Crônica: o mundo sem o jornalismo

Natália Lázaro

Se posso te dar um conselho, por favor, feche este jornal. Você está prestes a descobrir muitas coisas. Umas boas, outras ruins. Você não vai querer isso.

Faço um apelo antes de começar este texto. Por favor, nunca mais leia jornal. Pense bem antes de fazer isso. Cuidado.

Quisera eu ter sabido disso antes.

Me lembro daquela cidade vazia e sem cor, onde  não havia jornal ainda. Era tudo pacato, ninguém se via, ninguém queria. Era calmo, como o nada. Era um nada dentro de um vazio.  A cidade era perfeita.

As crianças ficavam quietas no canto, e mal se ouvia suas vozes. Os homens trabalhavam na fábrica central, e fabricavam coisas que nem eles sabiam para o que servia.

E as mulheres? Bom, não posso falar que ficavam à toa, pensando, porque ali ninguém pensava. Não posso falar que ficavam observando, porque nem isso faziam. Pensando bem, o que faziam elas? Outra coisa que ninguém nunca se perguntou…

Até que um dia, a cidade amanheceu com placas de papel informando que a fábrica estava fechada. Toda a cidade se reuniu para ver o que aquilo significava. Um aviso? Um informe?

Pela primeira vez, algo de fato aconteceu.

Seu João, voltando para casa, achou interessante aquela ideia. Se perdeu tanto naquele enunciado, que começou a pensar. Não deu outra: como estava desacostumado, bateu o carro. Quem viu não se importou. Mas João, pela primeira vez, por algum motivo, se importou. E escreveu, em um pedaço de madeira, “eu bati meu carro aqui”.

E Dona Maria, enquanto pensava no recado da fábrica, percebeu que cozinhava muito bem. E resolveu anotar em um papel, e colocá-lo na frente de casa: “aqui se come bem”.

E o Pedrinho, que achou curiosa aquela coisa de ler, começou a pesquisar sobre tudo que via.  Ele pegava cada objeto de sua casa, anotava e relatava como era. E ele escreveu: “Papai, precisamos trocar a mesa da sala. Agora eu sei o que fazer com aquela peça que estava faltando”.

E todos os moradores passaram o dia em suas casas, com aquela vontade súbita e inexplicável de querer saber sobre alguma coisa.  E parecia tão bom. O filho falou com a mãe sobre  o pé da mesa, e  ela comentou sobre a comida com o vizinho, que disse que o irmão havia batido o carro, que o tio não iria trabalhar porque a fábrica estava fechada.

E eles começaram a se falar, e cada vez que conversavam, descobriam que tinham mais o que pensar.  E cada vez que pensavam, descobriam que tinham ainda mais a descobrir. E cada vez que descobriam, pensavam em publicar. E cada vez que publicavam, mais pessoas pensavam em pensar.

Parece bom. Mas foi o caos.

No dia seguinte, três carros foram batidos, e era só disso que se falava. A não ser quando todos começaram a comentar sobre o que faziam, e passaram a se achar especialistas em quaisquer assuntos. E, então, descobriram que os preços estavam caros. E começaram a querer tratar de economia. E descobriram uma coisa chamada inflação.

E nessa, perceberam que alguém estruturava isso, e começaram a chamar de política.  E assim,  começaram a se perguntar sobre tudo. E começaram a querer fazer tudo.

E assim…

Foi o fim.

Pense em um mundo onde as crianças perguntam, os pais respondem, e todos reclamam juntos.

Pense em um mundo onde todos percebem que foram enganados, e que os preços estão errados, e protestam quando a isso.

Pense em um mundo onde todos querem opinar, todos querer discutir, todos querem evoluir.

Evoluir.

Ruim demais para um mundo sem preocupações.

Você não precisa disso.

Se posso te dar um conselho, por favor, feche este jornal. Você ainda está na segunda página e estás prestes a descobrir muitas coisas.

Umas boas, outras Ruins. Você não vai querer  isso.

Cuidado, conhecimento vicia.

Feche este jornal o mais rápido que puder.

 

 

Foto de capa: Marcos Santos/USP Imagens