Relatos de Violência Obstétrica

Depoimentos colhidos por Mariane Cunha e Nathalia Melo

Leia mais na reportagem As dores do parto

Silvia Badim, 38 anos, professora de saúde coletiva

Rasparam meus pelos pubianos, me anestesiaram e disseram que era procedimento padrão.

Há oito anos cheguei em um hospital privado e fui atendida pela emergência, entrei em todos os protocolos do hospital, não consenti. Rasparam meus pelos pubianos, me anestesiaram e disseram que era procedimento padrão. Passei por uma episiotomia que só soube na hora que a médica estava me costurando. “Tinha cortado um pouquinho para ajudar o bebê a sair”, disse a médica.

Eu tinha alguma noção que o que estava acontecendo era violência obstétrica, mas não consegui argumento no momento, já que sentia muita dor, só queria dar continuidade ao meu parto. Na hora é tudo muito intenso não consegue se dar conta do que está acontecendo direito. Eu só queria embora do hospital, o hospital me deixou péssimas lembranças só queria embora dali, ir para minha casa.

Não desejo a nenhuma mulher um parto com violência é muito ruim depois a gente fica com uma sensação de violação, você é tocada mil vezes, é deixada muitas  vezes a negligência médica e assistencial. Quando chegam para te atender você é tratada como se não tivesse direito pelo próprio corpo é manipulada fisicamente. Fazem com você e com seu bebê, em nome do sistema médico convencional esse padrão brasileiro que é um padrão burro e agressor na hora do parto. Esse sistema violenta mulheres todos os dias.

Agda Yokowo, 29 anos, assistente social

O procedimento deixou em mim uma marca profunda na sensação de ter sido invadida, cortada sem necessidade e sem permissão.

Fui atendida pela médica que estava de plantão no dia, ou seja, não me conhecia e nem conhecia meu caso. Ao chegar e dizer que eu queria parto normal já começaram as pequenas violências na fala da médica, me desestimulando, e dizendo que provavelmente acabaria em cesárea.

Depois me colocou de jejum total, inclusive água, e me encaminhou para colocar ocitocina com soro na veia para acelerar o trabalho de parto. Durante o parto em si, ainda sofri com manobra Kristeller, na qual uma enfermeira subiu na minha barriga para “ajudar o bebê a nascer” e o pior é que durante o procedimento essa enfermeira ainda falava ao celular com uma amiga, com total desrespeito ao meu momento.

No momento do nascimento, a médica praticou outra violência realizando em mim uma episiotomia, sem sequer pedir meu consentimento ou me informar sobre o procedimento. Segundo ela me falou depois, quando eu perguntei se ela havia me cortado, ela disse que era pra facilitar a saída do bebê. Porém não havia indicação nenhuma, pois ela realizou o corte na primeira força que fiz para o nascimento da minha filha, sem sequer ter esperado para ver se o nascimento iria se dar sem tal corte.

Sofri violência do inicio ao fim do trabalho de parto, palavras para desestimular, ocitocina sintética que aumenta ainda mais as dores e o ritmo do parto, que deixa de ser natural e o pior pra mim que foi a episiotomia. O procedimento deixou em mim uma marca profunda, primeiro na alma, na sensação de ter sido invadida, cortada sem necessidade e sem permissão, e depois durante longos meses sentindo dor nas relações sexuais devido ao procedimento.

Todos os procedimentos eram feitos sem minha autorização. No hospital simplesmente quem “manda” é o médico, a mulher não é consultada sobre sua vontade e nem ao menos informada de qualquer procedimento antes de realizar. A médica simplesmente prescrevia e cabia a mim “aceitar”. Além disso, por estar em um momento vulnerável, cheia de sensações, hormônios, medo, etc… não conseguia sequer questionar pensando que a médica poderia não gostar do que eu falei.

Só descobri a violência depois, lendo reportagens na internet, relatos de parto e aprendendo sobre a humanização. Foi depois da minha experiência cheia de violência na primeira gravidez que optei por fazer diferente na segunda. Dois anos depois de ter passado por tudo isso, vivenciei um lindo parto normal, planejado e domiciliar. Minha segunda filha nasceu com todo o respeito que se deve ter por esse momento, com amor, cuidado, carinho… foi nessa segunda experiência que pude entender como o parto pode ser um momento lindo para a família.

Maria Valdinéia Pereira, 49 anos, administradora

Esses procedimentos deixaram um sentimento de indignação e de impotência diante da situação.

A primeira violência foi no momento do parto, onde os médicos não souberam identificar que o bebê era grande demais para que o parto fosse normal. Para que a Fernanda pudesse sair, foram feitas duas episiotomias, que são cortes que aumentam o espaço para a saída do bebê.

Além disso, cheguei ao hospital por volta de 12h, a Fernanda nasceu às 16h, mas eu só consegui um leito às 19h. Enquanto isso, fiquei em uma maca no corredor do hospital. A terceira violência ocorreu quando colocaram a Fernanda em uma roupinha menor do que ela. Percebi que o bebê parecia maior quando dei à luz, tirei a roupinha, e ela estava roxa nas pernas porque estava apertada lá dentro.

Quando consegui um quarto, fui passada da maca para a cama. As enfermeiras foram negligentes ao me mudarem de lugar e eu fiquei mal posicionada na cama. Foi a minha irmã quem teve que me ajudar a me posicionar melhor. Por fim, demoraram muito a levar a minha filha de volta para o quarto e, nesse período, fiquei sem notícias dela. Esses procedimentos deixaram um sentimento de indignação e de impotência diante da situação.

