Ouvir para compreender

Escuta sensível propõe valorizar e respeitara criança.Desenvolve o  cognitivo, o motor e a percepção de mundo

Gabriela Gregorine e Jelsyanne Albuquerque

Escutar o que as crianças têm a dizer exige vontade, tempo, dedicação e muita paciência. A infância é a fase mais marcante na vida do ser humano, na qual será ensinado o que é certo e errado. É quando as crianças copiam os exemplos que vão seguir e quando seu caráter e personalidade são formados.O método de ”escuta sensível”, conceito criado por René Barbier, diz respeito à arte de ouvir com atenção, exercitar a empatia e se relacionar com o outro, levando em conta os desejos, os sentimentos, o comportamento e as ideias.

Respeitar a criança como um indivíduo complexo, criativo e livre, é o primeiro passo desse dever de casa. “Aqui em casa não coloco regras quando o assunto é a criatividade. Minha filha desde sempre risca paredes, tem acesso a texturas diferentes, musicas, tintas, massinhas, livros. Nossa casa é uma verdadeira obra de arte”, comenta Rosanna Alvares Britto, mãe da pequenina Laura de 3 anos.

Para a psicopedagoga, Graciely Garcia Soares, a escuta sensível é a oportunidade de um novo olhar para o desenvolvimento. “Deve-se considerar a educação infantil como um tempo de cuidado, brincadeiras e respeito à individualidade”, explica.Rosanna Alvares Britto atesta o progresso da filha a partir da escuta sensível. “Hoje, com 3 anos de idade, ela faz desenhos fáceis de identificar, conhece todas as formas geométricas, cores e gosta de desenhar todos os dias. Além do gosto pela arte, é notável todo o seu desenvolvimento na parte motora.”

O progresso da criança se expressa em sua convivência social ou no ambiente em que vive. A mãe do Nickolas de 4 anos, Eroneide Moreira Merola, conta que as histórias e músicas fazem parte do cotidiano e ajudam no desenvolvimento do pequeno. “É a hora que sinto mais intimidade entre a gente. Acho que a linguagem, o vocabulário e a imaginação é bastante rico, principalmente por causa desses momentos”.

Importância de ouvir

Uma criança que não é ouvida e estimulada na infância pode ter problemas na fase adulta. A psicóloga Caroline Cirilo Alves diz que muitos pais procuram psicólogos relatando problemas dos filhos. Contudo com o desenvolver dos atendimentos, é identificado que esses problemas muitas vezes são causados pela falta de atenção, escuta e diálogo.

Quando negligenciadas, as crianças podem apresentar sinais como: impulsividade, agressividade, birra, manha, comportamento retraído, dificuldade no desenvolvimento da fala,afastamento dos pais, entre outros. Uma forma fácil é brincar com as crianças. “O brincar é uma ótima forma de escuta, a criança sem ver ou perceber relata o que está havendo, o que pensa e o que sente.Além de estimular seu desenvolvimento motor, cognitivo e de percepção”, aconselha a psicóloga.

Susanne Melo, aluna de Comunicação Social pela Universidade Católica de Brasília, conta que quando criança precisou do auxílio de sua professora. “Minha professora me acompanhava dentro e fora do colégio, passei por um momento bem difícil e comecei a ficar desestabilizada. Ela percebeu, me ouviu e me ajudou,mais do que um professor comum faria. Hoje, sinto que devo muito do que sou ao fato de ela ter me ajudado”.O que a criança vive hoje pode resultar no adulto de amanhã.“É mais difícil ser infeliz ou insatisfeita, quando você cresce sabendo que tem todo um suporte de pessoas que estão dispostas a ajudar no que for preciso”, completa a estudante.

Outras mobilizações

O governo também reconhece a importância da escuta sensível. A Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEDF) por meio da Subsecretaria de Educação Básica (Subeb),está investindo na metodologia nas Regionais de Ensino do DF desde 2013 e neste ano, os esforços estão sendo ampliados.

A Coordenação de Educação Infantil (Ceinf) preparou o “Guia da Plenarinha” em dois módulos, que trazem para o currículo escolar, a concepção de que a criança é um protagonista infantil, um sujeito de direito. O documento deste ano tem como tema:Escuta sensível às crianças: uma possibilidade para a (re)construção do Projeto Político Pedagógico. O objetivo é oportunizar a participação das crianças no projeto pedagógico das unidades de educação infantil. De acordo com a coordenadora de educação Infantil da SEDF,Michelle Abreu Furtado,o documento foi dividido em dois módulos. O primeiro contextualiza a escuta infantil e o segundo propõe mudanças a partir do sugerido pelas crianças.

