Raios de energia

Painéis solares reduzem conta de luz. Alto custo inviabiliza utilização da energia solar

Diogo Neves e Tarcila Rezende

 

O apelo à sustentabilidade e pelo uso consciente dos recursos não-renováveis contribuem para a busca por fontes alternativas de energia elétrica. Já imaginou sua casa produzindo a própria energia com tecnologia de primeiro mundo? E a sua conta de luz diminuir mês a mês? Essa realidade já existe mas ainda é pouco difundida entre a população do Distrito Federal.

O Sistema de Compensação, regulamentado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e autorizado pela Companhia Energética de Brasília (CEB) em 2012, propõe o uso de placas solares para geração de energia na casa do próprio consumidor, parcialmente ligado à CEB.

Dependendo da quantidade de eletricidade gerada, o excedente produzido e não consumido pelo usuário pode ser distribuído à rede pública, no caso a CEB, trazendo descontos na tarifa de luz. O consumidor cede parte da energia produzida e, em compensação, sua conta de luz diminui. A energia solar é produzida por meio de painéis de silício enriquecido que transformam o calor da luz do sol em energia elétrica num processo chamado Efeito Fotovoltáico.

“A produção fotovoltáica de energia depende do tempo em que os painéis, que convertem a energia da luz solar em energia elétrica, ficam expostos ao sol e dos locais onde a intensidade de sua luz é mais forte”, explica o professor de engenharia elétrica da Universidade de Brasília (UnB) Rafael Shayani. Segundo ele, esses fatores influenciam na geração da energia fotovoltáica. Se o painel ficar exposto num lugar onde o sol brilha com mais intensidade e sem barreiras, como nuvens, mais energia será gerada.

 

Aumento

Em menos de um ano a tarifa de luz aumentou duas vezes seguidas no DF. A conta, que já havia ficado 18,88% mais cara, no final de agosto de 2014, subiu outros 28,7%, em março deste ano. A Aneel anunciou, em 25 de agosto, o terceiro reajuste tornando a conta de luz 18,6% mais cara para o consumidor.  A Agência justifica os reajustes apontando fatores como o aumento dos custos com a compra e distribuição de energia coletada da Usina de Itaipu, além da conjuntura atual da crise econômica e o custo de operações de financiamento da Conta de Desenvolvimento Energético no ano passado.

 

Barreiras

Embora a proposta do Sistema de Compensação seja interessante, um dos maiores obstáculos para popularizá-lo é o alto custo das placas solares e do projeto de instalação – algo em torno de R$ 15 mil, já que todo o equipamento necessário para geração eficiente de energia solar é importado. “Existe um projeto de lei na Câmara Federal que tenta criar uma linha de financiamento via governo e instituições como o Banco do Brasil e Caixa que viabilize e barateie o acesso aos painéis fotovoltaicos mas isso ainda está em estudo”, diz o Gerente de Projetos e Vistoria da CEB, Celso Nogueira. De acordo com a Caixa Econômica Federal, na cidade de Juazeiro (BA), um projeto do segmento fotovoltáico já é financiado pela instituição em um condomínio residencial.

Quem quiser dispor da geração domiciliar de energia precisa desembolsar uma quantia considerável de dinheiro. Planejamento de engenharia, adequação da rede elétrica e os equipamentos fotovoltaicos importados e a instalação, entre outras despesas, devem somar um investimento a partir de R$ 15 mil, cujo retorno só tem início a partir dos três primeiros anos de uso. O tempo gasto para a aprovação do projeto de adesão ao sistema de compensação também é longo.

O projeto de instalação e adequação sistema de compensação domiciliar precisa ser feito por um especialista em engenharia elétrica. É dada a entrada na gestão de projetos e vistorias da CEB e feita uma análise de aprovação que pode levar cerca de 30 dias.

