Futuros adultos “bem resolvidos”

Brincar é primordial para o desenvolvimento das crianças, mas pais preocupados com o futuro dos filhos, estão esquecendo essa etapa

Adrienne Ribeiro

 

Carrinho, boneca, bola, pipa, casinha. Todas essas brincadeiras fizeram parte da história de muitas pessoas adultas hoje, inclusive de pais dos atuais pequenos. Com a evolução das tecnologias e a concorrência forte dentro do mercado de trabalho, pais preocupados com a educação e o sucesso profissional dos filhos têm esquecido que eles precisam de tempo para a diversão – um momento essencial para o desenvolvimento dos pequenos.

Para a pedagoga Viviane Teixeira, especialista em psicopedagogia institucional, brincar na infância é fundamental porque permite que a criança exercite e desenvolva uma série de aspectos importantes, como imaginação, linguagem, formação de personalidade, imitação, respeito a regras, afetividade, organização do pensamento, coordenação motora, interação com o outro, além de aprender a ganhar e perder.

Jonathan Barbosa, 12 anos, adora jogar bola, videogame, soltar pipa. Não importa se é sozinho ou com os amigos. Ele conta que jogar sozinho lhe traz a sensação de alegria e foco, mas admite que quando está com os colegas também aprende muitas coisas.

Brincar é um processo natural e essencial para o desenvolvimento. Mas pais ocupados e preocupados com o futuro dos filhos têm pulado etapas. Segundo especialistas, eles precisam ter em mente que é necessário respeitar o ritmo das crianças e, sobretudo, ter cuidado para não antecipar situações que não fazem parte do contexto atual dos pequenos. “Vivemos em um mundo em que o ter é mais importante do que o ser. Os pais acreditam que as crianças devem ser minis adultos sempre fazendo cursos, preparando para uma vida adulta que eles ainda não escolheram e projetando nos filhos suas carências. E isso, pode deixar os pequenos estressados e até desenvolver uma depressão”, explica Rosana Zanella, psicóloga e psicoterapeuta especialista em gestalt-terapia.

O pequeno Jefferson Kauê, de apenas dois anos e oito meses, já vai à escolinha e faz natação, três dias na semana. O pai, o empresário Marcos Vagner, 42 anos, acredita que, apesar de ainda muito pequeno, nessa faixa etária a criança já pode começar a perceber as responsabilidades. “O Jefferson acorda cedo, às 7h vai para a escolinha, chega às 11h, almoça, depois toma banho. Terça, quarta e quinta, às 15h, ele vai para a natação e volta às 19h. E no outro dia começa tudo de novo”, conta o pai.

Já o motorista Regi de Lima da Silva, 35 anos, pai do Nicolas Henrique, de nove, afirma que a brincadeira deve ser priorizada na infância. “É frustrante pensar que a criança pode crescer sem brincar. É claro que por volta dessa idade, do Nicolas, é importante que ele estude, mas ainda assim, o lazer deve estar inserido em sua rotina”, diz Regi.

 

Experiências

Uma das possíveis consequências de não se divertir na infância é o trauma. Exemplo que ocorreu com a doméstica Elza Soares, 41 anos. Nascida em uma família humilde do interior do Goiás, foram poucas as chances de brincar na infância. Além de ajudar nos afazeres de casa, sua família não possuía condições de comprar brinquedos. Quando veio para Brasília, aos 17 anos, para trabalhar, a tristeza de não ter tido o direito de brincar na infância, unida ao antigo sonho de ter uma boneca, falou mais alto. “Meu sonho era ter uma boneca estilo Barbie, mas meus pais não tinham condições de comprar. Então, com o meu primeiro salário, aos 17 anos, comprei minha primeira boneca”, lembra.

Ao contrário de Elza, o biólogo Vinícius Carolino disse que jamais poderia reclamar da sua infância. Futebol, vôlei, patins, pique-pega, bicicleta, construir cabana na roça, andar a cavalo, todas essas brincadeiras, dentro outras não citadas aqui, fizeram parte do seu tempo de criança. “Tive uma infância muito boa. De fato, curti bastante, desde brincadeiras na rua, na roça, como também no clube e parque. E, na maioria das vezes, meus pais estavam sempre presentes, ou brincava com os meus primos, ou amigos da rua”, lembra.

 

Sessões de coaching

Embora a prática do brincar na infância traga inúmeras vantagens à vida dos pequenos, há pais ansiosos e presumindo o futuro dos filhos que acreditam que a partir dos dois anos de idade a criança já pode e tem capacidade para desenvolver habilidades sociais e de aprendizado. Este é o caso de pais que procuram coaching para os pequenos. Coaching é uma atividade que consiste em treinar pessoas, estimulando e capacitando de forma rápida e efetiva em determinada área e objetivo.

Um exemplo disso pode ser visto claramente no filme O Pequeno Príncipe, lançado este ano, em que o desejo obsessivo de uma mãe que a filha se torne uma grande profissional futuramente, faz com ela defina antecipadamente todos os passos da criança, criando o que ela chama de plano de vida, no qual são contados até os minutos para a alimentação, simplesmente para que ela seja aprovada em uma escola conceituada. E infelizmente, para isso a filha tem que sacrificar todos os momentos de lazer da sua infância, etapa que todas as crianças devem ter.

Para a psicóloga Rosana, sessões de coaching, principalmente para crianças de dois anos, causa estranhamento: “Por que saber as habilidades de uma criança de dois anos? Será que os pais preocupados com isso estão realmente dando espaço para ela ser feliz? Não seria uma competição que envolve os próprios pais para exibir seu filho, como se ele fosse objeto de desejo para outros? Onde fica o amor materno e paterno de acolher a criança, brincar com ela? Não, isso não é uma forma de amor”.

A pedagoga Viviane, também acha a atividade desnecessária, ao passo que os pequenos aprendem a lidar com a vida no dia a dia. Obviamente, sob olhar atento dos pais e com a ajuda dos mesmos. Mas ressalta que, para os pais que acreditam valer a pena, as sessões devem ser moderadas. “Coaching é algo que está na moda. É novo, e, como toda novidade, é preciso cautela e avaliação antes de iniciar”.

 

Foto de capa: Mariana Raissa