Como desvendar o quebra-cabeça

Atividade física ameniza e previne os sintomas do Alzheimer. Doença afeta quase 1,2 milhão de brasileiros

Isabella Vieira e Lorena Carolino

 

A doença de Alzheimer é responsável pela perda das memórias e é caracterizada por ser incurável e degenerativa. O portador da patologia tem as suas funções mentais afetadas pela desmemória, o que pode levar à perda da capacidade de raciocínio e torná-lo dependente de apoio em suas atividades cotidianas. Essa é a causa mais comum de demência e equivale a mais de 60% dos casos.

A Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) estima que existam no mundo por volta de 35,6 milhões de pessoas com Alzheimer. No Brasil, há cerca de 1,2 milhão de casos e a maior parte deles ainda sem diagnóstico. Devido ao crescente número de idosos e ao aumento do envelhecimento populacional, a estimativa é que esse número dobre em 20 anos.

Luzia Lopes, 85 anos, foi diagnosticada aos 75. O que, a princípio, era um esquecimento sutil passou a ser uma preocupação aos filhos e familiares, já que a confusão mental passou a ser mais óbvia e logo começou a esquecer-se de tudo, inclusive das pessoas com quem mais convivia. Os esquecimentos foram aumentando e os familiares resolveram procurar ajuda para descobrirem o motivo de tamanha desmemória. Foi aí que os filhos procuraram a ajuda médica e, após os exames clínicos, constatou-se que Luzia estava com Alzhemier.

Assim que diagnosticou o problema, a família começou a se engajar no tratamento: os filhos passaram a fazer caminhada, incluíram Luzia no programa de atendimento ao Alzhemier desenvolvido pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e os netos passaram a conversar mais com ela no intuito de exercitar a mente para evitar que ela se esqueça dos familiares.

Segundo a doutora em fisiologia pela Universidade de Londres Lucy Gomes, 68 anos, ainda não há um exame específico para diagnosticar o Alzheimer. O recurso disponibilizado hoje é um exame clínico, no qual o paciente responde algumas perguntas básicas feitas pelo médico, que interpreta o grau de acerto e a partir disso constata a probabilidade de desenvolvimento da patologia.

A médica explicou os dois estágios da doença. O primeiro atinge cerca de 1% da população com 60 anos. Nessa fase, os indivíduos podem perder a memória gradativamente a cada cinco anos, caso não receba o devido acompanhamento. O segundo estágio é o menos frequente, e acontece com heranças genéticas e hereditárias.

Conceição Rezende, 79 anos, é também é portadora de Alzheimer e foi diagnosticada aos 67, quando a família percebeu mudanças drásticas em seu comportamento. “Chegamos a pensar que ela estava apenas distraída, pois sempre repetia as mesmas coisas e esquecia o lugar onde guardava os objetos, além de esquecer as datas de aniversários e comemorativas que sempre lembrava”, afirmou Lívia Rezende, filha de Conceição. Mas a situação se agravou depressa, quando a portadora começou a defecar na roupa, ter atitudes agressivas com os filhos, ouvir vozes e ver coisas inexistentes. Foi quando os familiares decidiram procurar um especialista.

Mão dupla

O sofrimento é bilateral. Além de atingir a própria vítima, a família passa por uma mudança radical em seu estilo de vida. Não é fácil para o familiar observar o abandono dos bons modos, a fase do desconhecimento dos amigos e parentes, o isolamento social e os pequenos esquecimentos diários. A realidade do diagnóstico altera a saúde física e emocional da família, que precisa conhecer a doença e saber como lidar com ela. “A minha mãe já chegou a não reconhecer os filhos, e eu confesso que foi bem pesado. Você olha para sua mãe e a chama, e ela responde: eu não sou sua mãe. Isso é um impacto muito forte e um choque. Se você não estiver bem preparado emocionalmente, você tem um baque muito grande”, relata Pedro Lopes, filho de Dona Luzia.

Além dos cuidados médicos, outros procedimentos são capazes de amenizar os sintomas da doença. A prática de exercícios físicos é importante para a promoção de uma longevidade com autonomia e independência. Segundo o doutor em patologia molecular Otávio Nóbrega, a prática de atividade física é essencial para um envelhecimento bem sucedido. “A nutrição saudável conciliada à prática de exercícios físicos podem ser considerados pilares estruturantes de quaisquer programas, ações e atividades desenvolvidas”, afirmou.

De acordo com Otávio, o Brasil precisa promover mais campanhas na área da saúde. “Mais do que campanhas, o país necessita de estratégias continuadas de educação em saúde para disseminação de conhecimentos e práticas voltadas ao autocuidado, para que o sujeito tenha uma preocupação e responsabilidade pela manutenção de sua própria saúde”, declarou.

As mudanças no estilo de vida trazem benefícios à saúde não apenas para os idosos, mas para todos os indivíduos independentemente da faixa etária. Para o integrante do grupo de estudos do Desempenho Humano e das Respostas Fisiológicas ao Exercício Marcelo Sales, o sedentarismo pode acelerar o aparecimento do Alzheimer. “As mudanças no estilo de vida podem evitar mais da metade de casos da doença existentes no mundo, sendo a falta da atividade física o principal fator de risco para o desenvolvimento desta patologia”, alertou.

Em alguns casos, o idoso necessita de um cuidado em domicílio, função exercida por um cuidador. A tarefa não é simples e na maior parte dos casos, o portador vive em constante dependência e requer atenção contínua. “Temos que entrar no mundo deles e ter paciência e muito amor, pois o trabalho não é fácil. É uma amostra de amor à vida e ao próximo”, afirmou a cuidadora Patrícia Pereira.

 

A doença

A evolução dos sintomas é dividida em três fases: leve (perda da memória frequente, dificuldade de encontrar palavras), moderada (necessidade de ajuda com a higiene pessoal, esquecimento do nome dos familiares) e grave (dificuldade para comer, falar, comportamento inapropriado).

As queixas de memória podem não estar relacionadas à doença, e podem ser fruto de depressão, ansiedade, estresse e transtornos do sono. Dessa forma, é fundamental que uma investigação seja feita, para identificar a raiz do problema. O diagnóstico feito no estágio inicial garante o controle dos sintomas e melhor qualidade de vida ao paciente e à família.

No cinema

O filme “Para Sempre Alice” narra a história de Alice Howland, uma mulher no auge de seus 50 anos e que se depara com uma situação dramática em sua vida. A linguista, casada e mãe de três filhos, começa a esquecer frequentemente das coisas e descobre o Alzheimer.

A história comove por mostrar o que significa a morte lenta e gradual da consciência, das vontades, da memória e do próprio eu. O realismo do enredo mostra os sintomas da doença e a dolorosa caminhada que é preciso trilhar, além de explicar a importância dos laços familiares nesse momento difícil para o paciente. O amor e a atenção são a mistura necessária para enfrentar a difícil missão de conviver com a doença.

Assista ao filme completo: