possuem forte relação com o sertanejo e se dizem “escolhidos” pela música. “Isso vem do berço, aprendemos em casa. A gente não programou nada, quando percebemos estávamos cantando, fomos aprimorando e conseguimos seguir até hoje”, contam.

Os cantores se inspiram em duplas que estão no mercado há mais tempo, como Zezé Di Camargo e Luciano, Jorge e Mateus, César Menotti e Fabiano, entre outros artistas que se destacam no cenário da música sertaneja nacional e até internacional.

 

Público

 

A estudante de farmácia Mariana Peixoto, 23 anos, frequenta bares e boates desde os 16 anos. Apaixonada pelo sertanejo, diz que aprecia todos os estilos do gênero musical, a começar pelos tradicionais “modões” até os mais populares, resultantes da mistura de estilos. “O sertanejo mudou muito de uns tempos para cá, agora temos músicas bem dançantes”, conta.

Em contrapartida à explosão sertaneja, ainda é comum observar pessoas que resistem ao gênero. Seja por medo de ser isolado de um grupo, pelo preconceito que ainda existe ou até mesmo por não se identificar com o estilo musical. É o que pensa o servidor público Rafael França, 31 anos. Ele diz gostar do gênero, mas em seu ambiente de trabalho o sertanejo não é bem visto e, portanto, esconde a opção. “Eu prefiro não falar que sou fã desse tipo de música a ser julgado como uma pessoa que não tem cultura, mesmo discordando disso”, explica.

Apesar de popular e reconhecida em várias regiões do Brasil, a música sertaneja ainda é motivo de discriminação pela influência de ritmos estrangeiros, como o rock e o jazz. Ainda assim, o Distrito Federal tem como característica a mistura de cada canto do país, com uma identidade plural que acolha os diferentes estilos musicais.

Por ter um público tão amplo e diversificado, muitos cantores famosos já escolheram a capital para gravar seus DVDs, sendo alguns deles: Israel Novaes, Henrique e Juliano, Matheus e Kauan e Wesley Safadão. No dia 10 de outubro, uma das duplas sertanejas mais reconhecidas do Brasil, Jorge e Mateus, escolheu Brasília para comemorar os dez anos de carreira, em um grande show no Estádio Nacional Mané Garrincha.

Uma das músicas mais ouvidas dos cantores Matheus e Kauan, Que Sorte a Nossa, gravada em Brasília.

 

Foto de capa: Isabela Moreno