Confira entrevista com Silmara Lídia Marton, professora do Instituto de Educação Angra dos Reis da Universidade Federal Fluminense:

  1. O que é escuta sensível?

A “escuta sensível” é um conceito desenvolvido por René Barbier que diz respeito à arte de ouvir e que tem como princípio a empatia na relação entre o pesquisador e “outro”, na perspectiva de uma “abordagem transversal” nas ciências humanas.

No entanto, no percurso de minha pesquisa de doutorado junto ao Grupo de Estudos da Complexidade do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (entre 2003 e 2008), desenvolvi a noção de “escuta sensível” como uma forma de pensar que recruta a “escuta perto da natureza”, de Claude Lévi-Strauss, a escuta musical e a escuta das “paisagens sonoras”. A “paisagem sonora” é a tradução de um neologismo criado pelo educador musical canadense Murray Schafer que diz respeito a qualquer campo acústico, que pode ser uma música, um som natural ou produzido de modo artificial pela cultura. A “escuta perto da natureza” diz respeito à “lógica do sensível” que opera pelo exercício de nossas faculdades sensíveis (o ouvir, o cheirar, o tocar, o olhar, o degustar). Exercita uma lógica de pensar que é fundamental para o conhecimento. Na mesma direção, estou em sintonia com Edgar Morin quando recruta à complementaridade entre os dois pólos do pensamento: o  simbólico/mitológico/mágico e o empírico/técnico/racional. Sociedades mais próximas da natureza exercitam mais essa relação. Pude experimentar essa escuta numa paisagem particular, a Lagoa do Piató, localizada na região do Assu (Rio Grande do Norte) e, em especial, a partir das memórias de Francisco Lucas da Silva (Chico Lucas), apresentado a mim pela orientadora de mestrado e doutorado, a Profa. Maria da Conceição de Almeida. A escuta musical prevê o exercício de ouvir músicas e “paisagens sonoras” conhecidas e desconhecidas por alguém e, mais amplamente, fazer disso uma experimentação de estados de sensibilidade que dialogam com o silêncio, o mistério, o caos e, ao mesmo tempo, com a ordem, a harmonia. Escutar música é ouvir a complexidade de nossa condição humana e do mundo. É acessar esse mistério.

A escuta sensível, quando exercitada, se oferece como uma pedagogia da escuta que implica em atenção do sujeito ao mundo, ao seu entorno e a si mesmo. Vivemos numa sociedade muito barulhenta, com excesso de conceitos, imagens e sons. Vivemos o tempo da aceleração que impede uma conexão mais singular, profunda e imediata com as coisas e, na maioria das vezes, ficamos destituídos de sentidos. Sugiro que reconstruamos esse tempo pelo encorajamento de uma escuta mais atenta, vagarosa, curiosa, parcimoniosa, cuidadosa, autointerrogativa, afetiva, aguçada, sensível e firme, impulsionada pelo próprio prazer de pensar.

2. Quais critérios/indicadores estabelecem a qualidade do ensino infantil? 

Não estudo esses critérios e indicadores. Mas o que me sinto em condições de falar a respeito é tomando por base o que percebo ainda nas práticas e perspectivas teórico-metodológicas que se reproduzem na educação escolar junto às crianças. Há predomínio de uma lógica pautada na ideia de que “devam” ser formadas para desenvolver o raciocínio lógico, formal e calculista, muito voltado às expectativas dos adultos, de nossa sociedade, precisando responder e muito rapidamente a questões que não são delas. Não penso que devam deixar de exercer tal raciocínio, mas me preocupo em que, como resistência a esse imperativo, sejam as crianças estimuladas ao exercício do sentir/pensar num outro tempo.

