Mexeu e passou do ponto

Passageiros reclamam de mudanças nas linhas de ônibus. Alterações ocorreram em nove regiões administrativas e devem se estender para todo o Distrito Federal

 

Gabriel Henrique e Manoel Ventura

 

“Parece que quem faz esses estudos não conhece as necessidades de quem precisa de ônibus diariamente”. A afirmação do segurança José Cunha, 26 anos, que trabalha em uma loja na 204 Sul, resume a situação de muitos usuários do transporte coletivo do Distrito Federal, depois que as linhas e itinerários começaram a ser modificados. Ele mora no Pistão Sul, em Taguatinga, e para ir ao trabalho utilizava um ônibus que saia de Samambaia rumo ao Eixo Sul. Com as alterações, a linha teve o seu percurso mudado e, agora, ao invés de um, ele precisa pegar dois veículos para chegar ao destino.

As mudanças começaram em junho, com alterações no Recanto das Emas e Riacho Fundo II. Além dessas regiões, mais de 100 linhas de Águas Claras, Cruzeiro, Jardim Botânico, Riacho Fundo I, Samambaia, São Sebastião e Sudoeste foram desativadas ou passaram por mudanças, segundo o DFTrans. A proposta, de acordo com o órgão, é reduzir a quantidade de veículos que fazem percursos semelhantes, encurtar a distância percorrida nos trajetos e diminuir o tempo nas paradas.

Mas os usuários do transporte público reclamam da falta de informação e dizem que as mudanças pioraram o sistema. A estudante Karla Reis, 19 anos, conta que o tempo esperando um ônibus, na verdade, ficou maior. “Como antes tinha mais opção de linhas, os ônibus eram mais vazios. A sensação é que tem menos ônibus e eles estão mais cheios”, avalia. Ela mora no Riacho Fundo II e vai para a W3 Norte todos os dias.

Moradora do Recanto das Emas, a vendedora Lila Reis, 37 anos, relata que só soube das mudanças quando a linha que ela utilizava para ir ao trabalho, no Lago Norte, foi desativada. As modificações também foram sentidas no bolso. Anteriormente, gastava R$ 6 com as passagens todos os dias; agora precisa desembolsar R$ 16, já que o preço das passagens de ônibus e metrô no Distrito Federal subiu para até R$ 4. “Tenho que pegar um ônibus para a rodoviária, que está sempre muito cheio, e outro para o Lago Norte. Antes era só um, mais vazio. Estou pagando mais caro por um serviço que piorou”, lamenta.

 

Confira as Mudanças em Águas ClarasSamambaiaSão Sebastião e no Jardim BotânicoCruzeiro e SudoesteRiacho Fundo IRecanto das emas e Riacho Fundo II.

A linha 394, de Samambaia, foi uma das que sofreram alterações (Manoel Ventura)
A linha 394, de Samambaia, foi uma das que sofreram alterações (Manoel Ventura)

 

Alterações

O órgão responsável pelo transporte urbano do Distrito Federal informa que Gama, Santa Maria, Itapoã e Paranoá são as próximas localidades a passar por mudanças no sistema de transporte, que ocorrerão em todas as regiões administrativas. Veja no final da reportagem todas as alterações.

O diretor-técnico do DFTrans, Márcio Antônio de Jesus, diz que o processo não traz prejuízos aos passageiros. “Nós não estamos tirando veículos de circulação, estamos fazendo uma racionalização e concentrando os atendimentos”, afirma. Ele aponta a integração do sistema como solução para casos como os de Lila e José – cujas linhas que utilizavam para ir trabalhar foram alteradas.

A integração permite aos usuários do transporte público, em um intervalo de duas horas, fazer duas viagens pagando uma passagem de R$ 4 – com a possibilidade de mesclar ônibus e metrô. Para isso, é preciso ter um cartão recarregável, como o de vale transporte. Os passageiros alegam que o sistema nem sempre funciona. “O intervalo entre em cada ônibus é muito grande. A gente fica mais o tempo nas paradas e dentro dos veículos”, relata o contador Ricardo Monte.

Ele calcula que gasta, em média, cinco horas por dia no percurso de ida e volta ao trabalho, contando o tempo de espera na parada. “Um tempo perdido, que poderia estar estudando, me divertindo. É qualidade de vida que está em jogo”, reclama. “Quem anda de ônibus todos os dias não é contra mudanças. Só não pode piorar ainda mais. O que eu quero é, no fim do meu expediente, ter certeza que o ônibus vai passar na hora e que vou chegar em casa com conforto e segurança”, finaliza o contador.

Segundo a Secretaria de Mobilidade, o processo de reorganização das linhas foi dividido em três etapas. A primeira, em execução, altera as que são operadas por apenas uma empresa de ônibus. Em seguida, o governo vai modificar as linhas em que mais de uma companhia atua. Por último, a integração do sistema de transporte vai ser ampliada e melhorada. Não há prazo para a conclusão do processo.

Todos os horários e itineráriosestão disponíveis no site do DFTrans

 

Foto de capa: Manoel Ventura