A recuperação foi tranquila, à base de curativos, mas muitos anos depois comecei a sentir muitas dores na barriga. Fui ao médico e descobri que a minha bexiga estava caindo devido às suturas mal feitas no parto. Passei então por um procedimento cirúrgico onde foi colocada uma rede que segurasse a bexiga, simulando a musculatura que havia sido mal costurada. Foi revoltante saber que somos obrigados a confiar a nossa vida e a vida dos nossos filhos a ditos profissionais que nem sempre sabem o que estão fazendo ou, se sabem, são irresponsáveis com a vida.

Leiliane Morais de Carvalho Rocha, 31 anos, assistente social

Senti dores no abdômen por muitos dias e o Arthur nasceu com a cabeça achatada

Tratou-se do parto do meu primeiro filho, Arthur, hoje com 8 anos. Fiz pré-natal na rede privada, mas o parto na rede sus. Fiz curso de gestante, li muito sobre o parto humanizado. Sempre tive medo de ser conduzida a uma cesárea desnecessária. Tive bolsa rota por 48 horas. Nas primeiras 24 horas me dirigi ao hospital e fui mandada embora, a justificativa: “você não vai ganhar agora”. Por insistência da obstetra retornei à noite, fui internada a meia noite do sábado para o domingo.

Peguei o meu plano de parto e coloquei ao lado do prontuário. Sempre Q vista por um profissional, ao avisar sobre o plano de parto, era vítima de chacota. Foi assim, sem dores, sem dilatação, sem acompanhante que começou o primeiro episódio de violência. O confinamento. Quando mais precisava de apoio e suporte.

Às 7 horas, a segunda parte, ocitocina, o sorinho, para induzir o parto. A partir daí, comecei a sentir muita dor e o ambiente a potencializava. Muita luz, muito barulho é muito descaso. Muitas mulheres gritavam e era contidas, eu permanecia calada a dor me deixou exausta e apaguei no período expulsivo, saída do bebê. O pediatra fez a manobra de kristeller para o bebê sair. Senti dores no abdômen por muitos dias e o Arthur nasceu com a cabeça achatada.

Antes disso uma episiotomia que não obteve uma boa recuperação, doía muito. Tive infecção urinária e o Arthur, ictericia e pneumonia. Para o meu terror fiquei 10 dias no hospital. Tudo o que aconteceu fez com que eu me sentisse extremamente violentada, por ser um momento tão importante na minha vida. A proibição do acompanhante foi o que mais me fragilizou. Durante todo o processo sabia que nada daquilo era normal, o que me fez sofrer mais ainda. Senti e sinto que a assistência hospitalar ao parto é repressora e violenta, nada protetora e acolhedora.

Juliana Lins, 29 anos, Publicitária

Eu vi médica batendo em gestante porque estava gritando. Não podia gritar, gemer já que o barulho atrapalharia as outras.

Tudo começou com a médica do pré-natal. Ela veio com a história que com 40 semanas o bebê entra em sofrimento fetal, que eu tinha que fazer uma cesárea, que o bebê estava grande. Como na época não tinha plano de saúde, não cogitei fazer cesárea.

Por conta disso entrei em desespero, 41 semanas e o bebê não nascia. Eu pedi para me internarem e para induzirem o parto. Quando cheguei no hospital foi o kit completo, não me depilaram porque eu tinha depilado, fizeram a lavagem sem a menor consulta e já entrei com ocitocina.

Toque de hora em hora, muito dolorido. Eu vi médica batendo em gestante porque estava gritando. Não podia gritar, gemer já que o barulho atrapalharia as outras. Quando o parto chegou no período ativo, eu não podia mais andar pelo quarto, nem ficar sentada, porque ia sentar na cabeça do bebê. Tive que ficar deitada de barriga para cima o trabalho de parto inteiro.

Quando fui ganhar o bebê, o médico fez o toque e eu desmaiei, porque entrei no hospital às 8h e fiquei até a hora do parto. Não podia comer e beber nada, porque caso se alimente você pode fazer xixi ou cocô. Então eu tive o primeiro desmaio e me livrei de ir correndo para sala de parto como as outras mães.

Na hora que deitei na maca tiraram a minha roupa, porque eles furaram a minha bolsa e o líquido molhou o tecido. Já foram amarrando minha perna e já dando a anestesia para fazer a episiotomia. O médico não perguntou nada. Durante o parto eu desmaiei na hora da contração, eu não sei como meu filho nasceu e não me deram acesso ao prontuário. Não me passaram a quantidade de pontos que deram, o médico disse: “Relaxa, foi menos de cem”.

Não vi meu bebê no momento que nasceu, o levaram. Minutos depois voltou, amamentou nas primeiras horas de vida. Depois que ele fez a costura da episiotomia, enfiou o dedo no meu ânus, foi muito constrangedor e muito dolorido.

Fui para internação, tenho incompatibilidade sanguínea e minha internação é prolongada, por isso. Esta hora foi a pior para mim, não podia sentar, só conseguia ficar deitada de lado. Fiquei sozinha e meu filho chorava muito, teve muita cólica quando nasceu. Mamava bastante e para atender as necessidades dele sozinha meus pontos romperam porque levantava toda hora. As visitas eram 1 hora no dia, apenas.

As enfermeiras se negavam a dar medicação para a gente porque tinha horário. Entrava no quarto uma fumaça preta que vinha da lavanderia, cheirava a inseticida. Porém só descobri que tudo o que aconteceu no hospital era violência obstétrica há pouco tempo. Para mim aquilo tudo que passei era procedimento padrão de um parto.

Foto de capa: Tânia Rêgo/Agência Brasil