“Sim” para o pedido

Em Brasília, espaços da cidade são usados para pedidos de casamento. Casais criativos optam pelo incomum

Gabriella Bertoni e Jéssica Eufrásio

Caro leitor, imagine-se andando na rua, no centro da cidade, debaixo de um forte sol e em meio a milhares de outras pessoas. Na entrada de um shopping, você vê um homem e uma mulher, namorados, olhando uma vitrine à procura de um par de tênis. De repente, uma moça aparece com um enorme buquê de flores e o dá à mulher, cujo nome é Taiane. Amigos do casal surgem de todos os cantos e entregam um computador a ela. Na tela, uma homenagem em vídeo feita por seu namorado. Atrás deles, uma mesa é posta, decorada com uma toalha vermelha e sobre a qual um “jantar” romântico é servido.

Foi assim que o desenvolvedor de sistemas David Jefferson, 23 anos, fez o pedido de casamento para sua amada, a blogueira Taiane de Jesus, 20 anos. “No momento em que o vídeo terminou, uma frase apareceu falando para eu me virar. Dei de cara com a mesa no meio do shopping. Fomos servidos com água, champanhe e bolinho. Fiquei assustada e feliz ao mesmo tempo”, resume Taiane.

Arquitetado por ele, o local escolhido foi o Conjunto Nacional, um dos pontos mais frequentados de Brasília. Centenas de pessoas presenciaram o pedido, que resultou em uma resposta afirmativa. O local inusitado rendeu vídeos e inúmeras fotos, além de um site que conta a história do casal. Taiane até criou um blog para contar a história do casal. Confira aqui.

O ato solene do casamento, segundo dizem alguns livros de história, foi instituído em meados do ano 1000, após a proclamação do Cristianismo como religião oficial em alguns países da Europa. Surgia, assim, o matrimônio, uma forma de acabar com os antigos costumes de poligamia.

Nas sociedades mais antigas, as “moçoilas” eram raptadas por seus pretendentes, sendo que muitas delas tinham valor mercantil. As mulheres eram comercializadas como uma forma de apartar brigas entre países e resolver crises econômicas. A ideia de conhecer e se apaixonar pelo grande amor ainda não existia, já que, na maior parte dos casos, a apresentação dos noivos acontecia apenas no momento do casamento – costume que ainda sobrevive em algumas culturas.

Antigamente os casamentos costumavam ser arranjados entre as famílias. Demorou muito tempo até que as mulheres pudessem escolher com quem casar
Antigamente os casamentos costumavam ser arranjados entre as famílias. Demorou muito tempo até que as mulheres pudessem escolher com quem casar (Marriage du Duc de Bourgogne et Marie-Adélaïde/ Antoine Dieu, 1697)

Nas alturas

Nos séculos XV e XVI, o Renascimento reafirmou a necessidade de mudanças graças às suas artes, costumes e ciências, prevalecendo, assim, os sentimentos aos interesses. Cortejar o outro passou a ser comum na relação pré-casamento. E isso foi o que o analista de sistemas Adriano Tavares, 29 anos, buscou fazer ao pedir a mão da estudante Lorena Bezerra, 29 anos.

Um brinquedo do Nicolândia Center Park foi o local escolhido. “Optei pela roda gigante porque, além de ser um lugar que ela sempre gostou e acha bonito, tem um significado de alegria constante, de idas e vindas”, diz Adriano. Abusar da criatividade sempre foi o primeiro plano do noivo. “Eu dizia que ia pedi-la em casamento nas alturas: pulando de paraquedas, no avião, num balão…”.

Mas nada foi tão fácil para Lorena. Antes de descobrir o que iria acontecer, ela teve que fazer uma caça ao tesouro, percorrendo vários lugares da cidade, até acabar com os olhos vendados no parque. Após quatro meses de planejamento, tudo saiu como o combinado. A frase “Lorena, quer casar comigo?” só podia ser vista do alto. A resposta foi um emocionado “sim”.


Vice-versa

Apenas no século XIX o modelo de casamento adotado hoje pelos ocidentais tomou forma. Ele se tornou comum quando a rainha Vitória, da Inglaterra, escolheu seu próprio marido. E quem pensa que pedidos aos moldes do realizado por essa rainha ficaram no século retrasado está enganado. A história de que a proposta está restrita a ser feita pelos homens é quase tão antiquada quanto o pagamento de dotes ao noivo.

“Comecei um discurso totalmente improvisado. Falei para a família dele que eu não queria somente a mão, queria o corpo inteiro, a alma e o coração para mim, para sempre.” Foi assim que a advogada Nayara Teixeira, 31 anos, pediu a mão de seu marido, Lucas de Queiroz, 32 anos. Nayara achava que noivar era uma bobagem e, além disso, o casal já estava satisfeito apenas pelo fato de estar junto. No entanto, quando viajou para Fortaleza, a advogada decidiu visitar um ourives, responsável pela confecção das alianças de uma prima que estava noiva à época. Como o preço e a qualidade do trabalho eram convidativos, Nayara resolveu encomendar duas – que, por sorte, ficaram prontas antes de seu retorno a Brasília.

A família reagiu bem quando soube que o jantar para o qual estavam sendo convidados serviria para pedir a mão de Lucas. O rapaz não desconfiou, porque a data também representava o aniversário de namoro dos dois. Quando chegou ao local e viu todos reunidos, ainda brincou: “Olha! Está todo mundo aqui! É o noivado?”

A proposta aconteceu não só de forma diferente, como também espontânea. “Ele não acreditava. Não sabia se ria ou se chorava. Falou coisas lindas e depois ficou olhando fixamente para a mão direita”, conta Nayara. Os dois se casaram sete meses depois. “Eu acho que foi uma ótima oportunidade para quebrar esse paradigma de esperar o homem tomar todas as providências e pedir a mão da mulher amada”, finaliza.

Este slideshow necessita de JavaScript.


Sem distância

Quando a amiga da nutricionista Ana Carolina Barbosa, 29 anos, foi visitar os parentes na Califórnia, Ana nem imaginava o que aconteceria em seu futuro. O engenheiro Fábio Soares, 40 anos, se encantou quando viu uma foto na rede social da moça. Depois de três meses, o rapaz voou para Brasília para conhecer sua amada.

Com um ano de namoro à distância conectado pela internet, Fábio contatou a família da jovem e armou toda uma encenação. O irmão de Ana disse que o escritório de advocacia em que trabalhava seria homenageado e, por isso, queria toda a família presente. O evento seria em um restaurante no Lago Sul. Enquanto isso, Fábio disse que estaria em uma viagem a negócios na África do Sul. Mandou vídeos e fotos do aeroporto africano, a fim de convencer Ana de que estava bem longe dali, em outro continente.

Ana Carolina, desavisada, chegou ao local debaixo de uma forte chuva e após um plantão de 12 horas no trabalho. Depois de entrar, foi colocada em frente a uma TV, que segundo ela, estava estrategicamente posicionada. “O Fábio também é músico lá em Los Angeles. Quando olhei para a TV, estava passando um clipe dele. Fique em choque pensando ‘Nossa! Ele não veio, mas fez uma surpresa no evento do meu irmão!’ Só fui perceber que tinha algo errado quando ele terminou de cantar e começou a falar comigo pela televisão.”

Foi aí que o moço, apaixonado, entrou no restaurante acompanhado da mãe, do pai e do irmão, além da amiga de Ana, que a ajudou desde o início. Os pais vieram do Rio de Janeiro só para a ocasião. “Ele continuou cantando a música All Of Me, do John Legend, me abraçou e se ajoelhou. Foi lindo. Sou a pessoa mais emotiva do mundo, mas não chorei, eu estava em choque”. O casamento, que está marcado para fevereiro de 2015, acontecerá lá nos Estados Unidos, onde tudo começou.

Aeroporto JK

A estudante de direito Giovanna Laurenti, 23 anos, e o bancário Alexandre Quadros, 23 anos, se conheceram em setembro de 2011. Dois meses depois, começaram a namorar. Em dezembro de 2014, quando Giovanna foi passar 20 dias em João Pessoa visitando a família, Alexandre refletiu sobre a possibilidade de fazer uma surpresa e pedir a companheira em casamento. Quando faltava uma semana para o retorno da jovem, o rapaz pensou: por que não aproveitar e fazer o pedido no aeroporto?

Com essa decisão tomada, deu-se início à correria: conseguir que a aliança ficasse pronta a tempo, comprar flores, arranjar um terno, reservar um restaurante para depois, conseguir alguém para filmar, fazer uma faixa, conferir horários dos voos… Alexandre não conseguiu conter a ansiedade. “Eu passei muito mal. Vomitei durante toda a noite anterior ao pedido”, conta.