3. Qual a relação entre escuta sensível e a qualidade na educação infantil?

Posso responder essa pergunta me reportando a uma experiência. Entre 2010 e 2011, tive a oportunidade de realizar o projeto de ensino e extensão “Filosofia com Crianças: uma experiência pelos sentidos numa escola municipal de Angra dos Reis” (2010-2011), ao lado Profa. Dra. Dagmar de Mello e Silva, também docente do Instituto de Educação de Angra dos Reis (IEAR) da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde trabalhamos, e numa parceria entre o Instituto e a Escola Municipal Cornelis Verolme. O projeto pretendia suscitar entre professores e crianças, no contexto escolar, uma experiência filosófica através da estética da arte como criação de sentidos para si e para o mundo. Para tanto, eram utilizados filmes, músicas, paisagens sonoras, pinturas, histórias, contos, entre outros recursos que, na qualidade de “dispositivos de políticas de cognição inventivas”, poderiam acionar estados difusos de sensibilidade, despertando uma experiência do pensamento como “acontecimento” que emerge das relações do encontro entre sujeito e os signos do mundo, na perspectiva de sua “autoformação”. À medida que iam acontecendo nossos encontros com as crianças, começamos a perceber que aquela experiência somente poderia ganhar mais sentido se nos puséssemos em estado de escuta atenta e aberta para as suas singularidades, cujas dimensões do sensível deveriam estar cada vez mais presentes. Em muitos encontros, trabalhamos a escuta do silêncio, a escuta musical, a escuta das “paisagens sonoras” que faziam parte do contexto das crianças e foi maravilhoso. A articulação entre “Filosofia com Crianças” e a escuta sensível estimula a força interrogante própria das crianças na direção da afirmação de suas singularidades. À medida que iam sendo incentivadas pela escuta, sua experiência do pensar fluía. Venho me dedicando a projetos de pesquisa, extensão e ensino dessa natureza, envolvendo os estudantes da universidade também.

4. Há escuta sensível na relação professor-criança na educação infantil no Brasil?

Há, certamente, experiências de professores nas escolas que estimulam, suscitam e favorecem a “experiência do pensar” entre as crianças. A “Filosofia com Crianças” em escolas na cidade de Duque de Caxias, promovida por pesquisadores e professores que trabalham com o Prof. Walter Kohan, da UERJ, é uma delas e fundamental. Pioneira nesse sentido. Há professores/pesquisadores envolvidos em “educação musical” também e que desenvolvem projetos nessa área voltados à educação infantil com experimentações de escuta de “paisagens sonoras”. Mais amplamente, mesmo que predomine ainda a lógica dos resultados, há práticas pedagógicas dentro das quais os professores estimulam as crianças à arte, ao sentir, ao contado direto com a natureza. Mas, desconheço outras experiências do exercício da “escuta sensível” como sugiro.

5. Quais as características que um professor deve buscar/ter para exercitar corretamente a escuta sensível?

Penso que o professor pode viver seu processo de “autoformação”, assim como os estudantes e junto com eles. Todo processo de formação pressupõe a “autoformação” que, como entende Morin, é “autoecoorganização”. Cada um de nós autoorganiza as informações, sinais, signos do meio ambiente, da cultura, da sociedade. Somos disso dependentes. Ao mesmo tempo, cada um de nós é capaz de lidar com os desequilíbrios e reordená-los em novas organizações, em níveis mais complexos. Como desdobramento desse conceito, sugiro que esse processo se realize pela construção de paisagens próprias dos sujeitos com o exercício da escuta sensível e, em especial, que os professores façam essa experiência também. Junto com os estudantes poderão partilhar os mistérios e a complexidade de sua condição humana. Sendo assim, se pudesse pensar em algo a ser buscado no professor seria simplesmente a sua disposição para se expor a essa escuta sensível e junto com seus alunos. Não há modelo, padrão, forma correta, método, senão abertura a esse desconhecido que é absolutamente imprevisível, mas sede de sentidos para ambos – professor e aluno – como afirmação de sua condição humana. É uma alternativa de resistência do professor também às pressões de uma qualidade de ensino que não cabe somente a ele garantir, mesmo ciente do seu compromisso de educar.

6. Você acha que a falta de valorização dos professores e a correria do dia a dia pode desestimulá-los ou atrapalhá-los na prática da escuta sensível com as crianças?