“Após isso, estando o projeto aprovado, nós o liberamos para execução. Posteriormente, com o projeto já executado, pede-se uma vistoria, que é feita num prazo de três dias após a nossa solicitação. Se a vistoria aprovar o projeto, faz-se a troca do medidor convencional, que mede o que o consumidor gasta, por outro bidirecional, que mede tanto o que é consumido como o que é gerado pelo consumidor e o excedente distribuído na rede por ele”, afirma o Gerente de Projetos e Vistorias da CEB, que conclui: “Nós temos hoje, no Distrito Federal, 47 projetos aprovados e 27 conectados em paralelo com a Companhia”. A CEB não permite o desligamento total da residência com a rede distribuidora.

 

Instalação

O engenheiro Mateus de Sordi, 27, possui o sistema fotovoltáico em sua residência, no Lago Norte. “Meu pai pensou nos aspectos financeiros e aceitou fazer o investimento no sistema da casa. Moramos em uma chácara, plantamos algumas coisas. Então, a proposta de gerar a energia limpa combinou com o nosso estilo de vida”. O engenheiro conta que o sistema de sua casa é pequeno e, mesmo com os aumentos da tarifa, a economia mensal hoje é de cerca de R$ 250,00.

O alto valor dos painéis solares se deve também às limitações tecnológicas do país para refino e enriquecimento do silício, minério abundante no Brasil. O gerente de projetos da CEB, explica que o Brasil é um grande produtor desse minério, porém o país não possui o maquinário para enriquecê-lo.

“Para torná-lo propício para a geração da energia de fonte solar, é preciso que o minério esteja altamente enriquecido e nós não temos essa tecnologia no momento”, conclui. O investimento no sistema bidirecional tem retorno a partir do terceiro ano de uso e tem uma vida útil de pelo menos 25 anos.

Para o corretor de imóveis, Demetre Calimeris, a falta de interesse das companhias de abastecimento de energia e do governo dificulta o crescimento do uso dessa fonte alternativa de energia no país
O corretor de imóveis Demetre Calimeris

Para o corretor de imóveis da Omni Consultoria, Demetre Calimeris, a falta de interesse das companhias de abastecimento de energia e do governo dificulta o crescimento do uso dessa fonte alternativa de energia no país: “Não há duvidas de que a energia solar é a solução para o Brasil, onde se tem uma luminosidade abundante. Principalmente o Distrito Federal. Mas, uma vez todos utilizando a energia solar, para quem eles vão vender energia elétrica? Não há interesse”.

Ele conta que o custo elevado das placas, que se mantém alto há vários anos, possibilita apenas seu uso mais comum em sistemas de aquecimento de água. “A estimativa, quando feita para instalação aqui na minha casa, há mais de 20 anos, foi de 50 mil reais. Decidi instalar apenas para o aquecimento de água. Ainda hoje é um investimento inicial muito alto, para ser compensado depois”, reforça.

 

Como funciona?

O professor engenheiro-eletricista da UnB Rafael Shayani explica como a energia solar é gerada a partir das placas solares: “A produção fotovoltaica de energia depende do tempo em que os painéis, que convertem a energia da luz do sol em energia elétrica, ficam expostos ao sol e dos locais onde a intensidade de sua luz é mais forte”. Esses fatores influenciam na geração da energia elétrica solar. Se o painel ficar exposto num lugar onde sol brilha com mais intensidade e sem barreiras como nuvens, mais energia será gerada.

A energia é medida em Kilowatts/hora (KwH), que é a unidade de potência multiplicada por hora de uso. Um painel fotovoltáico de 1 Kw exposto durante cinco horas de sol forte – entre o meio da manhã e o meio da tarde, gera 5 KwH por dia. Para o professor, o uso de painéis solares é o mais indicado para produção de energia de fonte alternativa e limpa no Brasil.

“É um sistema altamente seguro e independente. Você gera durante as horas de sol forte aquilo que vai para o seu consumo no decorrer do dia e o excedente vai para uma bateria, por exemplo, para ser utilizado à noite. Sem poluição, sem desperdício”, afirma.

 

Foto de capa: Smartly/Divulgação