No data do retorno de Giovanna, a família toda estava no Aeroporto Internacional de Brasília. Dezenas de pessoas, entre familiares e completos desconhecidos, se reuniram ao redor de Alexandre, que esperava a namorada na frente do portão de desembarque, com um buquê de rosas. Atrás dele, amigos seguravam uma faixa que dizia “Giovanna, você quer casar comigo?” Estava tudo pronto. Menos a chegada.

O voo estava atrasado. O avião de Giovanna pousou três horas depois do previsto. Alexandre precisou ligar diversas vezes para avisar aos parentes e ao restaurante. “Todo mundo estava fazendo de tudo para dar certo. Eu expliquei a situação para o gerente e ele até me passou o número do celular dele para o caso de eu precisar”, relembra.

Apesar do nervosismo, Alexandre falou algumas palavras, se ajoelhou e fez o pedido. Emocionada, Giovanna disse “sim”. Quem estava ao redor e sequer conhecia os dois ainda se envolveu com a situação. “Tinha gente desconhecida chorando, filmando e, recentemente, eu estava em uma loja e alguém que eu nunca vi veio me perguntar ‘Você não é a noiva do Alexandre?'”, comenta Giovanna.

Alguns meses depois do pedido, Alexandre e Giovanna já planejam a cerimônia (Thaís Rodrigues)
Alguns meses depois do pedido, Alexandre e Giovanna já planejam a cerimônia (Foto: Thaís Rodrigues)

No escurinho do cinema

O publicitário Angelo Carvalho, 24 anos, e o estudante de publicidade e propaganda Raul Gonçalves, 23 anos, se conheceram há quase dez meses no Tinder, um aplicativo de paquera pelo celular. Uma foto do sorriso de Angelo foi o que bastou para que o objetivo de atiçar a curiosidade de um possível paquera – ou novo amigo – fosse alcançado. Raul foi atingido. Angelo conta que estava apenas à procura de uma pessoa para conversar. “Eu só queria conhecer alguém novo; uma pessoa que não soubesse dos meus problemas e com quem eu pudesse me distrair”, explica o jovem.

Para Angelo e Raul, seguir o fluxo padrão nunca foi o foco (Arquivo pessoal)
Para Angelo e Raul, seguir o fluxo padrão nunca foi o foco (Foto: Arquivo pessoal)

Depois da primeira vez em que ficaram, em janeiro deste ano, os laços entre eles se tornavam cada vez mais fortes. Em um mês, os dois já tinham visto coisas muito pessoais e tristes da vida um do outro. Ainda assim, o relacionamento não era chamado de namoro, ficada ou rolo. “Nós apenas decidimos que iríamos ter uma relação e que a sustentaríamos em três pontos: o amante, o amigo e o psicólogo”, descreve Angelo.

Para comemorar os três meses de união, Angelo decidiu sair com Raul, que só descobriu o destino no meio do trajeto, quando olhou o aplicativo de celular que continha as direções para o local. Os dois foram assistir à estreia do filme Cinderela no Cine Drive-In de Brasília.

Depois de o filme terminar, Angelo disse: “Amor, pega a minha caixa de sapatos aí no banco de trás?” O que Raul não sabia é que dentro da caixa havia outra menor. Ela continha pequenos cartões de mesmo tamanho, cada um com uma frase escrita à mão por Angelo. O publicitário havia anotado frases sobre o relacionamento dos dois, o tempo que passaram juntos, algumas brincadeiras e, no fim, pedia Raul em casamento. Uma caixinha com uma aliança vinha logo depois. “Não desconfiei que ele fosse me pedir em namoro, quanto mais em casamento”, confessa Raul.

Apesar de todas as etapas já terem sido concluídas, o casamento está planejado para mais adiante – daqui a quatro anos. O casal quer se estruturar financeiramente, comprar uma casa e os móveis que ainda faltam. Raul diz que o compromisso fez com que os dois se tornassem mais organizados. “A gente não se arrependeu de fazer o pedido. Nós sabemos o que queremos e estamos nos planejando para dar certo. O noivado está nos motivando ainda mais.”

Foto de capa: Estúdio Cabine