As dores do parto

Procedimentos desnecessários e prejudiciais no parto normal geram complicações e marcas nas mães

Mariane Cunha e Nathalia Melo

Alegria para a maioria das futuras mamães. O grande dia – o nascimento – representa o momento mais importante, no qual a mãe vê, pela primeira vez, o filho. É hora do parto. Se por um lado, ela consegue se “livrar” de uma cesariana – recomendada em somente 15% dos casos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), por outro, a possibilidade de um parto normal pode também representar riscos e uma violação do corpo feminino.

Qualquer procedimento feito contra a vontade e a dignidade da mãe, de acordo com a OMS, é violência obstétrica. O médico José Domingues alerta que tal expressão é muito forte e deve ser usada com cuidado. “Se faço um procedimento com necessidade e evidência científica, sou um obstetra violento? Não é assim”. No entanto, a professora de saúde coletiva Silvia Badim, 38 anos, passou por procedimentos que considera agressivos: “Fica uma sensação de violação, você é tocada mil vezes, negligenciada”.

A Lei do Acompanhante, de 2005, garante companhia à mulher caso ela solicite. No entanto, a publicitária Juliana Lins, 29 anos, ficou oito horas sozinha contra a própria vontade. Utilizaram nela o sorinho – hormônio sintético, usado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para induzir o parto, principalmente quando a mãe está com contrações muito espaçadas. A médica obstetra Rachel Costa esclarece que, como qualquer outra intervenção, se usada da maneira errada, apresenta riscos: “Caso exagere na dose ou aumente demais as contrações, pode levar ao sofrimento fetal e para a gestante”.

Leia relatos de Violência Obstétrica

Intervenções

A violência obstétrica não é considerada crime no Brasil. Uma em cada quatro mulheres sofre agressões na hora do parto, segundo pesquisa divulgada pela Fundação Perseu Abramo, em 2010. No entanto, em agosto deste ano foi instituído, no Distrito Federal, o Estatuto do Parto Humanizado para garantir assistência às gestantes nas unidades de saúde públicas e privadas. Militantes do movimento humanizado, as doulas, reconhecidas pela Classificação Brasileira de Ocupações, têm como princípio cuidar, informar, apoiar as mulheres.

A doula Patríca Loraine, 32 anos, afirma que o desrespeito no parto normal acontece porque ele incomoda mais o sistema médico. A também doula Ludmila Suaid, 36 anos, acredita que existam profissionais de saúde desatualizados. Para a pesquisadora e obstetra Melania Amorim, muitos médicos praticam o que aprenderam nos anos de estudo e veem o corpo da mulher como dependente deles para parir.

Antes de Juliana estar pronta para a saída do bebê, as intervenções começaram e foi assim que ela conheceu o enema – lavagem intestinal. Em nenhum momento explicaram o que aconteceria e não pediram permissão para fazer. Daquela porta em diante o parto não era dela e sim da equipe médica. Para a doula Jéssica Macêdo, 26 anos, quanto menos intervenções, menos riscos de condutas violentas. A obstetra Rachel complementa: “Uma intervenção leva a outra”.

A assistente social Agda Yokowo, 29 anos, conta que foi obrigada a ficar em jejum, inclusive de água. O artigo Assistência ao primeiro período do trabalho de parto baseada em evidências, de 2010 explica que “não foi visto nenhuma justificativa para a restrição de líquidos e alimentos”. O obstetra Domingues concorda, porém alerta: “A mãe não pode comer feijoada, por exemplo. O estômago cheio poderá provocar vômito”.

Durante o nascimento, uma enfermeira subiu na barriga de Adga para empurrar o bebê, manobra chamada de Kristeller. “O pior é que ela ainda falava ao celular, com total desrespeito ao meu momento”, acrescenta. Juliana ouvia as orientações no hospital: não podia falar, gritar nem gemer para não atrapalhar outras mães. No momento do nono e último exame de toque para verificar dilatação, sem forças, ela desmaiou.

De cadeira de rodas foi para a sala de parto. Furaram sua bolsa, a obrigaram a ficar deitada, amarraram suas pernas e fizeram, sem consultá-la, a episiotomia – corte entre a vagina e o ânus, usado para reduzir as chances de rasgar o órgão feminino.

A realidade é a mesma de Silvia, que descobriu o corte apenas quando a médica já estava costurando. Agda também passou por isso, sem consentimento: “O procedimento da episiotomia deixou em mim uma marca profunda”. Para a médica Melania, esse procedimento tem chances de provocar sangramento, complicações da cicatrização, infecção urinária e dor no ato sexual.

No entanto, o médico Domingues acredita que é preciso analisar cada caso: “Não é assim, às vezes fazer uma episiotomia pode salvar a vida do bebê”.  Segundo a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS), realizada pelo Ministério da Saúde, o número de episiotomias chegou a 72% nos centros urbanos.

Conhecer

Para as doulas, a falta de informação é um dos obstáculos no combate à violência. Ludmila acredita que muitas vezes as mulheres sofrem com isso mas não percebem, pois a cultura atual é medicamentosa e dá poder aos médicos. “Violência obstétrica é falta de respeito, consideração e empatia com as mulheres”, afirma. Segundo Jéssica, informar-se é o passo para a mulher ter chances de buscar atendimento que respeite suas vontades e o tempo do bebê.

Foi apenas após começar a ler sobre humanização que a ficha caiu e Juliana entendeu que os procedimentos pelos quais passou não eram corriqueiros do parto normal, mas sim violentos, dispensáveis e prejudiciais. Silvia concorda e acrescenta: “O que eu passei só me despertou a necessidade de lutar ainda mais para que as mulheres percebam que não precisam passar por isso”. No entanto, a doula Patrícia acredita que, além da informação, é importante que haja entrega por parte da mãe, física e emocionalmente.

Apesar das medidas, não é difícil encontrar mulheres que sequer saibam o que significa violência obstétrica. “Infelizmente as intervenções são a arma do médico. Qual é a mãe que vai teimar?”, diz a obstetra Rachel. Ludmila acrescenta que deveria ser desnecessário haver leis que digam ao profissional de saúde para tratar a grávida com respeito e deixa o alerta: “Não é porque a sala de parto é rosa, cheia de florzinhas que o parto é humanizado. Qual ser humano não quer ser tratado com dignidade?”.

Foto de capa: Tânia Rêgo/Agência Brasil