Cenário que não se quer ver

Estudos indicam que cerca de 2.500 pessoas se encontram em situações de rua, mas os dados revelam dificuldades de aferição

Isabella Vieira e Lorena Carolino
Eles estão nas calçadas, nas ruas, nos pontos de ônibus, deitados sobre um papelão. São pessoas que perambulam sem rumo pelos cantos da cidade e muitas vezes passam despercebidas pela sociedade. Os moradores de rua foram tema de uma pesquisa realizada em 2011 pela Universidade de Brasília (UnB), que identificou cerca de 2.500 pessoas nessa situação no Distrito Federal.

Não é fácil traçar o perfil do morador de rua. Os dados oferecidos trabalham com a ideia de aproximação e não de exatidão. O que existe em comum entre eles é a fragilidade de uma vida sem moradia, e os indivíduos precisam usar as calçadas como residência. A maioria da população, em situação de vulnerabilidade, teve vínculos interrompidos ou fragilizados com a família, e buscam nas ruas e até mesmo nas drogas um refúgio para as condições precárias em que vivem.

As cenas traçadas nas ruas da cidade são obscuras e carregadas de preconceitos. Júlio César do Nascimento, 34 anos, sente na pele o medo dos olhares carregados de pavor e até de desprezo. “É muito difícil a situação de quem não tem onde morar. As pessoas tratam os moradores de rua como animais, sem direito a ter uma mão amiga para amparar”, desabafou.

Júlio saiu de casa quando completou 18 anos de idade, ao se deparar com as ruas, ao se deparar com as ruas ele se envolveu com drogas e, depois disso, nunca mais conseguiu sair do vício. “Eu gostaria muito de não ser viciado, pois isso me faz muito mal e eu sinto muito a falta da minha família. A droga acaba com a vida de quem se envolve com ela”, lamentou.

 

Acolhimento

O Serviço Especializado de Abordagem Social (Seas) é oferecido pela Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social (SEDHS) e realiza um trabalho sistemático de visitas às pessoas em situação de vulnerabilidade, além do amparo oferecido para que os moradores de rua possam ir até uma unidade de acolhimento.

O coordenador de Promoção dos Direitos da Pessoa em Situação de Vulnerabilidade, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Semidh), Iolando Almeida de Souza, aponta os programas e iniciativas já desenvolvidos que atendem a essas pessoas: “A Secretaria de Saúde mantém os Centros de Atenção Psicossocial para Usuários de Álcool e outras Drogas (Capsad) em pontos estratégicos do DF para receber pessoas em situação de rua e oferecer amparo”. O atendimento é oferecido a pessoas com mais de 18 anos de idade, com transtornos mentais e viciadas em algum tipo de droga.

No Distrito Federal, o órgão responsável pela gestão da política da assistência social é a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Humano e Social (SEDHS). O serviço oferecido auxilia na integração das pessoas em situação de rua à rede de serviços públicos. Segundo a secretaria, um dos problemas sociais enfrentados é a migração desenfreada de famílias que buscam uma vida melhor na capital do país. A pesquisa da SEDHS aponta que os motivos da migração estão diretamente ligados à melhoria de vida. Uma pesquisa realizada pela secretaria constata que 49,1% buscam por trabalho, 15,4% vieram acompanhar algum familiar e 6,4% vieram realizar algum tratamento de saúde, constatou a pesquisa realizada pela secretaria.

Em levantamento, o projeto Renovando a Cidadania da Fundação de Apoio à Pesquisa (FAP/DF), apontou que, em 2011, 45,3% dos moradores de rua vivem nessa situação há mais de três anos, e 77% são possuem uma casa para retornar. Os dados são alarmantes e mostram que mais da metade dos indivíduos não possuem um lar, e não mantém contato com a família.

Em busca de moradia temporária, os moradores de rua procuram casas de acolhimento, conhecidas como albergues. Um dos problemas encontrados é que existem casas prontas para receberem as pessoas em situação de rua, mas os locais estão fechados por causa de dívidas do governo com as construtoras.

Em nota, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), informou que o governo já liberou os recursos para a retomada das obras nas Unidades de Acolhimento para Adultos e Famílias de Planaltina e São Sebastião, além da interrupção nas obras na região de Ceilândia. “A Novacap agora cuida do processo de empenho da obra e assim que essa fase for superada, os trabalhos serão retomados”, garantiu. Enquanto isso, a vulnerabilidade, as drogas e a fragilidade do ser humano ficam expostos nas ruas.

 

Foto de capa: Rafael Procópio