Levanta e anda

Vítimas da depressão sofrem com a falta de informação e conhecimento de todos. A doença é uma das mais comuns no mundo e a causa pode ser orgânica

Nathalia Lázaro

 

Quarto escuro, três meses de cama. No banheiro, uma cadeira embaixo do chuveiro. A cada ida à cozinha para pegar um copo d’água, a sensação de ter realizado uma maratona. E, todas as manhãs, a tristeza e a falta de estímulo de ter que enfrentar mais um dia de vida. “Eu era um inválido, um vivo morto”, conta o advogado de 44 anos Alexandre Dieguez, depressivo há 29 anos. Esta é a história de Alexandre, mas poderia ser contada também pelas 350 milhões pessoas no mundo que sofrem da doença que mais mata, a depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). “É como falar para um paraplégico: levanta e anda”, conta o advogado.

Conhecida como a doença da modernidade, a origem é um mau funcionamento de neurotransmissores do cérebro, e pode estar associada ao cansaço e ao estresse. Porém, na maioria dos casos, a causa é uma disfunção química, orgânica e hereditária, e qualquer um está vulnerável a tê-la.

Os sintomas se parecem com outros transtornos psicológicos, além de poder prover de outras doenças. De acordo com a OMS, 705% das mortes em 16 anos tiveram relação com a depressão, mas ainda há grande parte da população que está doente sem saber, e os casos não são contabilizados. Vale ressaltar que que a maior taxa de depressão do mundo é a do Brasil, com 10,4%.

A psicóloga S.B é depressiva há 10 anos e, somente agora, aceitou a doença. Mesmo sendo especialista na área, ela conta que a maior dificuldade é reconhecer a depressão em alguém e, assim, começar o tratamento antes que o caso se agrave. “Se a pessoa tem a depressão branda, ela está aparentemente funcional, realizando todas as funções”, conta. Assim como seus pacientes, ela alegava ser uma fase difícil, inferno astral ou até culpava o clima da região, para justificar as intensas dores de cabeça e falta de estímulo para realizar atividades.

S.B diz que a parte mais difícil é a falta de conhecimento e de respeitos das pessoas para com a doença e o doente.  Alexandre, que precisou parar de trabalhar durante todo o tratamento e se afastou dos amigos, conta que a parte mais difícil foi ter que escutar comentários de que a doença não passa de uma frescura, preguiça, coisa de gente rica e fraca. “Não é questão de querer, é questão de não conseguir. A sensação de ser um inválido é a pior que se pode sentir”, desabafa o advogado.

S.B alerta que, entre as principais consequências da depressão estão o desenvolvimento de doenças neurológicas graves, como as relacionadas a raciocínio e memória. A especialista conta que, um dos maiores problemas da depressão é quando o doente está tão vulnerável que não vê mais sentido em viver, e acaba por se suicidar. Não se pode afirmar que todo suicídio é consequência de uma depressão, mas a doença pode levar a vontade de tirar a própria vida. Nos últimos 16 anos, que a taxa de depressão teve aumento significativo, a taxa de suicídio subiu 156%, segundo OMS.

 

Tratamento

O psiquiatra Raphael Boechat informa que ainda não há a possibilidade de falar em uma cura total da doença, já que a causa não pode ser definida. Mas, mesmo assim, com o tratamento, a pessoa pode levar uma vida como qualquer outra. “Ela tem tratamento, mas o conceito de cura não é muito definido, pois não tem um agente causador claro como em outras doenças. É um doença multifatorial, não é como infecção, que se trata eliminando uma bactéria”, completa.

Dessa forma, o doente precisa procurar, em primeiro lugar em psiquiatra para medica-lo com remédios que possam inibir os sintomas. Mas, para o tratamento completo, é extremamente necessário sessões de psicoterapia e análise. “Como não tem uma cura, a pessoa pode ter crises ao longa de toda a vida. Por isso, é importante tratar com cuidado, para que ela não venha a ter os sintomas novamente”, conta.

Isso não significa que a pessoa vai sofrer da doença por toda a vida. Apesar de não confirmar uma cura absoluta, o psiquiatra garante que, quando bem tratada, é muito difícil que ela volte a se manifestar. Além disso, o paciente não vai precisar tomar os remédios para sempre. Assim como qualquer doença, a depressão tem um protocolo e um tempo de tratamento.

Boechat é especialista em saúde mental no serviço público de saúde e conta que muitas pessoas não procuram o tratamento por ser caro, e que as políticas públicas para doenças mentais é ineficiente. “Hoje, o tratamento de doenças de ordem psicoquímica na rede pública está muito ruim, devido a uma série de medidas políticas equivocadas que trataram com descaso as doenças. A espera para consulta com um psiquiatra demora meses, e a depressão não pode esperar”, confirma.

A psicologa S.B defende que, uma das formas mais eficaz de tratamento está relacionada a ordem social. Segundo a especialista, se o indivíduo se encontra em um ambiente em que se sente confortável a compartilhar dores e angústias, a relação com o problema diminui. Assim, quanto mais apoio o depressivo tiver, ele conseguirá se recuperar mais rápido. O médico Boechat concorda que depressão é algo sério e deve ser discutido, para que se entenda a importância de se mobilizar com a causa e esquecer de vez a frase “levanta e anda”.

O advogado Alexandre, depois de quase 30 anos lutando contra a doença, volta ao trabalho neste ano, e sorri aliviado ao falar que consegue observar a evolução do tratamento. No fim da entrevista, ele agradece a família pelo apoio. Assim como S.B, que após muito resistir, percebeu que não há motivos para negar a doença, e que suas relações não serão afetadas por ser depressiva.

Dessa forma, notamos a verdadeira causa da depressão: a falta de conhecimento para com a doença e o preconceito com o depressivo. Lembre-se, depressão tem tratamento, ignorância não.

 

Foto: José Cruz/Agência Brasil