Odisseia de uma trabalhadora

Jelsyanne Albuquerque

 

Segunda-feira. Acordo cedo. Começo a semana revigorada, cheia de disposição. Olho pela janela e está chovendo. “Ah, não!”. A parada está a dez minutos a pé. Respiro fundo, pego o guarda-chuva e saio otimista de que o dia vai ser bom. O sapato começa a incomodar, mas nada vai estragar meu dia. Quando chego à parada, percebo que hoje ela está mais cheia do que de costume. Penso: “Oh, não! Greve de novo?”. Para meu alívio, dessa vez, não. Olho e mais a frente vejo dois ônibus parados no acostamento. Quebrados! Agora entendi o porquê de tanta gente.

Olho para o relógio e, se não pegar o ônibus agora, vou chegar atrasada. Então, decido entrar no primeiro que passar. Dou sinal. Uma multidão vai em direção à porta. Agora é cada um por si. As pessoas se esbarram, se acotovelam e se xingam. Sem fazer força, sou levada para dentro do ônibus. A sensação é de fazer parte de uma piracema, só que em vez de subir o rio, é subir o ônibus. Apesar do empurra-empurra, não caí. Ainda tenho dignidade.

No ônibus lotado e ao som de funk, que alguém decidiu colocar bem alto para incentivar a cultura dos passageiros, me embrenho entre as pessoas procurando um lugar para me instalar. Deixei de ser peixe e me tornei planta. Uma trepadeira enrolada na barra de apoio do veículo. Nível de dignidade baixando.

Um companheiro de guerra, nada educado, me aperta ainda mais. Será que ele não aprendeu na escola que dois corpos não ocupam o mesmo espaço? Desafiamos a física. Mesmo assim, em meio ao balanço e o aperto, faço planos para depois que sair da batalha automotiva, na esperança de que o dia vai melhorar.

Um pezão, tamanho 44, pressiona o meu. Resisto, mas a pressão dele aumenta e esmaga o meu 35. Não quero tirar o pé dali. Com a bolsa pesada na mão, sendo comprimida e pisada, me sinto uma equilibrista do Cirque du Soleil.  Agora, passei de peixe na piracema, trepadeira e equilibrista, para Saci-Pererê, me mantendo numa perna só. Nível de dignidade ainda mais baixo.

Enfim, chego ao meu destino. Desço suada, descabelada, amarrotada, com a perna de saci dormente e ferida pelo sapato bonitinho, mas ordinário. Na tentativa de salvar minha aparência, pego o espelho e saio andando pela calçada, sem me dar conta de que estou perto da pista cheia de poças. Não poderia dar outra. Uma caminhonete passa em alta velocidade e arremessa um tsunami de lama em mim. Sem dignidade.

Chego ao trabalho bancando um agente secreto da CIA. Corro para o banheiro tentando não ser notada e faço o que posso para me recompor. A rotina começa. Recebo reclamações, ajudo clientes, escrevo relatórios, participo de reuniões, preparo a papelada do dia seguinte, ouço mais reclamações e… Ufa! Acabou! Pego minhas coisas e corro para a parada. Tudo de novo.

Agora descalça, já que desisti do calçado destruidor de pés, chego ao meu prédio e sou recebida pela vizinha mais encrenqueira do lugar. Só o que faltava. Ela me avisa sobre o novo horário de recolhimento do lixo e diz que vai ficar de olho em mim. Para não discutir, acato as ordens da comandante. Achei que a guerra tinha acabado dentro do ônibus.

Enfim, chego em casa. Meu reino, onde me sinto a própria Cleópatra. E coloco em prática o que passei o dia desejando. Assistir ao último episódio da série que acompanho há anos. Agora sim, dignidade recuperada. Sentada confortavelmente no sofá, comendo aquela pipoca, chega o ápice do episódio. Estou empolgada. Agora vou entender toda a trama. “O quê?”. As luzes se apagam. Falta energia. “Oh, Senhor! Por que eu?” No escuro, procuro minha dignidade. Cadê ela, mesmo?