Sim e não. Se, por um lado, há prazos, programas curriculares a cumprir que dificultam muito o momento de pausa necessário para pensar e colocar em prática essa escuta, por outro lado, é justamente dessa ausência de uma experiência mais vagarosa e íntima que emerge a necessidade de colocá-la em ação. Os professores têm a oportunidade de acessar um contexto de diversidade de culturas, experiências, saberes, práticas próprias e dos seus alunos que se oferecem como um campo difuso, mas potente de reservas de sabedorias que são silenciadas, pouco escutadas, pouco afirmadas. Então, é sempre possível que, no tempo da aceleração das atividades em que a escola está imersa, os professores realizem experiências de escuta sensível junto com os alunos e demais atores desse espaço e que, aos poucos, invadam criativa e positivamente seu contexto e, mais amplamente, suas vidas. Não há garantias, mas grandes possibilidades. O professor pode propor momentos de silêncio, não como regra, mas como espaço/tempo imprescindível à escuta. Pode sugerir caminhadas de escuta das “paisagens sonoras” da escola, do bairro, da comunidade, estimulando os alunos a exercitarem a audição, que migrará para o exercício das outras faculdades sensíveis. As crianças operam o pensamento de forma não fragmentada e nos ensinam a voltar a essa infância que todos temos. Pode o professor realizar escutas musicais e conhecer as músicas que as crianças ouvem e estimulá-las a escutar outros repertórios musicais distintos de sua cultura e que recrutam a paisagens afetivas, numa polifonia de estilos. Pode o professor, no interior da sala de aula, se dispor a escutar mais do que explicar e mostrar algo. Pode criar sempre.

7. Você acha que os pais têm estimulado e ouvido os filhos de maneira satisfatória, conforme suas necessidades?

Todos, pais e filhos, estão atolados de obrigações e implicados na necessidade de atingir e/ou afirmar um determinado lugar na vida social. É legítimo. Porém, há um problema maior que afeta a todos na contemporaneidade: a falta de tempo/espaço para fazer escolhas, para identificar qual o sentido do que se está fazendo – Para quê? Para quem? Por quê? Nossas vidas carecem de experiência. Nessa direção, gosto muito do que diz  Jorge Larrosa Bondía em seu artigo “Notas sobre a Experiência e o Saber de Experiência” (2002), destacando que experiência se trata de algo “que nos passa”, “o que nos acontece”, diferentemente do que se passa, acontece ou toca fora de nós mesmos. Vivemos muito para algo que está fora de nós mesmos. No que diz respeito aos pais e seus filhos, parece-me que pouco tempo tem sido exercitado para convivência, estar junto e, se isso acontece, muito vinculado ao passar o tempo, atrelando lazer a consumo. Parar para se ouvirem entre si, pais e filhos, é uma das grandes possibilidades, pois um é sempre mistério para o outro. E, para isso, não é necessário o uso de tecnologias sofisticadas ou outras mediações, senão a criação e o estímulo do vínculo entre os dois.

8. Você acha que essa atenção/escuta às crianças na infância trazem benefícios na fase adulta?

Não gosto de resguardar expectativas, pois elas facilmente se convertem em programas, métodos com vistas a garantias. Também acho que seria incongruente com essa escuta esperar dela benefícios futuros, senão tomá-la como uma aposta na “infância” que se dá no presente, no agora. Sobre isso, Walter Kohan tem um artigo que me afeta bastante e que gosto muito de divulgar. Chama-se “A infância da Educação: o conceito devir criança”, disponível na internet. Está a reportar a uma infância como condição da experiência humana e que não se reduz a um tempo cronológico. Há uma passagem muito bela que diz assim: “Quem sabe possamos encontrar um novo início para outra ontologia e outra política da infância naquela que já não busca normatizar o tipo ideal ao qual uma criança deva se conformar, ou o tipo de sociedade que uma criança tem que construir, mas que busca promover, desencadear, estimular nas crianças, e também em nós mesmos, essas intensidades criadoras, disruptoras, revolucionárias, que só podem surgir da abertura do espaço, no encontro entre o novo e o velho, entre uma criança e um adulto”. Não saberia agora dizer melhor que isso.

9. O que deve estar na proposta pedagógica da escola para que ela não seja apenas uma transmissora de conteúdos, mas que também estimule a humanização, a criatividade e a emancipação do aluno?

Distante da ideia do dever, sinto-me muito mais à vontade para fazer o convite à experimentação, não como prevê a racionalidade positivista, mas como campo de experiências movidas pelas intensidades, desejos e liberdades. Sugiro pausa, que não é paralisação, mas possibilidade para escutas sensíveis. Ninguém pode fazer a experiência para o outro e pelo outro, senão por si mesmo. E dessas experiências entrelaçadas, algo de libertador acontece. Cada encontro é sempre imprevisível.

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